Parasitos como vacina: proposta da ciência brasileira

Falamos anteriormente aqui no Eureka sobre duas técnicas de imunoterapia para o tratamento de tumores: a terapia com células T de receptores quiméricos  (do inglês, chimeric antigen receptor T cells, ou CAR-T cells) e a terapia com inibidores de checkpoint imunológico. Ambas são aprovadas pelo Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos e utilizadas em pacientes.

Hoje discutiremos uma abordagem experimental. Essa abordagem foi proposta por um grupo de pesquisadores brasileiros na Fiocruz de Minas Gerais: usar parasitos geneticamente modificados como vacinas anti-tumorais.

Como falamos nos textos anteriores, imunoterapia significa utilizar da capacidade de nosso sistema imune (ou imunológico) de combater agentes invasores para eliminar células tumorais. Células tumorais frequentemente expressam proteínas (ou antígenos) que não são expressas em células normais, o que chamamos de antígenos tumorais. O antígeno tumoral escolhido foi a proteína NY-ESO-1, expressa em diversos tipos de tumores. Esta proteína tem a capacidade de estimular linfócitos T a combater os tumores. É usada em muitos outros modelos de imunoterapia. A novidade aqui é a forma que esta proteina será apresentada ao sistema imune. Essa apresentação ocorre através de usar um parasito geneticamente modificado. Nosso sistema imune é muito eficiente em reconhecer parasitos – são muitos anos de evolução de aprendizado! Usar um parasito como carregador da proteína tumoral significa direcionar a capacidade imunológica de reconhecer e combater parasitos para combater tumores que expressem essa proteína. Não é uma ideia genial?

Eletromicrografia de Trypanosoma brucei brucei. Credit: Gull Lab courtesy of Sue Vaughan.

O parasito escolhido foi o Trypanosoma cruzi. Ele é o agente causador da doença de Chagas, uma endemia comum em muitos países em desenvolvimento. A doença foi descrita pelo pesquisador brasileiro Oswaldo Cruz, e o nome do protozoário foi dado em homenagem a ele. O T. cruzi é transmitido pelo barbeiro e afeta, especialmente, o sistema cardíaco. Mas, calma! Não pense que, para tratar o câncer, será preciso desenvolver um sério problema cardíaco…

Foi usada uma cepa específica de T. cruzi, chamada CL-14. O que é especial sobre essa cepa é que ela não causa nenhum sintoma da doença de Chagas em camundongos – e, por isto, denominada não patogênica. Órgãos geralmente acometidos na doença de Chagas (como coração e o baço , e mesmo orgãos não diretamente associados doença, não apresentaram alteração funcional. Ao contrário, quando camundongos são infectados com CL-14, ficam protegidos contra uma segunda infecção com uma cepa patogênica. Em outras palavras, a cepa CL-14 é um candidato potencial para ser usado como vacina.

Os cientistas brasileiros modificaram a cepa CL-14 em laboratório para que ela expressasse o antígeno tumoral NY-ESO-1. No entanto, para provar seu potencial como imunoterápico, era necessário um grupo de “pacientes”. Os pacientes foram camundongos que apresentaram um tumor de pele do tipo melanoma expressa o antígeno NY-ESO-1. Então, os pesquisadores administraram, como tratamento, com a cepa CL-14 modificada que expressa o mesmo antígeno.

Os resultados mostraram o tratamento com a cepa CL-14 modificada retardou o crescimento do tumor e fez os camundongos viverem mais. Resultados semelhantes foram obtidos com outras linhagens tumorais, como linhagens de fibrossarcoma e adenocarcinoma de cólon. Os autores mostraram também diferentes mecanismos imunológicos induzidos pela CL-14 que culminam na proteção contra o crescimento dos tumores.

Mais recentemente, o mesmo grupo utilizou a mesma cepa, CL-14, como vetor vacinal contra a leishmaniose visceral, uma outra grave doença infecciosa sistêmica. Segundo o Ministério da Saúde, quando não tratada, a doença leva a óbito 90% dos casos. Neste novo estudo os autores modificaram a CL-14 para expressar a proteína A2 de Leishmania, atualmente utilizada em formulação vacinal para cães. Neste caso, os autores reportam que a abordagem gerou uma forte resposta imune celular e conferiu proteção contra a infecção com Leishmania infantum.

Apesar dos resultados positivos, os autores discutem que utilizar parasitos vivos como vacinas sempre causa uma preocupação. Porém, argumentam que a cepa CL-14 tem sido mantida em laboratório há mais de 3 décadas, e mantém sua perfil de não virulência, mesmo quando inoculada em camundongos recém-nascidos, que são altamente susceptíveis a infecções com cepas virulentas de T. cruzi.

 

Vamos acompanhamos por aqui os novos achados deste projeto!

 

REFERÊNCIAS

Junqueira C, Santos LI, Galvão-Filho B, Teixeira SM, Rodrigues FG, DaRocha WD, Chiari E, Jungbluth AA, Ritter G, Gnjatic S, Old LJ, Gazzinelli RT. Trypanosoma cruzi as an effective cancer antigen delivery vector . Proc Natl Acad Sci USA, 2011.

Almeida APMM, Machado LFM, Doro D, Nascimento FC, Damasceno L, Gazzinelli RT, Fernandes AP, Junqueira C. New Vaccine Formulations Containing a Modified Version of the Amastigote 2 Antigen and the Non-Virulent Trypanosoma cruzi CL-14 Strain Are Highly Antigenic and Protective against Leishmania infantum Challenge . Front Immunol, 2018.

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