Quantos segredos as tartarugas escondem dentro do casco?

Se a gente pedir a alguém para descrever alguns animais, as respostas podem até parecer similares, mas certamente apresentarão algumas diferenças. Uma ave, por exemplo, pode ser descrita como um elegante e pequeno beija-flor, ou um desengonçado e grande avestruz. A descrição de um mamífero pode variar de um minúsculo camundongo, até a gigantesca e aquática baleia-azul. Se você perguntar como é uma tartaruga, certamente todos irão responder: – aquele bicho com casco! Esta talvez seja a característica mais marcante desses animais, e certamente sempre nos remeterá a esse grupo. Essa estrutura tão única e peculiar ao mesmo tempo em que nos é tão familiar, também faz surgir muitas perguntas e curiosidades. Como é formada essa estrutura? Como ela surgiu? E como as tartarugas sobrevivem com essa estrutura tão diferente?

O casco das tartarugas é formado pela carapaça (a parte superior) e o plastrão (a parte inferior), e é originado pela fusão de elementos ósseos desses animais. As costelas são expandidas e fusionadas, assim como a coluna vertebral. Além disso, há a formação de ossos dérmicos que recobrem essa estrutura. Os ossos dérmicos são estruturas originadas de uma parte da pele dos animais. Acima dos ossos dérmicos está a epiderme, altamente queratinizada e que forma a cobertura final. Assim como nossos ossos crescem ao longo do desenvolvimento, os cascos das tartarugas também crescem ao longo da vida do animal.

Então, como já foi percebido, as tartarugas tem essa armadura resistente que garantem uma proteção contra predadores que porventura as ameacem. Por outro lado, essa estrutura dificulta a locomoção, tornando esses animais menos ágeis. É interessante ressaltar que eles não podem retirar o casco como nos desenhos animado, justamente por se tratar de uma estrutura que faz parte do corpo, assim como nossa pele, nossos cabelos, e unhas. Outro fato interessante, é que os quelônios (clado filogenético que abrange as tartarugas) são os únicos tetrápodes (animais com quatro membros) terrestres com a cintura escapular e a cintura pélvica internas à costela. No entanto, ainda há uma questão que intriga muitas pessoas: como essa estrutura tão estranha surgiu nesse grupo ao longo da evolução?

Essa pergunta deve ser respondida voltando lá atrás, há muitos milhões de anos. Há pelo menos cerca de 210 milhões de anos, as tartarugas (conhecidas pelos fósseis da espécie Proganochelys quenstedti) já apresentavam a morfologia externa bem parecida com as tartarugas atuais, ou seja, apresentavam o casco como o conhecemos nos dias atuais. Milhões de anos é muito tempo mantendo a mesma morfologia sem nenhuma mudança expressiva. Para se ter uma noção de como a evolução pode proporcionar mudanças relevantes no plano corporal em bem menos tempo (considerando a escala geológica, é claro), basta lembrar que há apenas 1.9 milhões de anos nossos ancestrais adotaram a postura bipedal plena (a postura em pé com apoio em somente dois membros).

Voltando um pouco mais no tempo, há 220 milhões de anos vivia em áreas marinhas costeiras rasas uma espécie (Odontochelys semitestacea) que não possuía a parte superior do casco totalmente ossificada. Essa espécie possuía somente a parte inferior formando o plastrão, e é a tartaruga mais antiga conhecida. Outro fato interessante nessa espécie era a presença de dentes. Todas as tartarugas conhecidas não possuem dentes, apenas um bico córneo revestindo a maxila e a mandíbula. E foi esse achado fóssil em 2010, que acendeu ainda mais as discussões sobre as origens dos quelônios.

Foi a partir de então que o reexame de vários outros fósseis ajudou a elucidar a teorias mais robustas sobre a evolução das tartarugas. As evidências apontam que uma espécie de tetrápode terrestre (Eunotosaurus africanus) compartilha do mesmo ancestral em comum com as tartarugas. Esse animal que lembra externamente um lagarto, guarda muitas pistas no seu esqueleto que podem ajudar a desvendar o mistério sobre os cascos das tartarugas.

Assim como os quelônios, o E. africanus possuía vértebras alongadas, perda dos músculos intercostais, costelas alargadas, e outros elementos ósseos semelhantes às tartarugas. Vale lembrar que as costelas largas e fusionadas das tartarugas e a perda dos músculos intercostais foram necessárias para que esses elementos ósseos se fundissem e formassem o casco. Então, o que os fósseis levam a crer, é que a partir de um ancestral terrestre, essa linhagem adquiriu uma estrutura poderosa que é o casco.

Engana-se também quem pensa que todos os cascos são iguais. Existem aqueles cascos mais abaulados, normalmente presente nos jabutis, e aqueles cascos mais planos e baixos, típicos daquelas espécies que se escondem em frestas de rochas. Existem ainda espécies que vivem nos rios e tem projeções no casco que ajudam na camuflagem do animal que fica a espreita das presas.

Existe até tartarugas com o casco mole! São espécies aquáticas onde o menor grau de ossificação dos cascos as tornam mais leves, e consequentemente nadadoras mais eficientes.

A diversidade de espécies desse grupo não é muito grande comparado a outros grupos de vertebrados. São apenas 345 espécies no mundo, e apenas 36 espécies no Brasil. Apesar disso, muita gente ainda tem dificuldade em diferenciar um jabuti, de uma tartaruga e de um cágado. Mas as próximas dicas tornam fácil essa distinção. Esses são nomes populares e, portanto, servem como maneira prática de separar algumas espécies, sem levar em conta a relação evolutiva entre elas. Vamos lá:

  • aqueles animais que apresentam a pata em formato colunar, parecida com uma pata de elefante, são os jabutis. Vale lembrar que os jabutis são totalmente terrestres, e não frequentam ambientes aquáticos nunca.
  • Aqueles animais que apresentam membranas entre os dedos, que possuem garras, e vivem geralmente em rios e riachos, são os cágados.
  • Já aqueles animais que tem os membros anteriores em forma de remo, achatados, são as conhecidas tartarugas. Como as tartarugas marinhas que vem ao nosso litoral se alimentarem e se reproduzirem todos os anos.

Esses animais fantásticos ainda tem muitos outras histórias interessantes, como por exemplo, nascer na costa brasileira, viajar pelos mares do Atlântico Sul até a costa africana, e voltar para desovar na mesma praia onde nasceu. E pensar que muita gente não lembra nem onde guardou as chaves de casa! Só que essas histórias ficam para uma outra oportunidade, assim como outras muitas histórias e fatos sobre a nossa fantástica biodiversidade.

 

REFERÊNCIAS

Crawford NG, Faircloth BC, McCormack JE, Brumfield RT, Winker K, Glenn TC. More than 1000 ultraconserved elements provide evidence that turtles are the sister group of archosaurs. Biol Lett. 2012.

Joyce WG. The origin of turtles: A paleontological perspective. J. Exp. Zool. (Mol. Dev. Evol.). 2015.

Lee MSY. Turtle origins: insights from phylogenetic retrofitting and molecular scaffolds. J. Evol. Biol. 2013.

Lyson TR, Bever GS, Bhullar BAS, Joyce WG, Gauthier JA. Transitional fossils and the origin of turtles. Biol. Lett. 2010.

Lyson TR, Bever GS, Scheyer TM, Hsiang AY, Gauthier JA. Evolutionary origin of the turtle shell. Curr. Biol. 2013.

Schoch RR, Sues HD. A Middle Triassic stem-turtle and the evolution of the turtle body plan. Nature. 2015.

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