Cafuné que alivia a dor

O quanto significa um pequeno toque, um cafuné, quando estamos sofrendo? Será que os laços afetivos que estabelecemos podem, de fato, diminuir nossa dor?

Perguntas complexas, profundas e interessantes como essas começam a ser respondidas por neurocientistas que estudam a sincronicidade cerebral.

Há muito que a ciência já identificou a importância do acoplamento de ritmos nos processos naturais. Predadores sincronizam seus movimentos enquanto caçam. Vaga-lumes funcionam como osciladores biológicos e piscam juntos em determinadas situações. Além disso, diversos animais sincronizam suas vocalizações com objetivos distintos, como a busca por parceiros sexuais ou defesa de território.

O ser humano também exibe uma série de comportamentos de maneira síncrona. De forma inconsciente nós sincronizamos nossos passos com uma pessoa com quem andamos juntos. E temos uma tendência de “espelhar” nossa postura durante uma conversa. Diversos estudos revelam que existe uma sincronia importante em contextos sociais determinantes para nossa vida, como no entendimento da fala e nos processos de criação de vínculo afetivo dos filhos com suas mães. Talvez seja na infância que percebemos mais facilmente a importância da imitação para a determinação de nosso desenvolvimento enquanto ser social, o que indica para os cientistas que essa sincronicidade desempenha um papel importante na geração dos comportamentos afiliativos que nos permitem viver em sociedade.

Assim, com o objetivo de entender o que ocorre no cérebro durante esses processos, cresce a cada ano o número de estudos sobre “sincronicidade neuronal” ou “acoplamento fisiológico”. Com isso, estudos recentes que mediam o batimento cardíaco e a taxa respiratória de pessoas que assistiam a um filme com um alto teor emocional revelaram que elas tinham essas variáveis fisiológicas acopladas entre elas. Ou seja, ao assistir ao filme os corações das pessoas passavam a bater na mesma frequência e o mesmo ocorria com suas respirações.

Da mesma forma, pessoas que cantavam juntas também exibiram freqüências cardíacas e ritmos respiratórios sincronizados. Ao se investigar os ritmos do cérebro, pesquisas revelam que, no ambiente de trabalho em grupo, quando existe bom relacionamento entre os lideres e seus seguidores, suas ondas cerebrais medidas com EEG ficam em padrões de frequências semelhantes. E no amor? Quando os casais apaixonados simplesmente estão na presença uns dos outros, seus padrões cardiorrespiratórios e ondas cerebrais se sincronizam.

A partir desses e de outros resultados, a Ciência evidencia cada vez mais a importância da sincronicidade para o desenvolvimento do ser humano.

E quanto à diminuição da dor? Um artigo publicado no dia dos namorados desse ano (2017) na revista Scientific Reports, do grupo Nature, revelou um dado interessantíssimo para os apaixonados: quando tocamos a mão da mulher que amamos quando ela está sentindo dor, nossos corações e nossas respirações se sincronizam e sua dor se dissipa!

Esse foi o primeiro estudo a explorar a sincronização interpessoal no contexto de dor e de toque. Os pesquisadores investigaram 22 casais heterossexuais, entre 23 a 32 anos e com mais de 2 anos de relacionamento em seis situações nas quais os parceiros foram instruídos a segurar as mãos, a sentar sem contato físico ou permanecer em salas separadas durante duas condições: dor versus sem dor.

As mulheres tinham em seu antebraço um pequeno termostato que podia causar uma dor de intensidade variável por 2 minutos. Os homens, então, apenas as observavam. Simultaneamente, os pesquisadores coletavam suas freqüências cardíacas e taxas respiratórias. Os casais podiam ficar em salas separadas ou na mesma sala, ora de mãos dadas, ora sem nenhum contato físico que não o visual.

Os resultados evidenciaram fatos bem interessantes. Como em outros estudos, só por estarem se vendo na mesma sala, os casais tinham suas variáveis fisiológicas sincronizadas. Contudo, quando a mulher passou a sentir dor, mas não podia tocar o homem, a sincronização foi interrompida. E, o mais importante, quando o homem podia segurar a mão da mulher que sentia dor, ambos entravam em sincronia e a sensação de dor era diminuída. Em uma interpretação possível, parece que a dor interrompe a sincronização interpessoal entre o casal, mas o toque é capaz de reestabelecê-la. Além disso, quanto mais o homem mostrava empatia, menor era a dor que a mulher sentia quando eles se tocavam. Da mesma forma, quanto mais o casal estava sincronizado menos dor a mulher sentia.

Os autores afirmaram que ainda não está claro como a sincronicidade fisiológica interpessoal está relacionada à diminuição da dor durante o toque. Eles acreditam que esse fenômeno pode estar ligado com a ativação da ínsula e do córtex cingulado. Essas são áreas cerebrais relacionadas com a empatia. Ou ainda, com a ativação do córtex parietal inferior, região do cérebro aonde se encontra o “sistema neurônio espelho”.

Ainda será preciso muito mais pesquisas para entendermos como o toque, o carinho ou o cafuné podem diminuir a dor. Entretanto, a ciência revela cada vez mais a importância das emoções e dos afetos na constituição do desenvolvimento humano. Cada resultado, como os apresentados aqui, revelam o quanto não podemos negligenciar nossos laços afetivos.

Assim, ainda que sem entendermos muito bem o que acontece no cérebro, saiba que um abraço ou um simples cafuné pode contribuir para aliviar o sofrimento alheio e fortalecer nossas relações sociais. Não se esqueça que somos um animal social, um macaco nu, mas que adora e precisa de um cafuné.

 

REFERÊNCIAS

Goldstein P, Weissman-Fogel I, Shamay-Tsoory SG. The role of touch in regulating inter-partner physiological coupling during empathy for pain. Scientific Reports. 2017.

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