Terapia gênica para o câncer

Em janeiro de 2017, o grupo do Dr. Paul Veys publicou resultados animadores para o futuro da terapia gênica personalizada contra tumores não sólidos. No estudo, intitulado “Molecular remission of infant B-ALL after infusion of universal TALEN gene-edited CAR T cells“, o grupo conseguiu a remissão da leucemia linfoblástica aguda de células B (B-ALL) em 28 dias, em duas crianças. Essa leucemia era refratária ao tratamento convencional.

Chamamos tumores (ou câncer) àquelas massas celulares que crescem sem controle. Dizemos que são tumores não sólidos todos aqueles que não estão fixados em algum tecido com reduzida ou nenhuma mobilidade. As leucemias são um exemplo, portanto, de tumores não sólidos.

Este tipo de leucemia é mais comum nas crianças que nos adultos. O grupo britânico de pesquisadores usou uma tecnologia de edição genética para aplicar uma terapia que, em si, não é nova: a transferência adotiva de células. É provável que você jamais tenha ouvido falar neste tipo de terapia, mas ela já é usada há algum tempo. A ideia é simples e consiste em retirar células do paciente, cultivá-las em laboratório, fazer qualquer tipo de modificação ou indução e reintroduzi-las no paciente.

No caso deste tratamento, os pesquisadores usaram células T. As células T são células do sistema imunológico que têm função efetora. Essas células podem reconhecer e eliminar outras células, especialmente células invasoras como bactérias e outros parasitas. Elas fazem isto através de receptores presentes na sua superfície, que podem reconhecer uma enorme variedade de proteínas – ou antígenos. Com o auxílio da técnica TALEN (do inglês, Transcription Activator-Like Effector Nucleases) de edição gênica, o grupo modificou células T de crianças doentes para que as células possuissem receptores antigênicos montados a partir de diferentes proteínas (receptores quiméricos, ou CAR – do inglês, Chimeric Antigen Receptor). Esses receptores seriam capazes de reconhecer as células B doentes, permitindo que células T modificadas as destruíssem.

Além disso, através desta mesma técnica, o grupo interrompeu a expressão de genes que codificam outros dois receptores. Esta segunda modificação permitiu que as células T editadas evadissem da resposta imune do hospedeiro, evitando assim a rejeição dessas células.

Algumas questões que podem surgir são:

A terapia gênica é, de fato, inédita?

A resposta é: mais ou menos!

Bom, já mencionei aqui que a terapia baseada em transferência adotiva de células não é a novidade. Há, inclusive, grupos estudando este tipo de terapia para doenças fúngicas. Esse é o caso do grupo da Dr. Maria Cristina Barreira, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP), que usa a transferência adotiva para estimular células T de camundongos e devolvê-las ativadas e prontas para combater a infecção.

A remissão da leucemia em duas crianças também não é um feito inédito. Este é um tipo de câncer que costuma ter sucesso na remissão, excetuando-se os casos refratários à poliquimioterapia. Esse tipo de terapia já havia sido testada para leucemias, só que usando uma técnica diferente. Ao invés da TALEN, foram utilizados vetores virais (especialmente do gênero lentivirus) para introduzir os receptores CAR nas células T que seriam transferidas para o paciente. A novidade mesmo está no raciocínio empregado. Usando uma técnica de edição refinada, altamente eficiente e prática, os pesquisadores conseguiram introduzir, na mesma célula, diversas modificações. O legal disso é que os pesquisadores conseguiram construir “células personalizadas” para realizar um transplante alogênico. Isso quer dizer que o transplante pode ser feito a partir de células de qualquer doador saudável. As células, portanto, não precisam ser do próprio paciente, que já possui um repertório escasso de células saudáveis.

 

As crianças foram curadas do câncer?

Para esta pergunta, a resposta é um categórico “ninguém sabe, ainda.”

O estudo fala de remissão, não de cura. Por remissão, entendemos o estado de um paciente tratado que não apresenta sinais da doença, mas ainda pode ter doença residual. Embora todos tenhamos a esperança de que a cura seja atingida, é preciso esperar pelo menos um ano ou dois para saber se a doença não irá reaparecer.

 

Quando a terapia gênica será utilizada na clínica?

A resposta adequada seria “tenha paciência”.

Terapia gênica é uma terapia muito custosa não apenas em termos financeiros. O trabalho por parte de quem faz a edição genética é muito delicado. Além do mais, não temos um histórico muito animador de incentivo a este tipo de terapia no Brasil. Aproximadamente oito meses após a publicação dos resultados do grupo de Veys na revista Science, a agência americana responsável por regular a entrada de novas drogas no mercado norte-americano aprovou o uso desta técnica para o tratamento de leucemia linfoblástica aguda de células B para crianças e adultos até 25 anos.

 

Vamos torcer para que, com todos esses resultados promissores, os investimentos comecem a acontecer aqui no Brasil também!

 

REFERÊNCIAS

Qasim W, Zhan H, Samarasinghe S, et al. Molecular remission of infant B-ALL after infusion of universal TALEN gene-edited CAR T cells. Science Translational Medicine. 2017.

Gonçalves TE, Barreira MCRA. Efeito da transferência adotiva de células esplênicas ou de linfócitos T CD4+ estimulados com ArtinM sobre a infecção com Paracoccidioides brasiliensis. Biblioteca virtual FAPESP.

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