O que falta para a Medicina usar as células-tronco?

Nos últimos textos vimos que as células-tronco pluripotentes podem ser ferramentas valiosas na medicina, para tratar diversas doenças. Tudo devido a uma propriedade única. Estas células podem se transformar em qualquer célula, de qualquer órgão, do seu corpo!

Normalmente, estas células existem no embrião, logo no início da sua formação. Por isso, são chamadas células-tronco embrionárias (clique aqui para saber mais sobre elas). No entanto, existe toda uma discussão ética acerca da utilização destas células. Afinal, embriões humanos foram usados para isolá-las.

A ciência, então, criou uma alternativa às células-tronco embrionárias. Os cientistas aprenderam a criar células-tronco com características semelhantes, de forma artificial, no laboratório!

São as chamadas células-tronco de pluripotência induzida. Sim, o nome é complicado, mas o conceito é bem fácil.

O que os cientistas fazem é pegar qualquer célula do seu corpo, como uma célula da sua pele, por exemplo. Em seguida, eles ensinam essa célula a se comportar como uma célula-tronco embrionária. Tecnicamente, nós chamamos isso de reprogramação. Se você quiser mais detalhes sobre como isso é feito, clique aqui.

Daí, essas células-tronco artificiais podem ser induzidas a se transformarem nas células do órgão que se pretende tratar. Por exemplo, em células do músculo do coração, para tratar um infarto (Figura 1).

Figura 1: Tipos e formas de obtenção de células-tronco pluripotentes para uso em terapias.

 

As grandes vantagens das células-tronco criadas em laboratório são:

  • Não possuem problemas éticos
  • Podem ser criadas especificamente para cada paciente. Isto quer dizer que a necessidade das células serem compatíveis com o paciente que as receberá (como ocorre em qualquer transplante) deixaria de existir.

Então, você deve estar se perguntando:

Se os cientistas já sabem fazer isso tudo, por que estas células ainda não estão sendo usadas na medicina?

Bem, porque, na prática, não é tão fácil como parece.

Vejamos os principais motivos que retardaram (ou ainda retardam) sua utilização.

1) A memória das células-tronco. Sim, elas sabem o que elas foram no verão passado!! Em outras palavras, se determinada célula-tronco foi criada a partir de uma célula da pele, de certa forma, ela se lembra que já foi uma célula da pele!

De início, os cientistas não sabiam ao certo se esta memória se traduziria em alguma limitação nos tipos de células especializadas que as células-tronco poderiam gerar. Isto é, se ao invés de gerar células de todos os órgãos, elas se limitariam a somente alguns específicos.

Então, os cientistas tiveram que parar e estudar isso. Ver qual célula do organismo é melhor para gerar as células-tronco. E então uma coleção de células-tronco, geradas a partir de diferentes células do organismo, foram sendo geradas mundo afora. E estocadas em bancos de células.

2) A instrução das células-tronco. Para serem utilizadas em terapia, as células-tronco precisam, primeiro, serem instruídas a gerar apenas a célula do órgão a ser tratado. Então, se a terapia for para um coração infartado, os cientistas precisam ensinar as células-tronco a virarem apenas células do coração. E não do dente, por exemplo. Ninguém quer um dente no coração, né? Mas fazer isso não é fácil. Os cientistas precisaram aprender como dizer isso às células.

3) O custo da tecnologia. Como falei lá no início, a ideia inicial era gerar células específicas para cada paciente. Para evitar os riscos de rejeição. Mas, logo se percebeu que isto custaria muito caro. Estima-se que cada lote de células custe em torno de 1 milhão de dólares, desde a sua geração até estar pronta para aplicação!!!

Uma das formas de baratear, então, tem sido a criação de bancos de células-tronco. A ideia é que células produzidas a partir de vários doadores, com perfis genéticos variados, sejam estocadas e utilizadas em um amplo público.

O melhor exemplo dessa estratégia é um banco de células que está sendo estabelecido no Japão, sob o comando de Shinya Yamanaka, o “inventor” das células-tronco de pluripotência induzida. O objetivo dele é, em 2020, ter um número de lotes de células disponíveis que sejam compatíveis com cerca de 80% da população japonesa!

4) A garantia da eficácia e da segurança. Por fim, mas não menos importante. Antes que qualquer tratamento possa ser usado em pacientes, primeiro é preciso testar sua segurança e eficácia. São os chamados estudos clínicos de fase I.

Nestes estudos, alguns poucos pacientes são selecionados e participam da pesquisa. Há todo um apoio para garantir a ética dos testes e o socorro aos pacientes caso algum imprevisto aconteça. Os pacientes são acompanhados durante um período. Em alguns casos, por alguns anos. Só depois que esta etapa seja cumprida é que o tratamento pode vir a ser liberado. Os trâmites subsequentes dependem da legislação de cada país.

No mundo todo, quem lidera essas pesquisas é o Japão. Neste ano, dois estudos clínicos de fase I foram aprovados e iniciados. Um para tratamento de infarto do miocárdio (coração) e outro para o Mal de Parkinson.

Muitos desafios ainda restam pela frente. Com trabalho e investimento, a ciência pode chegar lá.

 

REFERÊNCIAS

Noguchi H, Miyagi-Shiohira C, Nakashima Y. Induced Tissue-Specific Stem Cells and Epigenetic Memory in Induced Pluripotent Stem Cells. International Journal of Molecular Science. 2018.

Takahashi K, Tanabe K, et al. Induction of pluripotent stem cells from adult human fibroblasts by defined factors. Cell. 2007.

Thomson JA, Itskovitz-Eldor J, et al. Embryonic Stem Cell Lines Derived from Human Blastocysts. Science, 1998.

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