Os animais se adaptam à poluição ambiental

Os animais presentes na região estuarina e costeira são constantemente afetados pela poluição ambiental e local, principalmente através do despejo de produtos químicos e metais tóxicos das indústrias situadas ao redor dessas regiões. O cádmio é um metal tóxico, está presente em resíduos de tintas, e faz parte da composição de pilhas e baterias, descartadas irregularmente, através do lixo doméstico, em manguezais e estuários.

Esse metal tóxico pode se acumular no solo, na água, e nos animais, promovendo também alterações morfológicas (características físicas) e fisiológicas (sistemas). Estudos realizados com animais, principalmente com caranguejos, demonstraram que o cádmio pode penetrar nos tecidos e nos órgãos. Além disso, o metal também pode ter acesso às células, podendo levar à morte. Contudo, ao ser internalizado, o cádmio pode também estimular uma maior liberação de algumas proteínas, que se acumulam no corpo do animal e em órgãos específicos.

É de se pensar então que as regiões estuarinas e de manguezais, assim como seus habitantes, estão condenados ao fracasso total, sem qualquer perspectiva de melhora. Eis o ponto chave da questão. Os animais presentes em regiões contaminadas conseguem sobreviver nesses ambientes! Por mais poluída que a área esteja, os animais estão lá, ocupando aquele espaço degradado pela ação do homem. Nesse momento, você deve estar se perguntando: “E como esses animais conseguem fazer isso?”, ou melhor, “O que aconteceu com esses animais para que eles ainda ocupem essas regiões?”. A resposta para isso não é tão simples.

Alguns estudos, como os de Amiard, Harris, Ortega (sim, eu mesma!) e Silvestre, foram desenvolvidos com o intuito de responder as questões acima. Em experimentos com caranguejos, verificou-se que animais presentes em ambientes poluídos apresentavam um aumento na atividade da célula, possivelmente para manter o funcionamento do corpo constante e semelhante a animais provenientes de regiões não poluídas. Além disso, maiores concentrações de sódio também foram encontradas nos fluídos corporais dos animais de regiões poluídas, sendo uma possível resistência fisiológica desses animais. Os animais que convivem com a poluição ambiental apresentaram diferenças fisiológicas em comparação aos animais presentes em ambientes não poluídos, que são importantes para a manutenção desses organismos em ambientes degradados.

Outros estudos com caranguejos presentes em manguezais poluídos e não poluídos do litoral Sul de São Paulo mostraram que animais de regiões poluídas apresentaram maior quantidade do metal tóxico, quando comparado aos animais de regiões não poluídas, possivelmente devido ao aumento da atividade celular. Outros pontos que merecem destaque são as modificações encontradas nos órgãos, como a presença de maiores níveis de gordura e rigidez no órgão. Além disso, maiores níveis proteicos também foram encontrados nos animais, mesmo quando os contaminantes estão em baixas concentrações. Os danos fisiológicos e morfológicos provocados pela poluição ambiental também foram medidos, como a presença de regiões mortas e enegrecidas em alguns órgão, o que dificulta o seu funcionamento. Assim, esses estudos demonstraram mais uma vez que os organismos presentes em condições degradantes, como em regiões poluídas, podem apresentar diferenças fisiológicas quando comparados a animais de regiões não impactadas.

Os estudos ainda são longos e muito mais informações ainda pode ser desvendada pela ciência a respeito de como os poluentes afetam a vida dos animais. Contudo, algo ficou muito claro: animais de regiões contaminadas são diferentes fisiologicamente de animais de regiões não contaminadas. Agora, novas perguntas podem estar surgindo na sua mente, como: “Não seria mais fácil migrar para regiões não contaminadas?” ou, “seria um processo de adaptação às novas condições ambientais?”. Essas perguntas ainda não apresentam respostas. Quem sabe, no futuro, com novos estudos, podemos respondê-las. Contudo, uma coisa é certa, a poluição ambiental está interferindo de maneira direta na sobrevivência dos animais, e cabe a nós mudarmos esse panorama.

 

REFERÊNCIAS

Amiard, J.; Amiard-Triquet, C. et al. Metallothioneins in aquatic invertebrates: their role in metal detoxification and their use as biomarkers. Aquatic Toxicology. 2006.

Harris, R. R.; Santos, M. C. F. Heavy metal contamination and physiological variability in the Brazilian mangrove crabs Ucides cordatus and Callinectes danae (Crustacea: Decapoda). Marine Biology. 2000.

Ortega, P.; Custódio, M. R. and Zanotto, F. P. Characterization of cadmium plasma membrane transport in gills of a mangrove crab Ucides cordatus. Aquatic Toxicology. 2014.

Ortega, P.; Vitorino, H. A. et al. Physiological differences in the crab Ucides cordatus from two populations inhabiting mangroves with different levels of cadmium contamination. Environmental Toxicology and Chemistry. 2016.

Ortega, P.; Custódio, M. R. and Zanotto, F. P. Characterization of cadmium transport in hepatopancreatic cells of a mangrove crab Ucides cordatus: the role of calcium. Aquatic Toxicology. 2017.

Silvestre, F.; Trausch, G.; Péqueux, A. and Devos, P. Uptake of cadmium through isolated perfused gills of the Chinese mitten crab, Eriocheir sinensis. Comparative Biochemistry Physiology (A). 2004.

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