SARS-COV-2: o vírus que parou o mundo

Antes de mais nada, é importante frisar que os pesquisadores ainda estão estudando e aprendendo sobre o vírus SARS-CoV-2 e a doença que ele causa, a COVID-19. No entanto, todos nós já vivemos os efeitos dessa pandemia. Ela parou o mundo e poderá modificar para sempre as nossas relações enquanto sociedade. Neste texto, abordaremos um pouco do que já se sabe sobre o assunto.

A família dos coronavírus foi descrita na década de 1960 após o isolamento de um vírus que causava gripe, em humanos. Através de microscopia eletrônica, os pesquisadores perceberam que este vírus tinha, em toda sua superfície, proteínas que irradiavam para fora, lembrando o formato de uma coroa (corona, em latim). Por isso o denominaram coronavírus.

Até 2003, quando ocorreu a epidemia de SARS (sigla em inglês que significa Severe Acute Respiratory Syndrome e, em português, é traduzida como Síndrome Respiratória Aguda Grave – SRAG), se achava que os coronavírus causavam apenas uma gripe leve. A tal “gripezinha”! No entanto, depois da SARS, que é causada pelo vírus SARS-CoV, se percebeu que a família do coronavírus é mais perigosa e pode ocasionar doenças muito sérias. E letais. Esta noção se fortaleceu em 2012, com o surgimento do MERS-CoV (Midle East Respiratory Syndrome Coronavirus), que também causa pneumonia e problemas respiratórios.

A atual pandemia é causada por um novo coronavírus, o SARS-CoV-2, que causa a COVID-19 (Coronavirus Disease – 2019). Desde seu surgimento, no fim de 2019, os cientistas têm trabalhado incansavelmente para entender as propriedades do SARS-Cov-2 e como a COVID-19 evolui.

Sobre a origem

O SARS-CoV-2 tem o RNA (Ácido Ribonucleico) como material genético. Além disso,  tem 98% de similaridade com um coronavírus de morcegos, denominado RaTG13. Também tem alta similaridade com partes do RNA de um coronavírus que infecta pangolins, um animal silvestre encontrado em regiões da Ásia e da África. Estudos sugerem que o SARS-Cov-2 possa ter se originado a partir da recombinação do RaTG13 com este coronavírus de pangolins.

A recombinação é a troca de partes do RNA entre dois coronavírus diferentes, que eventualmente se encontram em uma mesma célula. Dependendo de quais vírus estão se recombinando, um novo vírus, com novas propriedades, pode surgir. E dentre estas novas propriedades, por exemplo, pode ser a capacidade de infectar novas espécies, como os humanos.

A transmissão zoonótica de patógenos para os humanos tem sido responsável pela emergência de muitas doenças infecciosas, conforme abordamos aqui no Eureka.

Figura 1: Pangolim, o provável animal intermediário no surgimento do SARS-CoV-2.
Como é transmitido

A infecção ocorre através de contato com gotículas de secreções. Principalmente as expelidas durante a respiração, espirro, tosse e pela saliva.

O período médio de incubação é de 4-5 dias. Diferentemente do SARS-CoV e do MERS-CoV, que apenas infectam células do trato respiratório inferior (principalmente as células pulmonares) (Figura 2), o SARS-CoV-2 infecta todo o trato respiratório. Isto pode explicar, pelo menos em parte, porque os sintomas são tão variados. E também porque a transmissibilidade do SARS-CoV-2 é alta. Como ele infecta o trato respiratório superior, as partículas virais atingem a saliva e secreções respiratórias rapidamente, antes mesmo do indivíduo começar a ter sintomas.

No caso do SARS-CoV e do MERS-CoV, a disseminação só acontece mais efetivamente quando a pessoa já está com infecção pulmonar estabelecida, com pneumonia. Isto facilita a contenção da disseminação do vírus, através de medidas de isolamento. Vale lembrar que começaram a surgir evidências que o SARS-CoV-2 também pode infectar outros órgãos do nosso corpo. Os efeitos no sistema nervoso, inclusive, também já foram abordados aqui no Eureka.

Figura 2: Porções do sistema respiratório.
Fonte: Wikimedia.org
Sobre a doença

Como vimos, os sintomas são bastante variados.

Alguns desenvolvem sintomas brandos enquanto outros não desenvolvem sintoma algum. Porém, uma pequena parcela desenvolve pneumonia, que pode evoluir para SRAG e levar à morte.

O que é interessante a este respeito é que a gravidade da COVID-19 não está relacionada apenas à infecção viral em si, mas também à forma como o sistema imunológico de cada um responde à infecção. Em alguns indivíduos, esta resposta acontece de forma exagerada, o que também causa lesão aos pulmões, agravando a doença. Pode acontecer, inclusive, destas lesões se estenderem a outros órgãos, como coração e rins, causando falência múltipla e, consequentemente, a morte do indivíduo. Exatamente porque isso acontece em algumas pessoas, ainda está sendo estudado.

Logo, ao que parece, a cura da COVID-19 depende de dois fatores: debelar a infecção viral e modular o sistema de defesa, para que possa contribuir para a cura do paciente, e não para o agravamento da doença.

Por agora, o que você pode fazer

– Seguir as recomendações das autoridades de saúde

– Evitar aglomerações

– Usar máscara, tapando o nariz e a boca

– Informar-se em fontes confiáveis

– Não disseminar Fake News

– Confiar na ciência. Ela está fazendo a parte dela. Contribua e faça a sua.

REFERÊNCIAS

Xiao K, Zhai J, Feng Y, et al. Isolation of SARS-CoV-2-related coronavirus from Malayan pangolins. Nature, 2020.

Cyranoski D. Profile of a killer: the complex biology powering the coronavirus pandemic. Nature, 2020.

Matthew Zirui Tay, Chek Meng Poh, Laurent Rénia, et al. The trinity of COVID-19: immunity, inflammation and intervention. Nature Reviews Immunology, 2020.

Xuetao Cao. COVID-19: immunopathology and its implications for therapy. Nature Reviews Immunology, 2020.

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