Microrganismos e extraterrestres

Estamos acostumados a ver seres vivos em temperaturas variando entre uns 30°C positivos e alguns abaixo de zero. Nessas temperaturas os seres humanos podem sobreviver. No entanto, a vida sempre surpreende. Não se assuste ao saber que existem seres vivos que sobrevivem a temperaturas acima de 100°C, em pressões atmosféricas gigantescas ou em locais tão radioativos que uma pessoa morreria em poucos minutos. E conhecer esses organismos pode ser vital para a compreensão de uma possível vida extraterrestre.

Chamados de extremófilos, esses seres vivos são definidos como aqueles que sobrevivem em condições extremas. Essas condições são aquelas que a maioria dos organismos conhecidos não conseguiria aguentar. Descobertos há cerca de 30 anos, os extremófilos surpreenderam a comunidade científica. Eles mostram  que é possível viver em condições extremas de temperatura, umidade, pressão, salinidade, pH, radiação e outras condições físicas e geoquímicas diversas.

Fonte termal no Parque Yellowstone (EUA)

O primeiro extremófilo foi descoberto pelo cientista Thomas Brock, enquanto pesquisava sobre o porquê das cores nas fontes termais do Parque Yellowstone, nos Estados Unidos. Analisando essas águas, que chegam a mais de 70°C, o pesquisador encontrou bactérias que foram nomeadas como Thermus aquaticus, em referência a sua resistência a altas temperaturas. São essas bactérias que produzem os efeitos coloridos dessas fontes, mostrando que a vida pode estar em todos os lugares.

 

A resistência é meu sobrenome         

Falando em locais habitáveis pelos seres vivos, o tardígrado (iguais ao da imagem que abre esse artigo) é um animal que sempre surpreende pela sua resistência e locais inusitados onde pode viver. Medindo cerca de um milímetro e vivendo em meio aos musgos em todo o mundo, os tardígrados são conhecidos por serem um dos mais resistentes seres vivos conhecidos.

Já foram observados em grandes altitudes (acima dos 6000 m no Himalaia), em grandes profundezas oceânicas (4000 m abaixo do nível do mar) e numa amplitude de temperatura que varia de muito próximo ao zero absoluto (que é -273°C) a mais de 150°C. Isso já torna esses bichinhos como um dos mais resistentes organismos conhecidos. Talvez tão conhecidos quanto as archeas, grupo de organismos “primas” das bactérias que resistem a muitas condições extremas.

Para testar ainda mais essa resistência, a Agência Espacial Européia (ESA) levou tardígrados para o espaço  (como a gente comentou aqui no Eureka Brasil). Por 10 dias no vácuo espacial, eles receberam altas doses de radiação cósmica, suficiente para matar um ser humano. Reintroduzidos ao planeta, bastaram ser hidratados para voltar a viver normalmente, como se nada tivesse acontecido!

Tardígrado

A resistência dos tardígrados se deve a um processo de desidratação que esses animais realizam, chamado anidrobiose. Eles perdem água voluntariamente quando estão em ambientes extremos. Dessa forma, entram numa espécie de “estado de animação suspensa”, que pode durar anos até que as condições ambientais melhorem e ele possa se hidratar novamente.

Bactérias também se mostram muito resistentes a extremismos. Muitas conseguem tolerar temperaturas altíssimas, enquanto outras aguentam, tranquilamente, radiações mais altas que a do reator 4 de Chernobyl. Outras, ainda, vivem em condições que se assemelham às da Terra primitiva, encontrada nas profundezas marinhas, próximas a fumarolas. Seu metabolismo consegue aguentar essa realidade, que, para elas, é normal. Do ponto de vista delas, nós que somos os extremófilos, vivendo em temperaturas baixas e respirando oxigênio, um gás mortal para elas.

Deinococcus radiodurans, bactéria extremófila resistente à radiação

Estudar esses seres vivos não se resume na mera curiosidade de conhecer os organismos terrestres. Estudá-los pode lançar ideias de como a vida pode ser em outros planetas, em condições totalmente inadequadas a sobrevivência humana.

 

Em busca de vida extraterrestre

Nos últimos 20 anos, vários exoplanetas (aqueles localizados fora do Sistema Solar) foram descobertos. Alguns são gigantes gasosos, mas muitos são rochosos, como a Terra. Uns perto demais de sua estrela, outros muito longe, mas alguns dentro da distância ideal para abrigar vida. Essa distância garante que haja água nos estado líquido, fundamental para que a vida, pelo menos de como conhecemos hoje, seja possível. Qualquer ser vivo conhecido, até mesmo os extremófilos, necessitam de água líquida para viver. Esse pré-requisito é o início das buscas por vida extraterrestre. E não estamos falando de homenzinhos verdes e viajam em discos voadores. Qualquer vida extraterrestre é válida, mesmo que seja uma ameba intergalática.

Por muito tempo se buscou vida em planetas muito semelhantes à Terra. Mas, e se a vida pudesse existir em locais bem diferentes, onde os humanos não sobreviveriam, mas talvez bactérias e tardígrados sim? É nesse ponto que o estudo dos extremófilos se aliou a Astrobiologia, numa busca por vida em locais antes improváveis.

Estudar os extremófilos permite conhecer as sutilezas dos seres vivos, que conseguem sobreviver em condições bem incomuns. Se aqui na Terra é possível que seres vivam em ambientes gelados, porque não poderia haver bactérias nos oceanos gelados de Encélado, umas das luas de Saturno que possui um oceano líquido abaixo de sua superfície gelada? Quanto mais se conhece sobre esses organismos e como eles aguentam essas condições ambientais extremas, aumentam as chances de que, em planetas antes considerados inóspitos, possam haver algum sinal de vida.

É estranho pensar, que na imensidão do cosmos, apenas aqui a vida despontou. Talvez em outros locais a história natural do universo tenha um registro vasto, de criaturas que aguentam condições diversas para garantir sua existência, primas distantes dos pequenos tardígrados que vivem em nossos jardins.

 

REFERÊNCIAS

Bernandes L. Exoplanetas, extremófilos e habitabilidade. Dissertação (Mestrado em Ciências) – Universidade de São Paulo, 2013.

Fil M, Guerreira F. Em busca de vida para além da Terra. In: Astrobiologia: outros mundos, outras vidas? Ciência Viva, 2011.

 

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