O autismo marcado no cérebro do bebê

O cérebro talvez seja o órgão do nosso corpo mais misterioso. Ele fica aqui dentro das nossas cabeças protegido pelo crânio e por algumas membranas. Talvez seja esse enclausuramento que instigue a curiosidade de todos nós. Apesar da tecnologia estar avançando ainda temos que olhar o cérebro de um ser humano com técnicas indiretas de imageamento. E essas técnicas podem nos ajudar a responder diversas questões sobre doenças como o autismo.

A ressonância magnética funcional é uma dessas técnicas. Os cientistas e técnicos de imagem podem medir a atividade do cérebro de maneira indireta. Isso porque o tubo de ressonância pode detectar mudanças de perfusão sanguínea em partes do cérebro. O sangue carrega oxigênio ligado às moléculas de hemoglobina e a máquina da ressonância pode medir o contraste da deoxigenação da hemoglobina. Alguns estudos mostram que existe uma correlação da quantidade de sangue em uma região do cérebro e sua atividade. Os neurônios em maior atividade precisam de mais energia e oxigênio. Além disso, estudos de Seiji Ogawa mostraram que as formas oxigenada ou deoxigenada da hemoglobina apresentam propriedades magnéticas específicas que podem ser detectadas pelo MRI (imagem de ressonância magnética). É por isso que os cientistas assumem que uma região do cérebro com mais fluxo sanguíneo é uma região do cérebro mais ativa.

O legal dessa técnica é que a pessoa dentro do escâner pode fazer algumas atividades e os cientistas podem então entender como o cérebro funciona. Podemos ver quais áreas do cérebro estão mais ativas durante um determinado pensamento ou ação. O padrão de atividades do cérebro podem predizer o que o paciente está pensando ou como está se movimentando. Isso quer dizer que a atividade do cérebro pode predizer o comportamento.

Atualmente, os cientistas estão esticando cada vez mais o quanto podem predizer determinado comportamento ou doença. Eles fazem isso através da observação da atividade do cérebro muito e muito tempo antes.

E o autismo?

Os cientistas estão utilizando as imagens dos cérebro de bebês de 6 meses para predizer o risco de desenvolvimento de autismo quando as crianças fazem 2 anos.

O autismo afeta 1 em cada 110 pessoas nos Estados Unidos. Isso nos permite estimar que o Brasil tenha em média 2 milhões de autistas. Desde a descoberta da doença pelo médico Leo Kanner, o transtorno tem sido centro de diversos estudos científicos que ainda buscam a origem da condição. Não há respostas finais mas sabe-se que o autismo é uma doença multi-variada e determinada por fatores multi-causais. Por isso, é muito difícil se diagnosticar com antecedência o desenvolvimento da doença. No entanto, o diagnóstico ajuda na prevenção de alguns sintomas e na inserção da criança em modelos educacionais adequados.

Novos estudos vem trazer uma pitada de esperança para um diagnóstico do autismo e, com isso, um melhor prognóstico.

O que os estudos científicos dizem?

Evidências publicadas na Nature em 2017, indicam que os médicos devem deixar de dar atenção ao comportamento das crianças de 1 ano. Na verdade, eles devem dar atenção para como o cérebro das crianças está crescendo. Alguns meses mais tarde, um novo estudo científico mostrou que os sinais neurológicos do autismo podem ser detectados mesmo antes de 1 ano de idade.

Os cientistas utilizaram as técnicas de ressonância magnética para fazer a imagem do cérebro de crianças de 6 meses enquanto elas estavam dormindo. Essas crianças apresentavam alta chance de desenvolvimento de autismo porque tinham irmãos mais velhos que já tinham desenvolvido a doença. Com a idade de 2 anos, 11 das 59 crianças estudadas do grupo de alto risco desenvolveram realmente autismo.

Os cientistas utilizaram diversas equações matemáticas e estatísticas para determinar se haveria um padrão da atividade de cérebro que predissesse o desenvolvimento da doença. Usando técnicas computacionais avançadas, os cientistas determinaram padrões do funcionamento do cérebro dos bebês de 6 meses que podem prever o desenvolvimento de autismo aos 2 anos. Essa previsão atingiu 93% de precisão. Os cientistas encontraram 974 conexões funcionais no cérebro  que já estariam associadas ao autismo.

“As mudanças no cérebro acontecem antes das alterações comportamentais do autismo”, foi o que disse a diretora do Instituto de saúde da criança dos EUA, Dra. Diana Bianchi. Ela e o diretor do Instituto de doenças mentais dos EUA, Joshua Gordon, declararam que os estudos precisam ser confirmados e ampliados. No entanto, essas descobertas científicas mostram que, futuramente, utilizaremos a técnica de ressonância magnética para predizer o desenvolvimento do autismo. Isso trará um prognóstico e qualidade de vida muito melhor para o paciente e também para a família.

E aqui vai uma dica:

Para aqueles pais que ainda pensam em qualquer tipo de correlação entre o autismo com vacinas, ESQUEÇA! Vacinas não causam autismo. Os estudos de imagem demonstraram que o autismo está no cérebro da criança desde de muito cedo. A melhor maneira de manter suas crianças protegidas é vaciná-las nos momentos apropriados.

 

REFERÊNCIAS

Emerson RW, Adams C, Nishino T, Hazlett HC, Wolff JJ, Zwaigenbaum L, Constantino JN, Shen MD, Swanson MR, Elison JT, Kandala S, Estes AM, Botteron KN, Collins L, Dager SR, Evans AC, Gerig G, Gu H, McKinstry RC, Paterson S, Schultz RT, Styner M, the IBIS Network, Schlaggar BL, Pruett, Jr. JR, and Piven J. Functional neuroimaging in high-risk 6-month-old infants predicts later autism. Science Translational Medicine. 2017.

Hazlett HC, Gu H, Munsell BC, Kim SH, Styner M, Wolff JJ, Elison JT, Swanson MR, Zhu H, Botteron KN, Collins DL, Constantino JN, Dager SR, Estes AM, Evans AC, Fonov VS, Gerig G, Kostopoulos P, McKinstry RC, Pandey J, Paterson S, Pruett JR, Schultz RT, Shaw DW, Zwaigenbaum L, Piven J; IBIS Network; Clinical Sites; Data Coordinating Center; Image Processing Core; Statistical Analysis. Early brain development in infants at high risk for autism spectrum disorder. Nature. 2017.

Huettel SA, Song AW, McCarthy G. Functional Magnetic Resonance Imaging (2 ed.), Massachusetts: Sinauer, ISBN 978-0-87893-286-3. 2009.

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