Microbiota intestinal: cultivando as bactérias “do bem”

Bactérias são micro-organismos unicelulares, com estrutura interna simples: não possuem núcleo ou nenhuma outra organela delimitadas com membrana e seu material genético (DNA) fica disperso no citoplasma. Os ancestrais das bactérias modernas são considerados os primeiros seres vivos (e, por algum tempo, os únicos) que habitaram o planeta Terra. E são um dos seres mais bem adaptados: podem viver em condições extremas de temperaturas, sem oxigênio (chamadas anaeróbias), no solo, no ar, na água… E no corpo humano!

Muitas pessoas associam bactérias a agentes causadores de doenças. E é verdade que muitas delas são, realmente, patogênicas. Alguns exemplos de doenças causadas por bactérias vão desde infecção urinária ou de garganta a outras, mais graves, como meningite e tuberculose. Mas se esquecem que as bactérias também exercem outras muitas funções. Elas colonizam vários órgãos no nosso corpo, como boca, nariz e intestino; ou gerando produtos para o consumo humano, como Iogurtes, queijos, cervejas e vinhos, que são obtidos através de processos fermentativos realizados por bactérias.

O conjunto de bactérias presentes em nosso corpo recebe o nome de microbiota. Estima-se que o número de bactérias que compõem a microbiota humana seja, no mínimo, igual ao número de células que formam o nosso corpo! No intestino, a microbiota intestinal (ou flora intestinal) tem vários papeis importantes. A microbiota promove e mantém a nossa saúde, e é de alguns destes processos que trataremos aqui. Dentre as diversas funções da microbiota no corpo humano, podemos destacar sua capacidade de:

-Prevenir que bactérias patogênicas se instalem no sistema gastrointestinal e nos causem doença,

-Influenciar na absorção de nutrientes obtidos dos alimentos e, assim, determinar a facilidade ou dificuldade para perder/ganhar peso, ou de se manter no peso após a dieta,

-Alterar a absorção de princípio-ativo de alguns medicamentos, e interferir na resposta a um tratamento,

-Sintetizar compostos importantes para a saúde humana, como vitaminas e hormônios, que podem interferir em vários processo complexos do corpo, alterando o humor, comportamento e até pré-dispondo ao aparecimentos de doenças.

Podemos citar como exemplo a produção de trimetilamina (TMA), gerada quando as bactérias intestinais degradam um tipo de gordura, a fosfatidilcolina, presentes em grandes quantidades de queijos, frutos do mar, ovos e carne. Ao ser absorvido pela corrente sanguínea, o TMA sofre oxidação formando um composto associado com maior risco de doença cardiovascular.

Por causa desta vasta lista de funções, a microbiota intestinal vem despertando o interesse de cientistas. Muitos trabalhos têm mostrado que a influência da microbiota na qualidade de vida das pessoas é maior do que se pensava. Sabe-se que microbiota é altamente variável entre os indivíduos, e um mesmo indivíduo apresenta variações em sua microbiota de acordo com sua idade e dieta. Dependendo do tipo de bactéria que coloniza o intestino, todas as funções citadas acima podem ser alteradas.

Então, como saber se nossa microbiota esta saudável? Como ter essas bactérias “do bem”, que podem mudar para melhor nosso metabolismo, sistema imune e hormonal? Para se ter um intestino – e um corpo – saudável é necessário “cultivar” bactérias benéficas, e isto é conseguido através de uma alimentação saudável, rica em fibras, vitaminas e probióticos (como iogurtes), para propiciar o crescimento de uma flora variada. Uma alimentação rica em gorduras e açúcares propicia o crescimento de bactérias que interferem de forma negativa no nosso metabolismo. Em casos específicos, o transplante fecal (ou transplante de microbiota fecal) é usado como opção terapêutica para pessoas com problemas intestinais graves como doença de Crohn ou colite ulcerativa, tamanho é o beneficio que uma microbiota saudável pode trazer!

REFERÊNCIAS

Baumler AJ, Sperandio V. Interactions between the microbiota and pathogenic bacteria in the gut. Nature. 2016

Drew L. Reseeding the gut. Nature. 2016

Sonnenburg JL, Bäckhed F. Diet–microbiota interactions as moderators of human metabolism. Nature. 2016

Thaiss CA, Itav S, et al. Persistent microbiome alterations modulate the rate of post-dieting weight regain. Nature. 2016

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3 comentários em “Microbiota intestinal: cultivando as bactérias “do bem”

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