Um câncer transmissível

Você já ouviu falar em câncer como uma doença infecciosa? Por definição, doenças infecciosas são aquelas causadas por um agente (um microorganismo) que entra em contato com um hospedeiro. O hospedeiro pode ser outro microorganismo ou qualquer outro ser vivo, incluindo nós, seres humanos. Estes agentes podem ser transmitidos de uma pessoa para outra de diversas formas: pelo ar, pela água, pelo contato direto com o doente. Quando falamos de tumores, via de regra, não estamos falando de uma doença infecciosa. Isso porque o câncer se caracteriza por um acúmulo de células do próprio hospedeiro que, por inúmeras razões, começam a se dividir mais do que o normal.

Diabo da Tasmânia

Você pode estar pensando: mas alguns tumores podem ser causados por agentes infecciosos, tais como o câncer de colo de útero, que em 70% dos casos estão associados com infecção pelo papilomavírus humano (HPV) tipos 16 e 18; ou o carcinoma hepático, que pode ser desencadeado pelos vírus da hepatite B e C. É verdade, mas ainda assim o câncer não seria considerado uma doença infecciosa, pois ele não seria transmissível de uma pessoa para a outra.

E se houvesse algum tipo de câncer que se comportasse como uma doença infecciosa, podendo ser transmitido através, por exemplo, do ar ou da água? A esta altura você deve estar imaginando que esta seja mais uma daquelas teorias mirabolantes que vão na contra-mão do mainstream científico. No entanto, estamos falando de um evento raro, mas bem conhecido pelos cientistas. Já temos evidências de pelo menos 3 tipos de células tumorais capazes de reinventar o conceito de metástase à distância e fazer fervilhar a imaginação dos escritores de thrillers biológicos. Tumores transmissíveis evoluíram a habilidade de infectar outros indivíduos por meio do contato direto. Por razões ainda pouco conhecidas, os infortunados que sofrem com esses tumores são o cão doméstico (Canis lupus familiaris), o diabo da tasmânia (Sarcophilus harrisii) e as ostras (como a Mya arenaria).

Imagine um amontoado de milhares de células tumorais flutuando nas águas e passando de uma ostra para outra causando um tipo letal de câncer similar à leucemia nestes moluscos. Embora isso não seja um motivo de pânico para nós, humanos, do ponto de vista da transmissão, é preciso mencionar que a doença pode causar um prejuízo gigantesco para os produtores de mariscos.

Já os tumores transmissíveis de cães e diabos da tasmânia são transmitidos por meio do contato sexual, mordidas ou arranhões. Sabemos que essas células são capazes de, literalmente, infectar outros indivíduos da mesma espécie e se disseminar, como um parasita. Também sabemos que os tumores são transmissíveis porque o genótipo (isto é, a sequência de DNA) dessas células tumorais não coincide com o genoma do hospedeiro. Em outras palavras, não são as células dos próprios cães ou diabos da tasmânia que começaram a se multiplicar sem controle. Na verdade, o genótipo dessas células tumorais corresponde ao de um único clone que reflete o do hospedeiro original, e não o do hospedeiro em que a doença se desenvolve.

Microscopia eletrônica de varredura de uma célula tumoral

Se pensarmos um pouco sobre os transplantes realizados nos hospitais para pessoas que precisam de um órgão novo, lembramos que um problema importante é a rejeição causada pelo sistema imune do indivíduo receptor do órgão transplantado. Isso acontece porque as células de cada indivíduo possuem sistemas sofisticados de identificação. São moléculas que ficam na superfície das células. Elas são chamadas de complexo principal de histocompatibilidade (MHC, do inglês, Major Histocompatibility Complex). Como a assinatura é única em cada indivíduo, ela é reconhecida pelo sistema imune de quem recebe o órgão como células “não próprias”. Portanto, potencialmente invasoras, e geram uma resposta inflamatória de rejeição àquele tecido implantado.

Se é assim, como é que uma célula tumoral pode ser transmissível, uma vez que ela carrega a assinatura molecular de outro indivíduo? Bem, essas células possuem a capacidade de evadir da resposta imune do hospedeiro. Isso acontece porque, curiosamente, moléculas de MHC são pouco ou nada expressas nessas células tumorais transmissíveis.

A geneticista Jennifer Marshall Graves, da Universidade de Melbourne, tem uma hipótese para explicar essa capacidade de evasão do sistema imune. Segundo Jennifer, a palavra chave é variabilidade genética das moléculas identificadoras. Os genes MHC evoluíram uma enorme variabilidade nos humanos. O que significa que cada pessoa tem uma assinatura muito diferente da outra. Talvez isso ajude a impedir que o câncer se dissemine entre nós. O mesmo não ocorreu em animais como diabo da tasmânia. Nestes animais se observa extensa perda da variabilidade desses genes, o que pode comprometer o reconhecimento e o combate a células provenientes de outros indivíduos da mesma espécie. Portanto, a perda da variabilidade no MHC desses animais os torna particularmente propensos aos cânceres transmissíveis, raros.

Por medo, muitas pessoas perguntam se podem “pegar” o câncer do marido diagnosticado com câncer de próstata. Ou da mulher diagnosticada com câncer de colo de útero, durante o ato sexual. A resposta é não! Afinal, ainda guardamos muita variabilidade em nossas moléculas identificadoras! E ainda não há evidências de que existam tumores transmissível entre humanos.

Agora, você sabia que cerca de um terço dos pacientes que recebem um órgão transplantado desenvolvem algum tipo de tumor do doador do órgão? Só que o mecanismo que leva ao desenvolvimento de tumores em transplantados não tem relação com os tumores transmissíveis descritos aqui. Neste caso, são os medicamentos necessários para evitar a rejeição que podem potencializar o risco de desenvolvimento de tumores.

Agora você já sabe diferenciar um tumor infeccioso daquele induzido por agente infeccioso!

 

REFERÊNCIAS

Pennisi E. Rogue chromosome may be behind new contagious cancer striking Tasmanian devils. Science. 2017.

Pye RJ, Pemberton D, et al. A second transmissible cancer in Tasmanian devils. PNAS. 2016.

Ostrander EA, Davis BW, Ostrander GK. Transmissible tumors: breaking the cancer paradigm. Trends in genetics. 2016.

Metzger MJ, Reinisch C, Sherry J, Goff

SP. Horizontal transmission of clonal cancer cells causes leukemia in soft-shell clams. Cell. 2015.

Welsh JF. Contagious cancer. Oncologist. 2011.

Zimmer, C. Cancer is contagious among clams. What about us? The New York Times. 2016.

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