Por que conservar a biodiversidade?

Atualmente fala-se muito sobre conservação dos recursos naturais e da biodiversidade. “É importante preservar a água!” para cá, “Vamos salvar a Mata Atlântica!”, para lá. No entanto, as pessoas ficam com a concepção de que conservar a natureza é deixá-la intocada, bem longe nas florestas.

Nas cidades, principalmente em grandes metrópoles, a natureza às vezes é considerada mera decoração, o que daria uma tonalidade verde às selvas de pedra.

Quem mora no interior sabe que a realidade é outra. A natureza, com sua imensa biodiversidade, está presente a todo o momento na vida das pessoas, seja na árvore da esquina, nos passarinhos cantando no quintal ou na comida que você come. Sim, qualquer alimento, mesmo aquele congelado do supermercado, veio da natureza. Plantas e animais que usamos na alimentação são resultados de milênios de conhecimento e domesticação para que tenhamos em nossos pratos uma refeição apetitosa e nutritiva.

Só que isso não se limita apenas ao que comemos de fato. A produção de alimentos depende de outros fatores, como cuidados com o solo, polinização e nutrientes disponíveis, existindo seres vivos ativos em todos esses processos. A maioria das plantas utilizadas na alimentação tem flores e sementes, as chamadas gimnospermas e angiospermas. Mesmo que as flores e sementes não sejam ingeridas, a planta precisa se reproduzir, seja para vender as sementes para os produtores, para alimentação animal, ou ainda produzir os frutos de interesse (frutas e legumes, por exemplo). E para que isso ocorra, a planta precisa de alguém que faça a polinização. As abelhas são um dos principais agentes polinizadores que existem.

 

Voando de flor em flor em busca de néctar, as abelhas levam grãos de pólen por toda a parte, fecundando os gametas femininos das plantas (as oosferas) e, com isso, iniciando a formação das sementes e frutos. Agora, sabendo que as abelhas estão intimamente relacionadas com a produção dos frutos que comemos, vamos imaginar um cenário onde elas desapareçam totalmente. O que iria acontecer no mundo?

Alguns podem ficar satisfeitos em não se preocupar mais em ser picado por uma abelha ou não ter que remover colmeias de sua casa. Por outro lado, sem abelhas não teríamos mel. Sim, o mel que você come, vem das abelhas. Além disso, a produção da maioria dos alimentos que o mundo consome poderia terminar porque sem as abelhas para polinizar, não haveria frutos e semente. Como consequência, não haveria laranjas, maçãs, pimentões e tantos outros alimentos. Sem as abelhas, a produção de comida cairia drasticamente.

Isso parece um cenário distópico e muito distante? Antes fosse. Alguns países do Hemisfério Norte já notaram que as colmeias, tanto as naturais quanto artificiais, estão diminuindo suas populações, reduzindo a produção de mel e de polinização, o que diminui a produção dos frutos pelas plantas. Acredita-se que a mudança climática e o abuso de agrotóxicos estejam causando esse desaparecimento, nomeado de Síndrome do Colapso das Abelhas.

O ser humano não necessita da biodiversidade apenas para sua alimentação. Em nosso dia-a-dia utilizamos a madeira para fazer móveis, o papel, na construção civil e tantos outros; no vestuário, utilizamos produtos de origem natural, como o algodão, linho e a seda; os combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, que também tem origem a partir dos seres vivos, estão presentes em nossas vidas a todo o momento.

Outro grande benefício que obtemos da biodiversidade são os remédios. Hoje se sabe que plantas e animais produzem substâncias que podem ser úteis no tratamento de diversas doenças. Do veneno da jararaca extrai-se uma substância que controla a pressão arterial e ervas como a menta tem grande potencial terapêutico, como revisado no artigo de Kamatou e colaboradores e publicado na revista Phytochemistry. Diversas pesquisas mostram o potencial das plantas conhecidas como medicinais no combate a diversas doenças. Quem sabe o próximo medicamento com grande potencial para cura do câncer não esteja crescendo na margem do rio Amazonas, ou entre a vegetação espinhosa da Caatinga?

A biodiversidade é indispensável ao nosso dia-a-dia e o homem deve saber utilizar esse recurso para que ele não falte. E nem estou mencionando a falta para futuras gerações, pois o mau da natureza está tornando uso está tornando muitos  recursos escassos agora, nesta geração. O crescimento desenfreado, poluição, falta de manejo dos recursos naturais e todos os outros fatores que estamos cansados de ouvir são os responsáveis pela queda da diversidade biológica do planeta.

Essa realidade leva a urgência da criação de métodos de manejo e uso sustentável dos recursos naturais. A criação de Unidades de Conservação é uma estratégia viável, pois delimita áreas que serão utilizadas de forma sustentável ou nem isso. No entanto, a grande solução para o problema da destruição da biodiversidade está nas pessoas e naquilo que estamos cansados de ouvir, mas ouviremos até que todos ajam de acordo: usar racionalmente a água, fazer uma agricultura sustentável, destinar o lixo de maneira correta. Quando cada um fizer sua parte, cidadãos, empresas e governos, o problema irá se amenizar. A biodiversidade nos é útil, mas ela não pode ser utilizada sem cuidado. Afinal, estamos falando de seres vivos e não de produtos colocados à nossa disposição.

REFERÊNCIAS

Kamatou GPP, Vermaak I, Viljoen AM, Lawrence B. Menthol: A simple monoterpene with remarkable biological properties. Phytochemistry. 2013.

Meregalli B, Moreira, JMS, Ferri M, Renner MF. Veneno de Bothrops jararaca na utilização de medicamentos para hipertensão. Mostra Integrada de Iniciação Científica, 4, CNEC  Osório. Anais… v. 4, n. 4, p. 313-314, 2013.

Wilson EO. A Criação: como salvar a vida na Terra. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

Wilson EO. Diversidade de vida. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

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2 comentários em “Por que conservar a biodiversidade?

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