Você, a COVID-19 e o método científico

O vírus causador da COVID-19 mudou completamente nossa forma de ver e vivenciar o mundo. Esse cenário de fechamento de comércios e fronteiras, antes visto apenas nas telas do cinema, agora faz parte da nossa realidade. Há pouco tempo atrás, era difícil de se imaginar, para a maioria da população, que um ser microscópico poderia trazer tantas mudanças.

De repente, todos querem respostas para as perguntas mais elementares: de onde veio esse vírus? Por que ele é tão transmissível? Ele é mesmo tão letal? Por que eu preciso ficar em casa, usar máscara, e ficar longe daqueles que amo? Por quanto tempo?

Nesse momento, a ciência aparece como a “senhora dona-da-verdade”, possuidora de todo o saber. Todos esperam que ela responda, agora, a todas essas perguntas.

Para entendermos a ausência de algumas respostas e a mudança de direção algumas vezes, precisamos entender como a ciência funciona!

Como a ciência tira conclusões?

É claro que para entender o método científico é preciso muito estudo. Vamos aqui dar uma explicação resumida evidenciando um exemplo de como controlar a pandemia.

O primeiro passo para se obter uma conclusão científica é se estabelecer uma hipótese. Nesse momento, o cientista observa a realidade e faz suposições que possam explicá-la. No contexto da pandemia, podemos pensar na seguinte hipótese: ao se reduzir a circulação de pessoas nas ruas, o número de infectados pelo SARS-CoV-2 será reduzido também.

Na segunda fase, essa hipótese será testada.

Aí começam alguns problemas. Como podemos testar essa hipótese? Idealmente, manteríamos uma população em isolamento, e outra sem. Depois, comparamos os resultados.

Vendo o caos que viviam alguns países antes de começarem o isolamento, seria ético não recomendar o isolamento e deixar uma população vulnerável ao vírus?

Aqui já observamos que, muitas vezes, principalmente em situações de urgência, não há formas de testar algumas hipóteses. Para piorar, não havia hipóteses alternativas que nos auxiliassem a diminuir o ritmo de infecção do SARS-CoV-2.

No entanto, vimos que muitos países tomaram medidas distintas quanto a forma de realização ou ao início do distanciamento social ou lockdown. Comparar a situação de países ou regiões que tomaram medidas distintas é a única forma de se analisar esses dados. E aí está o segundo “freio” nas respostas que a ciência pode nos trazer. É preciso tempo. Talvez o resultado observado no primeiro mês seja diferente ao fim de um semestre… E cada país tem suas peculiaridades (hábitos, condições de saúde, clima) que podem interferir no resultado.

A ciência é uma ferramenta que nos guia

É importante que nenhuma verdade seja vista como absoluta! A realidade pode ser distinta após alguns meses. Este processo, chamado método científico permite que a ciência seja capaz de se rever e se corrigir!

Se queremos as respostas agora, temos que encará-las como “respostas de agora”, e não como posições absolutas e imutáveis. A ciência deve ser entendida como uma ferramenta para aprendizado constante.

O que a ciência nos proporciona é a capacidade de tomar decisões frente a uma observação da realidade. Pensar que não podemos ouvir a ciência porque ela não sabe de tudo agora é assumir nossa ignorância e não aprender nunca.

A ciência é nossa única ferramenta para termos um amanhã melhor do que temos hoje!

REFERÊNCIAS

Vieira JM, Ricardo OP, Hannas CM, Kanadani TM, Prata TS,  Kanadani FN. What do we know about COVID-19? A review article. Revista da Associação Médica Brasileira, 2020

Rull V. The most important application of science. EMBO Rep, 2014

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