Quando o desequilíbrio ambiental dói no nosso bolso!

Os problemas ambientais do planeta são muito maiores do que pensamos. Normalmente, nós os associamos a problemas futuros e não imediatos, como problemas relacionados a qualidade da água e do ar, ao surgimento de doenças, a extinção de espécies… A verdade é que, muitas vezes, não damos conta dos problemas que podem surgir quando rompemos o equilíbrio natural dos ecossistemas e do prejuízo financeiro que isso pode acarretar. Além do nosso bolso, nossa saúde pode estar em perigo. Nesse texto, iremos ver como ações resultantes do desenvolvimento desorganizado e não sustentável podem impactar nossas vidas.

Um problema ambiental na Índia

Um bom exemplo de como a falta de conhecimento pode levar a um grande problema ambiental ocorreu na Índia, no início da década de 90. Muitos fazendeiros começaram a usar um medicamento à base de diclofenaco para tratar uma certa doença ocorrente no gado. Muitos animais morreram por conta dessa doença (apesar do tratamento) e foram, então, devorados por urubus. Entretanto, a medicação usada pelos fazendeiros acabava se acumulando nos organismos dos urubus e levava muitos animais à morte devido a problemas renais.

Houve uma queda de cerca de 96-99% dos urubus da região afetada. Ninguém previu que a queda de urubus promoveria um aumento no número de carcaças deixadas apodrecendo, liberando gases, e entulhando o ambiente, dentre outros problemas ambientais. Sem os urubus para consumir as carcaças, cachorros de rua que se tornam selvagens (chamados cachorros ferais) passaram a se alimentar dessas carcaças. Com alimento abundante disponível, a população desses cães ferais explodiu e, com ela, os ataques a seres humanos e um aumento nos casos de raiva transmitida aos humanos. Cerca de 48 mil pessoas morreram em decorrência desses casos durante 14 anos após a tragédia dos urubus.

Figura 01: urubus morreram por problemas renais causados pelo diclofenaco.

Estimativas feitas em 2008 revelaram que a simples perda dos urubus na Índia causou prejuízos de US$24 bilhões. Simples assim: processos ecológicos perdidos custam caro, muito caro. E os prejuízos são financeiros, ambientais e humanitários. Considerando que vidas podem ser afetadas nesse caso, não há dinheiro que cubra o prejuízo.

As doenças emergentes

A questão das doenças emergentes também é outro problema grave. Ao destruir a biodiversidade natural e adotar monoculturas e criações de espécies domesticadas, estamos reduzindo drasticamente a diversidade de espécies regionalmente. Consequentemente, diminuímos os predadores naturais de vetores e também dos hospedeiros disponíveis para muitos parasitos. Cientistas rastrearam e descobriram que de cerca de 150 doenças emergentes infecciosas, 60-70% delas foram transmitidas de animais para seres humanos nos últimos 50 anos, de Ebola a HIV, passando pela atual COVID-19, além de infestações de carrapatos e pulgas. Dessa forma, temos propagação exacerbada de doenças, como a dengue e febre amarela, que causam prejuízos inestimáveis aos cofres públicos e as vidas humanas.

Figura 2: carrapatos e outros artrópodes são grandes vetores de doenças.
E como evitar as tragédias ambientais?

A melhor forma de evitar essas tragédias é conhecer o ambiente natural e suas teias de interações. No Brasil, essas informações ainda são escassas. A Mata Atlântica, onde reside a maior parte da população brasileira, foi largamente dizimada ao longo da história da colonização. Hoje só restam cerca de 11% da cobertura vegetal original desse bioma. Toda a informação biológica dos outros 89% perdidos provavelmente jamais será conhecida. 

Proteger a biodiversidade pode parecer muito dispendioso. Estudos apontam que os gastos serão altos para proteger as espécies ameaçadas. Estimativas sugerem algo em torno de US$4 bilhões para as espécies nessa categoria. Para proteger os ambientes naturais onde elas vivem, os custos podem chegar a US$76 bilhões por ano. Entretanto, os custos pelos serviços prestados como polinização e sequestro de carbono são de US$2 a 6 trilhões, o que torna esse gasto um investimento para nossa sobrevivência. Proteger os ambientes naturais é essencial até mesmo para nos proteger contra novas pandemias, como a do coronavírus. E como vale a pena investir nisso!

Figura 03: é um investimento proteger ambientes naturais.
E como convencer as pessoas a proteger os sistemas naturais?

Nós, os cientistas, precisamos aprender a lidar com a comunicação com o público. Só o conhecimento sobre a importância do desenvolvimento sustentável irá ajudar na conscientização ambiental. Mais do que prestar conta do nosso trabalho, nós precisamos repassar as informações que conseguimos nos nossos projetos de forma simples e direta para todos.

Por exemplo, se eu estiver no bar com amigos e falar que trabalho com um grupo de cianobactérias marinhas do gênero Prochlorococcus, provavelmente muitos acharão sem graça e sem importância. Entretanto, esse grupo constitui o grupo de organismos fotossintetizantes mais abundantes do planeta. Não ligou os pontos ainda? Vamos ser mais claros. Esse grupo produz a maior parte do oxigênio do planeta (cerca de 20% do total) e que é fundamental para todos os seres vivos que respiram esse gás. Apesar da vital importância desse grupo, ele só foi descoberto formalmente pela ciência em 1986.

Consequentemente, quando eu falo que meu estudo envolve ir para a floresta, descobrir novas espécies, dar nomes a elas e entender um pouco mais de comportamento, o que ela come, quando ela é mais ativa, em que época se reproduz e quanto tempo vive, eu posso estar agregando informações que serão vitais para trabalhos futuros daquele ecossistema. Finalmente, a ciência de base que agrega todas essas informações, é tão importante quanto a que produz a ciência aplicada, aquela que tem impacto na medicina ou engenharia, por exemplo.

Nós, cientistas, produzimos as inúmeras peças desse quebra-cabeça que é entender a vida. E precisamos passar essas informações adiante, para a sociedade. Precisamos, além disso, que as políticas públicas sejam guiadas pelo conhecimento técnico, e não pelo lobby de setores empresariais. Afinal, mais do que doer no próprio bolso, o desequilíbrio ambiental pode afetar nossa própria existência!

Referências

Green R.E., Donázar J.A., Sánchez-Zapata J.A., Margalida A. Potential threat to Eurasian griffon vultures in Spain from veterinary use of the drug diclofenac. Journal of Applied Ecology, 2016.

McCarthy, D. P. et al. Financial Costs of Meeting Global Biodiversity Conservation Targets: Current Spending and Unmet Needs. Science, 2012.

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