Por que investir na exploração espacial?

Todo mundo apoia investimentos do Estado em saúde, educação e segurança. Isso porque são áreas muito sensíveis e que oferecem benefícios claros e (quase) imediatos à população. Por isso mesmo, essas áreas são elevadas ao status de prioritários. Entretanto, investir em áreas como exploração espacial e ciência de base pode consolidar a posição de um país no grupo de elite das nações desenvolvidas e, por isso, não podem ser negligenciadas.

Desde muito cedo, a espécie humana dá sinais de que nascemos para explorar. Somos adaptados a diferentes ambientes e sobrevivemos em condições antes adversas. O ambiente selecionou características, geração após geração, tais como pele resistente em ambientes tropicais onde há altos níveis de radiação solar, olhos claros em regiões polares onde há pouca luz solar e outras tantas adaptações que a exploração nos obrigou a desenvolver.

Ao longo de todos esses milhares de anos de evolução, exploramos quase tudo o que se há para explorar na superfície de nosso planeta e não é de hoje que almejamos explorar o que há para além dele. O que nos motiva? Bem, o que pretendo mostrar neste pequeno texto é que nossas motivações são muito mais pragmáticas e muito menos poéticas do que se tende imaginar.

Impulsionados por uma disputa pela soberania político-financeira-ideológica mundial, EUA e URSS iniciaram o que alguns chamam de “Era da Exploração Espacial” em 1926, ano do primeiro lançamento de um foguete pelos EUA. Com o fim da Guerra Fria, novas potências como Japão e Índia despontaram no desenvolvimento de tecnologia espacial. De lá para cá, ficamos cada vez mais dependentes de tecnologias advindas dos desenvolvimentos aeroespaciais. E esse é, precisamente, o motivo mais forte pelo qual um país, hoje, deve investir em tecnologia espacial: produção de tecnologias usuais.

Os benefícios advindos da exploração espacial

A prospecção realizada em 2013 pelo International Space Exploration Coordination Group indica que os principais benefícios para a raça humana advindos da exploração espacial estão centrados na geração de novos conhecimentos, que é a recompensa imediata e que tem maior valor inerente à humanidade. Pois este conhecimento gerado produz muitas inovações que beneficiam o público. Isso se dá quando os sistemas espaciais de alto desempenho são desenvolvidos para enfrentar os desafios extremos das missões espaciais.

Você sabia que o forno microondas é derivado de tecnologia desenvolvida, inicialmente, para aplicações astronômicas? Não só ele, mas diversas outras tecnologias tais como a câmera digital, GPS, motor resfriado a ar, telecomunicações em geral, ligas metálicas usadas na medicina e outras tantas só existem hoje por conta da exploração espacial. Nesse link você encontra uma lista de mais de 2000 tecnologias derivadas da exploração espacial realizada pela NASA!

Comumente se categoriza em dois grupos os benefícios que podem surgir da exploração espacial: direto e indireto. Os benefícios diretos incluem a produção de conhecimento científico, difusão da inovação e criação de mercados novos. Além disso, ocorre a inspiração de novas gerações de cientistas ao redor do mundo. Também se desenvolvem acordos comerciais entre nações interessadas em unir forças para empreender exploração espacial. Já os benefícios indiretos estão relacionados com o aumento da qualidade de vida provido pela prosperidade econômica e em áreas de amplo interesse social tais como saúde, segurança, ambiente, entre outros. Além, evidentemente, das consequências filosóficas advindas de uma maior e mais completa compreensão do nosso lugar no universo.

Para ilustrar o impacto de novas conquistas na área de exploração aeroespacial no engajamento social ao empreendimento, um levantamento realizado por W. H. Siegfried (cientista associado a Boeing Company) aponta um crescimento substancial na formação de PhD nas áreas de Física, Matemática e Engenharias após as missões Apollo (iniciadas em 1961). O estudo de Siegfried aponta que ao longo da década seguinte ao início do programa Apollo, houve um aumento crescente na formação de especialistas nas áreas citadas e que chegou a atingir três vezes e meia o patamar anterior ao lançamento do programa!

Exploração espacial é só para quem pode?

É comum escutar coisa do tipo: “Os EUA levou o homem à lua na década de 60 e o Brasil não consegue nem ao menos lançar um satélite por conta própria. Isso é uma vergonha!”.

Acontece, meu caro, que a tecnologia desenvolvida pelos EUA, na década de 60, que levou o homem à lua e tudo mais, é segredo de Estado! Cada um que desenvolva sua própria tecnologia, rapaz! É justamente o processo de desenvolvê-la que é a parte potencialmente lucrativa. Para levar o homem à lua, por exemplo, foi necessário desenvolver computação automatizada, sensores CCDs (usados em câmeras digitais) e um conjunto extenso de outras tecnologias que fazem parte de nosso cotidiano. Quem em sã consciência daria assim, de mão beijada, a outro país conhecimentos tão valiosos?

Se algum país, como o Brasil, quiser lançar um satélite em órbita, só pode seguir dois caminhos:

  • ou desenvolve tudo do zero;
  • ou contrata, mesmo que parcialmente, alguém que já saiba.

O segundo caminho, normalmente, é o mais barato a curto prazo e por isso o mais escolhido. Começar tudo do zero é muito caro, porque não há nenhuma garantia de retorno a curto prazo. Pode-se levar décadas para chegar a trazer lucro (e pode ser que até mesmo nunca chegue!).

Três são as condições tratadas como necessárias por cientistas e profissionais da área para prosperar na exploração espacial:

(i) mão de obra capacitada,

(ii) recursos materiais e financeiros para investir e

(iii) condições geográficas. Quanto mais próximo do equador terrestre e mais acessível for uma localidade, melhores são as condições de lançamento).

Só três países no mundo tem as condições ideais segundo esses critérios. Quer tentar adivinhar quais são? Estados Unidos (é claro), China (grande surpresa…) e… BRASIL! É isso mesmo, nosso amado e sofrido Brasil faz parte de um grupo muitíssimo seleto de países que têm as condições ideais para desenvolver uma das atividades mais lucrativa do mundo moderno!

E por que a gente não desenvolve?

A resposta é: claro que a gente desenvolve! Temos gente altamente capacitada desenvolvendo tecnologia de alta qualidade aqui no nosso país. Como exemplo, cito a recém patenteada tecnologia para redução de gases poluentes. Entretanto, nunca foi prioridade de nossos governantes investir nessa área e não são boas as perspectivas para o futuro, infelizmente. Temos políticas de governo e não de Estado, o que torna quase impossível garantir o sucesso de um empreitada como essa que pode levar décadas para obter retorno.

Apesar da falta de apoio e prioridade, tudo indica que esse é nosso futuro inexorável. Cedo ou tarde, teremos que andar com nossas próprias pernas. Então, você aí que ainda não decidiu que profissão adotar ou ainda que pensa em investir em uma nova e tem aptidão para ciências exatas, que tal se envolver com o desenvolvimento espacial de nosso país?

 

REFERÊNCIAS

Lista de spinoffs em português clique aqui .

International Space Exploration Coordination Group. Benefits Stemming from Space Exploration.  2013. Acessado em 01/03/2018.

Siegfried WH. Space Colonization—Benefits for the World. In AIP Conference Proceedings. 2003.

 

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