Plásticos e microplásticos: o mal do século

Imagine que você está na praia, aquele sol, um vento fresquinho. Mais que natural, você resolve entrar no mar para se refrescar. Quando menos espera se depara com garrafas PET, sacolinhas plásticas, embalagens de salgadinhos ou de biscoitos. Todo isso no mar! A praia é linda, mas está tomada de sujeira e de plásticos! Imagino que você ficaria, no mínimo, irritado com tanto lixo. Agora, pense nos animais que vivem no mar e que passaram a conviver com o lixo lançado por nós. Como será que eles ficariam?

Essa pequena história, que pode parecer pura imaginação, na verdade, ocorre com mais frequência do que você pensa. Resíduos plásticos, como sacolas e embalagens, têm sido amplamente documentados nos oceanos. O plástico é uma das principais consequências do modelo de produção e consumo humano.

De maneira geral, o plástico é formado por um polímero produzido a partir do petróleo ou do gás natural. Sua criação se deu em 1907 e, a partir daí, as mais diversas formas de produção e de consumo de plástico se desenvolveram, transformando esse produto em algo leve, não corrosivo e inerte. Além disso, apresenta grande diversidade de uso, sendo muito procurado para a manufatura de diversos produtos, como tubulações e produtos hospitalares. Porém, a sua utilização se tornou um grave problema ambiental, pois esses produtos não são biodegradáveis. Muitas pesquisas são realizadas para avaliar a quantidade de plástico na superfície dos oceanos e na cost. No entanto, existem poucos resultados sobre como esse produto pode influenciar a vida marinha.

Os plásticos podem ser identificados de acordo com o seu tamanho, sendo considerados macroplásticos (maiores de 5 mm) e microplásticos (menores de 5 mm), podendo estar presentes em pastas de dentes e cosméticos. Os microplásticos presentes nos oceanos podem possuir duas origens:

1) os plásticos lançados no mar podem ser degradados, gerando pequenos resíduos através da ação dos ventos e correntezas;

2) ou então podem adentrar no meio ambiente como micropartículas já produzidas inicialmente em pequenos diâmetros, através do descarte de pastas de dentes e cosméticos no esgoto doméstico.

Sua presença no ambiente marinho é extremamente preocupante devido a sua persistência e por ser um potencial vetor para a transferência de outros contaminantes para os organismos marinhos. A poluição causada por esses resíduos é um crescente problema de escala global, gerando impactos cada vez maiores no ambiente marinho. Apesar de muito esforço para prevenir e reduzir o consumo de plástico e o lixo marinho em muitos países, há evidências de que o problema persiste e continua a crescer na mesma proporção em que a população e os padrões de consumo.

Os microplásticos presentes no ambiente podem ser ingeridos pelos organismos marinhos. Esse fato é muito comum dentro da cadeia alimentar aquática, principalmente porque esses animais podem confundir esse material com suas presas naturais. A ingestão desses produtos pode causar a diminuição da alimentação, afetando diretamente na cadeia alimentar aquática; a diminuição nas taxas hormonais e reprodutivas influenciando de maneira decisiva nos processos reprodutivos e no crescimento de organismos; e causar ferimentos internos que podem levar o animal à morte. Apesar de se saber que esses produtos podem ser ingeridos pelos animais marinhos, pouco foi estudado quanto aos problemas fisiológicos que podem ocorrer com relação à sua ingestão.

Estudos constataram que a ingestão desses produtos pode provocar úlceras no estômago ou o bloqueio intestinal, reduzindo assim a absorção de nutrientes. Além disso, pode provocar uma falsa sensação de saciedade, resultando no decréscimo das reservas energéticas, diminuindo a capacidade de sobreviver em condições ambientais adversas com consequente redução nas taxas de crescimento, e aumentando o risco de inanição, ou seja, o enfraquecimento por ausência ou deficiência na assimilação de alimento. De maneira geral, os animais que consomem plástico ou microplásticos podem apresentar problemas fisiológicos graves, diminuindo a taxa energética necessária para a sua sobrevivência, levando o animal à morte.

Agora, se você pensa que isso é tudo, ainda tem mais! As superfícies dos plásticos ou dos microplásticos podem adsorver poluentes orgânicos. Isso contamina os animais que os ingerem e causando problemas hormonais. Além disso, aditivos químicos, como corantes e antioxidantes comumente adicionados à composição dos plásticos para alterar suas características naturais e aprimorar seus usos finais, podem ser tóxicos. Esses aditivos provocam efeitos nocivos aos organismos marinhos. Os plásticos também podem servir ainda de substrato para a dispersão e invasão de espécies exóticas, influenciando na cadeia alimentar, além de auxiliar na dispersão de poluentes e microrganismos que podem colocar em risco o ambiente onde se acumulam.

Se você acha que são apenas os animais marinhos que sofrem com o acúmulo de plástico e microplástico, engano seu! Esses produtos podem se acumular nos tecidos dos animais que os ingerem, sendo transferidos para outros organismos através da cadeia alimentar. Imagine que você está saboreando, agora mesmo, um belo camarão. Este estava no mar, onde havia plástico, o qual foi consumido por este animal que agora faz parte da sua alimentação. De maneira indireta, você também está consumindo plástico, e também poderá sofrer com danos em suas células. Em estudos realizados com humanos e moluscos, observou-se que micropartículas plásticas ingeridas ou inaladas poderiam penetrar nas células e tecidos e causar danos.

Assim, se você acreditava que estava a salvo desse mal, sinto informar que você estava errado! Dentro de um ambiente, de um ecossistema, todos estão conectados. Um ambiente contaminado com o plástico que deveria ser reciclado pode interferir na sua vida e na sua saúde. A preservação do ambiente, a diminuição do consumo e a reciclagem ainda são as soluções mais viáveis e cabíveis. Como sempre, cabe a nós mudarmos esse quadro.

 

REFERÊNCIAS

Ascer LG. Efeitos de microplásticos na fisiologia do mexilhão Perna perna. Dissertação de Mestrado – IB (USP). 2015.

Pereira FC. Microplásticos no ambiente marinho: mapeamento de fontes e identificação de mecanismos de gestão para minimização da perda de pellets plásticos. Dissertação de Mestrado – IO (USP). 2014.

Silva PPG. Contaminação e toxicidade de microplásticos em uma área de proteção marinha costeira. Dissertação de Mestrado – Engenharia Ambiental (USP – São Carlos). 2016.

Sobral P, Frias J, Martins J. Microplásticos nos oceanos – um problema sem fim à vista. Ecologia. 2011.

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