Mudanças climáticas: a chapa está esquentando

Todo mundo já deve ter ouvido falar pelo menos uma vez na vida sobre as tais mudanças climáticas que o planeta está sofrendo. No entanto, o que exatamente são essas mudanças? E quais os agentes causadores dessas transformações?

Antes de tudo, precisamos entender como funciona a nossa atmosfera.

Essa camada de ar que envolve a superfície do planeta é composta por uma variedade de gases, como o dióxido de carbono (CO2), o oxigênio (O2), o ozônio (O3), o nitrogênio (N2), dentre outros. Esses gases mais os vapores d’água funcionam como uma estufa de plantas e permitem a vida na Terra. Essas estufas, mantém a temperatura mais elevada e menos variável que o exterior. Os raios solares que atingem a superfície do planeta são em parte absorvido pela superfície e pelos oceanos, e parte é refletida de volta ao espaço pela própria atmosfera. O que é absorvido promove o aquecimento. Parte desse aquecimento é irradiada para o espaço novamente, mas uma parte é retida pelos gases atmosféricos. Dessa forma, o planeta se mantém aquecido em uma temperatura que permite que a vida ocorra por aqui.

Caso nosso planeta não tivesse os gases atmosféricos, a vida na Terra seria impossível para grande parte dos seres vivos. Isso porque a temperatura média poderia ser de até 32 graus Celsius menor que a média atual. Isto é cerca de 18°C negativos, o que afetaria a maior parte das espécies que existem no mundo. Frio demais, não é?

E o que está acontecendo?

O que estamos vivendo atualmente é o desequilíbrio da concentração dos gases que compõem a atmosfera. As atividades antrópicas (causadas pelos seres humanos) vem desequilibrando essas forças. Isso ocorre por causa do uso indiscriminado de combustíveis fósseis (derivados do petróleo). Além disso, o desmatamento, os gases metanos produzidos pela digestão do gado, o uso de fertilizantes, as indústrias, também contribuem para o aumento de gases estufa.

O CO2 é o maior vilão entre os gases de efeito estufa. A quantidade desse gás na atmosfera aumentou 35% a partir do avanço industrial. O metano (CH4) é outro vilão nesse caso, e é produzido na decomposição de matéria orgânica, como em lixões, como produto da digestão do gado, ou ainda alguns cultivos (como o arroz), e em certos casos, até mesmo nos reservatórios de hidrelétricas. Isso mesmo, nem sempre a ideia que vendem de hidrelétricas como energia limpa é verdade. O material em decomposição no fundo desses reservatórios podem liberar quantidades fenomenais de gás metano para a atmosfera. Considerando que o metano é 21 vezes mais potente que o CO2 no efeito estufa, temos um grande problema nessas situações.

Outros gases que também atuam no aquecimento global são o óxido nitroso (N2O), ozônio (O3), hexafluoreto de enxofre (SF6), hidrofluorcarbonos (HFCs), perfluorcarbonos (PFCs). Todos eles são resultantes de processos industriais ou agropecuários.

E a Terra não apresenta essas variações de temperatura normalmente?

Sim, existem variações cíclicas da sua temperatura da Terra. Essas variações são bem documentadas com evidências geológicas e biológicas. Entretanto, essas mudanças sempre foram decorrentes de processos naturais e lentos, considerando o período geológico. O problema é que as mudanças das últimas décadas são mais pronunciadas e rápidas que em qualquer outra época da história. A concentração de CO2 em 2005, por exemplo, superou a variação natural dos últimos 650 mil anos. Isto significa um aumento de aproximadamente 35% desde o início da Revolução industrial!

Além disso, as temperaturas médias do ar e dos oceanos registradas nos últimos anos tem subido consideravelmente, e há um derretimento generalizado da neve e gelo, sobretudo no ártico, e consequente elevação dos mares. Somente nos últimos 50 anos, a temperatura média do planeta já subiu 1°C. Quando se fala em uma variação de 1°C, muita gente pode pensar que isso não afeta em nada nossa vida, não é mesmo? Afinal, a oscilação da temperatura diária normalmente costuma ser maior que isso.

Só que, lembrando mais uma vez, estamos falando de valores médios registrados ao longo dos anos. Nesse caso, segundos as predições, se a temperatura do planeta continuar subindo dessa forma, em 2050 teremos um aumento médio de 4°C.

Você ainda não consegue entender o quanto as mudanças climáticas irão afetar sua vida?

Aqui vão alguns dados que podem te ajudar a dimensionar o impacto. As mudanças climáticas podem afetar as colheitas de milho e trigo causando baixas de 40%, e as de arroz 30%. A questão da alimentação mundial, que atualmente já é um grande problema, poderá se tornar ainda pior no futuro, com os países mais pobres sentindo as maiores consequências. Organizações mundiais prevêem que um aumento de 3.5°C já seria suficiente para extinguir 70% de todas as espécies existentes.

Além disso, precisamos considerar que pode ocorrer efeitos em cadeia. A extinção de uma espécie pode influenciar em processos ecológicos e afetar outras espécies. Já existem previsões de que essas alterações climáticas podem favorecer a dispersão de vetores de doenças, como a da malária, febre amarela, dengue e chikungunya.

Além dos efeitos na biodiversidade, o aquecimento global também favorecerá condições climáticas extremas, como ondas de frio rigoroso e calor muito severo. Furacões ou ciclones tropicais podem se tornar mais comum também. O aquecimento causa elevação dos níveis dos oceanos e consequente comprometimento das cidades litorâneas, desertificação, alteração do regime de chuvas (e consequentemente da agricultura), intensificação das secas em algumas regiões. O aumento da concentração de CO2 na atmosfera leva à acidificação dos oceanos. Isso causa a morte dos corais e da biota associada, comprometendo estoques pesqueiros.

Portanto, precisamos repensar nosso modelo de vida no planeta.

Sobretudo o uso de combustíveis fósseis e o processo industrial predominante. Inevitavelmente, precisamos de medidas austeras que afetarão a economia em nome da sobrevivência da biodiversidade atual, e da sobrevivência da nossa própria espécie. Vale lembrar, que mesmo sob condições atuais de clima, há muitas guerras, fome, e problemas de acesso a água potável. Sobretudo, nos países mais pobres, onde a falta de tecnologia e a grande desigualdade social, afetam as camadas carentes da população. Certamente as catástrofes climáticas serão mais dificilmente reversíveis.

Nós também podemos adotar pequenos hábitos que com certeza ajudarão nosso planeta a enfrentar os desafio. Que tal contribuir com nosso planeta evitando o desperdício de energia elétrica e de alimentos? Podemos diminuir o uso de veículos automotores, preferindo as caronas compartilhadas ou transporte coletivo. Podemos cortar metano diminuindo o consumo de carne de gado e leite. E que tal preferir comprar produtos sustentáveis? Devemos lembrar sempre de reciclar lixo e evitar o uso de materiais plástico. Pequenas atitudes pessoais diárias, consequências gigantes para a coletividade.

Nosso país continua desmatando cada vez mais. O saneamento básico ainda é um sonho para muitos. Vivenciamos grandes tragédias ambientais como o rompimento da barragem de Fundão em Mariana-MG.  Precisamos reivindicar mudanças urgentes antes que a chapa esquente! Por um planeta mais saudável, vamos à luta, sem temer!

REFERÊNCIAS

Angelo C. A espiral da morte. Companhia das letras. 2016.

Gore A. Uma Verdade Inconveniente. Manole. 2006.

Peel GT, Araujo MB, Bell JD et al. Biodiversity redistribution under climate change: Impacts on ecosystems and human well-being. Science. 2017.

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