Processar e elaborar para lembrar mais

Quando pensamos em memória, devemos ter em mente que a informação a ser memorizada:

  • 1º) precisa ser codificada, ou seja, você precisa entrar em contato com a informação;
  • 2º) precisa ser “armazenada” (consolidada);
  • 3º) precisa ser encontrada e recuperada.

A forma como a informação “entrará e ativará” regiões no cérebro (codificação) pode fazer com que ela seja mais ou menos recordável. Isso significa que pode ser mais fácil (ou mais difícil) encontrar a informação depois e recuperá-la. Quanto mais superficial for a elaboração dessa informação enquanto você está adquirindo-a, menor a probabilidade de se lembrar dela. Ao passo que quanto maior for o processamento, a elaboração realizada nessa fase, maior a sua probabilidade de recordá-la posteriormente. Isso é conhecido como Níveis de Processamento, conceito que se tornou conhecido em 1972 e, até hoje, é pesquisado na Psicologia Cognitiva. Seus achados são facilmente replicados.

Antes de prosseguir com esse assunto, é importante falar sobre essa premissa da ciência que é a replicabilidade. Na ciência, não basta um cientista fazer um experimento e encontrar um determinado resultado. Outros cientistas também devem testar o fenômeno e verificar se são encontrados os mesmos resultados, ou seja, se há consistência (exemplo  link e link).

Experimentos clássicos

Em uma série de experimentos, os cientistas testaram se o tipo de processamento que as pessoas faziam durante a codificação da informação geraria resultados diferentes no momento da recuperação da informação. Por exemplo: foi solicitado para as pessoas lerem listas de palavras contando as vogais das palavras (processamento superficial), ou analisando se a palavra rimava com outra (processamento intermediário) ou pensando no significado da palavra (processamento profundo). O grupo de palavras que foi processado profundamente, foi mais lembrado do que os do processamento intermediário e do superficial.

Uma variação desse experimento envolve dinheiro. A cada palavra que o participante lembrasse, ele ganharia centavos de dólares. Esse valor variava para os tipos de processamentos que poderia ser realizado durante a codificação da informação. É claro que os participantes preferiam lembrar das palavras que valiam mais. Entretanto querer lembrar não foi suficiente. Novamente, a variável que influenciou a recordação posterior foi o tipo de processamento realizado. Quanto mais profundo, mais recordável.

Como usar níveis de processamento para lembrar mais?

Você já percebeu que às vezes lê um capítulo de um livro sem prestar atenção no que ele diz, parece que só “passa o olho”. Depois, quando questionado, não lembra muito do que leu. Provavelmente, você o processou superficialmente.

Sabendo disso, podemos pensar em estratégias que melhorem a probabilidade de lembrar da informação. Como? Tente extrair o significado do que está lendo, relacionar o conteúdo novo com algo que já conhece (o conhecimento prévio facilita muito o aprendizado, quanto maior, mais fácil será o aprendizado, pois ele é a base pela qual o novo aprendizado será construído). Por exemplo, isso que estou lendo se relaciona com o que aprendi na aula, mas também tem a ver com aquele caso li em outro livro, ou que assisti em um filme…

Não esqueça de conferir outras dicas para otimizar a aprendizagem aqui no Eureka, na coluna Sociedade & Educação.

REFERÊNCIAS

Benassi VA, Overson C, & Hakala CM. Applying science of learning in education: Infusing psychological science into the curriculum. 2014.

Craik FIM, & Tulving E. Depth of processing and the retention of words in episodic memory. Journal of Experimental Psychology: General, 1975.

Ekuni R, Vaz, LJ, & Bueno OFA. Levels of processing: the evolution of a framework. Psychology & Neuroscience. 2011.

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