Viagem pelas savanas da Amazônia

É impossível pensar na Amazônia e não se lembrar das suas florestas verdes, úmidas e quentes que se perdem de vista, dos rios caudalosos e volumosos, bem como de sua fauna e flora exuberantes e vistosas. A Bacia Amazônica é o maior componente da região neotropical. Ela tem mais de oito milhões de km2 de florestas, inserida em um dos biomas mais ricos do planeta. Possui um clima quente e úmido, mas com distribuição heterogênea de precipitação, e também da vegetação. A Floresta Amazônica é a maior floresta tropical úmida contínua do mundo. E o Brasil abriga 60% da área total do bioma.

E quem poderia pensar – pelo menos em um primeiro momento – em visitar a Amazônia e vislumbrar uma área de savana? Isso mesmo, uma savana arbustiva de vegetação mais rasteira e menos verde que a luxuriante floresta, ou uma área que lembra a vegetação mais rústica como a Caatinga. Elas podem estar sobre um solo arenoso claro ou outros tipos de solos. Além disso, formam campinas e uma vegetação que lembram as Caatingas do nordeste ou o Cerrado do Brasil Central. Sim, na Amazônia existem diversas manchas de savana, que ainda guardam muitos segredos e até mesmo para a ciência existem diversas perguntas a serem respondidas.

Não há nem mesmo consenso entre os cientistas sobre a área total dessas fisionomias vegetais que estão inseridas no meio da Floresta Amazônica. Algumas estimativas sugerem que elas abrangem áreas que somam aproximadamente 335 mil km2 (ou 5% da área total do bioma). Estão localizadas dentro do Brasil, Bolívia, Venezuela, Peru, Colômbia, Guiana Francesa, Guiana, e Suriname. Muitas dessas áreas ainda nem foram mapeadas ou estudadas. No Brasil, elas podem ser encontradas nos estados de Roraima, Amapá, porção noroeste do Pará, Amazonas e Rondônia.

Existem basicamente três tipos de savanas dentro da Amazônia: a primeira ocorre em áreas sazonalmente inundadas. Nesses locais a vegetação arbórea não existe em razão de fatores limitantes do solo. São encontras em regiões do Amapá e da ilha de Marajó, por exemplo. No entanto, a composição de espécies entre essas regiões sejam ligeiramente diferentes.

O segundo tipo ocorre em regiões com o solo muito pobre em nutrientes, com solo arenoso branco, onde a drenagem das águas ocorre de forma muito rápida, e por conta dessa peculiaridade, abriga diversas espécies vegetais endêmicas.

Finalmente o terceiro tipo é reconhecido pelo seu aspecto geral de campo de gramíneas e com árvores e arbustos esparsos. Ao contrário das savanas de areias claras, os endemismos aqui são raros, e o fogo mais comum. Esse é o tipo mais comum de áreas de savanas encontradas na Amazônia brasileira. Há ainda manchas de campina e vegetação tipo caatinga entre o Rio Branco e o Rio Negro, em Roraima, estabelecidas sobre um solo empobrecido de nutrientes.

Ainda se sabe pouco (menos ainda do que a gigantesca floresta circundante) sobre as espécies que habitam essas manchas, como elas se relacionam com as espécies tipicamente florestais, e se os organismos podem fluir das manchas de savana para a grande floresta tropical. Certamente para muitas espécies não existe esse fluxo, e ocorre um fenômeno de isolamento em ilhas de vegetação.

Isso mesmo! Muitos organismos típicos de áreas savânicas abertas são incapazes de cruzar a floresta tropical e permanecem isolados nessas manchas como se estivessem no meio do oceano em alguma ilha cercada de água por todos os lados! Engana-se quem pensa que essa área é pobre em diversidade. Justamente por conta desse isolamento, essas regiões apresentam uma diversidade única e muito rica.

As mudanças globais na paisagem ao longo dos milhões de anos de evolução de toda essa biota proporcionaram peculiaridades que só podem ser encontradas nessa região. Como por exemplo, espécies aparentadas de lagartos que vivem em áreas florestais e de savana, e que tem comportamentos bem distintos. Aqueles que vivem nas florestas normalmente vivem sobre as árvores. Por outro lado, nesses ambientes savânicos adotam um padrão de viver sobre pedras. Isso é a evolução atuando, e as forças de seleção do meio diversificando os organismos vivos!

