Precisamos falar sobre a Terra plana

O número de pessoas que acreditam que o nosso planeta tem um formato plano tem crescido a cada dia. Eles acreditam em teorias conspiratórias que, entre outras narrativas, afirmam que a Terra é plana. São chamados de terraplanistas. Não há dados e evidências para tal ideia. Por isso, precisamos difundir a ciência e seus preceitos para que todos possam entender seu funcionamento. Assim, teremos uma chance de combater informações falsas e ideias retrógradas.

Alerta de spoiler!

A Terra definitivamente não é plana.

Leia a nossa coluna e saiba o porquê.

A era da informação

Para muitas pessoas que viveram a década de 80 e 90, o futuro prometia muita tecnologia e modernidade. Prometia-se um mundo onde a ciência seria assunto comum no cotidiano das pessoas. Entretanto, ainda estamos longe de viver em um mundo onde a evidência é colocada à frente de boatos e crenças infundadas. No caso do formado arredondado do planeta Terra, além de experimentos realizados há mais de 2 mil anos, hoje temos fotos tiradas diretamente do espaço que demonstram o formato do nosso planeta. Mesmo assim, algumas pessoas insistem em defender a ideia do terraplanismo. Talvez elas não entendam o método científico. Por isso, é essencial discutirmos ciência, da pré-escola aos almoços de família. Dito isso, vamos aprender um pouco mais de ciência?

Desde quando sabemos que a Terra é redonda?

Saber se o planeta é redondo e como se organiza o Sistema Solar é fundamental. Isso impacta no funcionamento de tecnologias como, por exemplo, o sistema de GPS.

Esse é o tipo de questão que algumas pessoas se fazem já há bastante tempo. Chegamos a conclusão que a Terra é redonda a partir de experimentos que datam de mais de 2 mil anos! Isso mesmo.

Pitágoras (570–495 AP), um matemático e filósofo grego, e Aristóteles (384–322 AP) também filósofo grego, já advogavam o formato esférico do planeta. O navegador português, Fernão de Magalhães, também fez sua célebre viagem de circum navegação (1529-1522) ao redor do planeta. Ele foi o primeiro homem a quase dar a volta na Terra. Ele infelizmente morreu antes de completar a sua missão, mas sua tripulação completou a expedição.

Apesar dos gregos não possuírem um telescópio, um deles foi capaz de fazer um experimento muito simples e inteligente.

Figura 1: O planeta Terra
O grego chamado Eratóstenes

Embora os estudiosos já postulassem a hipótese que a Terra é um globo, foi necessário um experimento para que de fato o teste de hipótese pudesse ser feito (leia o texto anterior dessa série onde discutimos os testes de hipóteses).

Um grego muito curioso e perspicaz resolveu coletar evidências para responder essa pergunta através de uma relação trigonométrica simples. Ele era um astrônomo, chamado Eratóstenes, que viveu entre 276 AP. e 194 AP.

Eratóstenes teve uma ideia extremamente simples e elegante. Ele usou uma vareta e a sombra que ela produzia no chão para calcular o diâmetro do globo. Para isso, ele mediu a sombra produzida por essa vareta no mesmo horário e no mesmo dia do ano em dois locais diferentes do planeta. Ele mediu a sombra na cidade egípcia de Siena. Um ano depois, no mesmo horário e no mesmo dia, ele estava em Alexandria, 800 km mais ao norte para realizar a outra parte do experimento.

Foi medida a diferença entre os ângulos produzidos pelas sombras das varetas. Com isso o cientista obteve um resultado interessante que indicava que a Terra poderia ser redonda. Além disso, ele calculou que a circunferência no Equador deveria se de cerca de 40 mil km. Hoje, esse valor é corroborado por muitos outros estudos com equipamentos e métodos bem mais modernos.

Uma boa ideia na cabeça e o conhecimento teórico do assunto

Qual foi a grande sacada do Eratóstenes? Ele já havia suposto que o sol devia ser muito maior do que a Terra e estava a uma distância muito grande. Logo seus raios deviam chegar na superfície da Terra paralelos. Se a Terra fosse plana as sombras das varetas seriam iguais, mas se a superfície fosse curva (como de fato é!) a inclinação das varetas seria diferente, gerando sombras com ângulos diferentes.

E eram! Bingo! Ou melhor, Eureka! A resposta veio com a ajuda da Matemática! Veja no esquema abaixo uma representação simplificada do experimento.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/f/f9/Raio_da_terra_pela_sombra_solar.jpg
Figura 2: As varetas de Eratóstenes e como foi calculado o diâmetro da Terra.

Outros fatos corroboram a forma esférica do nosso planeta:

  • as sombras dos eclipses,
  • a diferença da duração dos dias e noites em diferentes latitudes da Terra (próximos aos pólos tem dias que durante 24 horas faz ou sol ou fica no total escuro),
  • e até mesma a diferença entre a distância entre as base e os topo de grandes torres idênticas que estejam a uma distância considerável.
Discuta ciência!

A partir de agora, quando você ler algo sobre terraplanismo ou escutar alguém falando sobre o tema, procure saber se eles tem algum argumento plausível (evidências) sobre tema.

Bons argumentos são construídos a partir de dados e evidências obtidos de formas independentes por diferentes pesquisadores, através de de métodos padronizados, que possam ser replicáveis, e testados novamente.

É assim que a ciência funciona.

Por isso é importante que todos nós saibamos pelo menos o básico de ciência para podermos argumentarmos com alguém baseado em dados e evidências robustas. Lembre-se que uma boa discussão sobre ciência nunca é fomentada por paixões ou crenças, mas sim por informações embasadas e testadas empiricamente.

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/1/13/Orlando-Ferguson-flat-earth-map_edit.jpg/1199px-Orlando-Ferguson-flat-earth-map_edit.jpg
Figura 3: O mito da terra plana.
REFERÊNCIAS

Dicks DR. Early Greek Astronomy to Aristotle. Cornell University Press. 1970.

Rorres C. Archimedes’ floating bodies on a spherical Earth. American Journal of Physics. 2016.

Siegal M, Nobes G, Panagiotaki G. Children’s knowledge of the Earth. Nature Geoscience. 2011.

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