O isolamento social melhora o meio ambiente?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou, em 11 de março de 2020, a COVID-19 como uma pandemia. Contudo, os primeiros casos da doença no Brasil iniciaram em 26 de fevereiro, na cidade de São Paulo. Até o dia 26 de abril, o país já apresentava 61.888 casos confirmados, sendo São Paulo a região com o maior número de casos da doença (13.513 casos). 

Na tentativa de frear a disseminação da COVID-19, em 24 de março de 2020 o governo do estado de São Paulo declarou lockdown parcial. Com isso, ocorreu o fechamento de shoppings, restaurantes, academias de ginástica, escolas e universidades. Apenas estabelecimentos considerados essenciais mantiveram as portas abertas, como os supermercados e farmácias/drogarias. Esses estabelecimentos tiveram de apresentar restrições quanto ao número e distanciamento de clientes. Até os transportes públicos reduziram suas frotas circulantes para manter a população em casa. Dados de 09 de abril de 2020 mostraram que essas medidas conseguiram uma média de 54% de isolamento social.

Assim, as medidas decretadas pelas autoridades estaduais e municipais para conter o avanço da COVID-19 impediram o aumento acelerado da transmissão da doença. Além disso, com a menor movimentação de pessoas, essas medidas mostraram-se, também, benéficas para o meio ambiente.

Figura 1: Isolamento social decretado devido à COVID-19.
Melhorias na qualidade do ar

Estudos realizados pelo Prof. Dr. Rodrigo Custódio Urban, diretor da Faculdade de Engenharia Ambiental da PUC-Campinas, e pela Profa. Dra. Liane Yuri Kondo Nakada, atuante na área de Saneamento e Ambiente pela UNICAMP, mostram que a poluição atmosférica da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) diminuiu com as restrições de deslocamento da população, principalmente com as restrições veiculares.

A emissão de dióxido de nitrogênio (NO2) diminuiu 45% em relação ao mesmo período de 2019. Além disso, a RMSP apresentou diminuições na emissão de óxido nítrico (NO) e monóxido de carbono (CO), comportamento muito parecido com a China e a Espanha, que também adotaram regras de distanciamento social.

Fora do Brasil, Zambrano-Monserrate e colaboradores (2020) e Tobías e colaboradores (2020) também verificaram uma melhoria na qualidade do ar associada ao distanciamento social. Através do uso do Serviço de Monitoramento Atmosférico Copernicus, os pesquisadores detectaram uma redução de 20 a 30% de matéria particulada na China. Na Espanha, por sua vez, houve uma redução de 31% de matéria particulada e de 51% de NO2 devido ao lockdown.

Redução da poluição

Em São Paulo, com as ordens do Governo de Estado que culminaram no fechamento de diversos estabelecimentos, cerca de 54% da população aderiu ao isolamento social. Até o dia 24 de março, quando começaram as medidas de distanciamento social, os dados registravam um aumento da poluição de 12%, comparando os índices com os dados de 2019. Assim, o distanciamento social foi crucial para os resultados positivos da RMSP.

O decréscimo na produção de agentes poluentes, embora associado à menor atividade industrial, justifica-se principalmente pela redução da circulação de veículos na cidade. Em São Paulo, por exemplo, o tráfego é responsável por aproximadamente 68% das emissões de NO2 e 98% de CO. Além disso, os caminhões abastecidos com diesel representam a principal fonte de NO.

Contudo, essas mudanças estão limitadas apenas à melhoria do ar? Ao que tudo indica, sim. Várias reportagens foram divulgadas nas redes sociais mostrando a melhoria da qualidade da água nos canais de Veneza, na Itália; ou até mesmo o aparecimento de golfinhos nesses canais. No entanto, tudo isso não passou de um grande exagero.

De acordo com o biólogo Jaime Martinez, professor da Universidade de Passo Fundo, essas mudanças ambientais tendem a ser temporárias, com um maior reflexo na atmosfera.

Figura 2: Canais de Veneza antes da pandemia.
Hora de repensar as atitudes ambientais

O professor e biólogo Jaime Martinez ressalta ganhos ambientais significativos, principalmente com a melhoria da visibilidade da atmosfera, devido à queda da emissão dos gases do efeito estufa. No entanto, não houveram mudanças quanto à qualidade das águas.

Eventualmente, pode ocorrer uma diminuição da atividade industrial e uma possível melhoria da qualidade das águas com a diminuição dos lançamentos de efluentes nos rios. No entanto, as pessoas, apesar de não estarem no seu local de trabalho, continuam em suas casas, utilizando o serviço de esgoto numa mesma magnitude.

Por isso, com a eventual reabertura, essas mudanças serão temporárias, com tendência ao retorno dos índices de poluição que já haviam sendo liberados antes da pandemia.

É preciso repensar os hábitos da nossa relação com o meio ambiente. O período de isolamento trouxe vários aprendizados e algumas atividades podem ser feitas on-line. No comércio, por exemplo, muitos se voltaram para as compras e vendas on-line, diminuindo o tráfego de veículos.

Deixar o carro em casa e utilizar os transportes públicos é necessário. No entanto, esse transporte precisa ser de qualidade. Além disso, as caminhadas e utilizar a bicicleta para a locomoção também poderiam ser uma boa solução.

Enfim, a pandemia pode trazer um aprendizado significativo da nossa relação com o meio ambiente. Vamos repensar hábitos e encontrar soluções que tornem a vida melhor, com mais qualidade, sem deixar de lado o ambiente.

Figura 3: Uso da bicicleta como novo meio transporte.
REFERÊNCIAS

Nakada LYK; Urban RC. COVID-19 pandemic: Impacts on the air quality during the partial lockdown in São Paulo state, Brazil. Sci. Total Environ. 2020.

Tobías AC et al. Changes in air quality during the lockdown in Barcelona (Spain) one month into the SARS-CoV-2 epidemic. Sci. Total Environ. 2020.

Zambrano-Monserrate Ma et al. Indirect effects of COVID-19 on the environmet. Sci. Total Environ. 2020.

Purgato V. Poluição ao meio ambiente diminuiu após medidas de isolamento social. PUC-Campinas. 2020.

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