Essas áreas são de reconhecida importância para a conservação, pois abrigam uma rica biodiversidade endêmica. Apesar disso, há um número baixíssimo de estudos sobre essa composição de espécies tão única. Segundo dados da pesquisa de Carvalho & Mustin (2017) somente 136 estudos abordando toda a diversidade foram feitos nesses enclaves de savana nos últimos 80 anos!

Como fazer políticas públicas de conservação da Amazônia sem levar em consideração essas peculiares áreas tão importantes? Além disso, como protegê-las sem ao menos entender como funciona a dinâmica ecológica dessas áreas? E como elas se relacionam com os ambientes florestais do entorno? Esse é outro desafio a ser vencido.

Apesar de tudo isso, estima-se que 13,4% dessas áreas estão sobre proteção estrita. O mais alto grau de proteção de acordo com o sistema brasileiro que coordena as unidades de conservação, ou ainda pertencem a áreas indígenas. Apesar da importância do bioma Amazônico, o processo de desmatamento atingiu taxas de 2.24-2.55 x106 ha/ano durante o período 2000-2005. E mesmo atualmente, continua sendo ameaçado pelos desmatamentos constantes em função da expansão agropecuária, atividades madeireiras e mineração. Essas áreas que possuem o solo arenoso claro ainda sofrem com a destruição causada pela extração de areia para a construção civil.

Apesar de o Brasil ter um dos maiores sistemas de áreas protegidas do mundo, de acordo com Bernard e colaboradores (2014) desde 2008 estamos experimentando um aumento de rebaixamento de categoria de proteção, diminuição de tamanho, e destituição de áreas protegidas na Amazônia. Principalmente para privilegiar a construção de instalações de geração e transmissão de energia elétrica. Apenas na Floresta Amazônica brasileira, o Congresso Federal do Brasil propôs a alteração dos limites das unidades de conservação que cobriam 2,1 milhões de ha.

Nenhum desses eventos foi baseado em estudos técnicos, impactos sobre a biodiversidade ou em consultas a sociedade civil e organizações públicas. Pelo contrário, há um forte lobby dos setores de agronegócio, construção e energia para investimentos no bioma. Há uma escassez de recursos e de pessoal para controlar áreas protegidas no Brasil, onde a estimativa média é de apenas um funcionário para cada 187.100 ha de unidade de conservação federal.

Portanto, é preciso repensar a política de desenvolvimento do país. E também estabelecer uma agenda consciente e ambientalmente amigável. Ainda ignoramos muitas informações que podem estar escondidas dentro de florestas e savanas.

Que tal agora sempre que você for pensar em Amazônia, você tente imaginar o quão complexo pode ser esse mosaico de vegetação, e não simplesmente uma floresta com árvores frondosas? A natureza tem nas suas belas silhuetas, um mundo de cheio de mistérios a serem respondidos.

 

REFERÊNCIAS

Adeney JM, Christensen N, Vicentini A, Cohn-Haft M. White-sand Ecosystems in Amazonia. Biotropica. 2016.

Bernard E, Penna LAO, Araújo E. Downgrading, downsizing, degazettement, and reclassification of protected areas in Brazil. Conservation Biology. 2014.

Carvalho W.D., Mustin K. The highly threatened and little known Amazonian savannahs. Nature Ecology & Evolution. 2017.

Eva HD, Huber O. Una Propuesta para la Definición de los Límites Geográficos de la Amazonía. Joint Research Center, European Commisión & the Organización del Tratado de Cooperación Amazónica Luxemburgo: Oficina de Publicaciones Oficiales de las Comunidades Europeas. Document No. EUR21808-ES. 2005.

Eva HD, Achard F, Beuchle R, Miranda E, Carboni S, Seliger R, Vollmar M, Holler WA, Oshiro OT, Arroyo VB, Gallego J. Forest cover changes in Tropical South and Central America from 1990 to 2005 and related carbon emissions and removals. Remote Sensing 4. 2012.

Leite RN, Rogers DS. Revisiting Amazonian phylogeography: insights into diversification hypotheses and novel perspectives. Organisms Diversity & Evolution. 2013.

Prance GT. Islands in Amazonia. Phil. Trans. R. Soc. Lond. B. 1996.

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