Megafauna brasileira: animais fantásticos

Os animais de grande porte do passado sempre fascinaram os seres humanos através dos tempos, seja pela sua importância na caça e alimentação, a exuberância, imponência e até pelo medo que impõem. Isso é notado na cultura humana através das pinturas que encontramos nas cavernas retratando esses animais, nas representações artísticas, simbólicas e nos sucessos que eles garantem nos cinemas, vídeo-games e parques temáticos. No entanto, o que os jovens sabem sobre as grandes “feras” (a megafauna brasileira) que andaram pelas terras brasileiras? Por que será que sabemos tão pouco sobre os grandes animais que viveram no Brasil e que tiveram contato com os primeiros habitantes humanos da nossa pátria? Se você ficou curioso sobre o tema, é só continuar a leitura…

Cientificamente, muitos autores consideram animais com mais de 43 quilos como pertencentes a essa categoria de megafauna. Nesse post vou tratar de animais muito maiores, pesando cerca de uma tonelada. Só para você se situar: um boi de corte pronto para o abate pesa cerca de 600 quilos.

Na América do Sul existiram cerca de 37 espécies nativas desses animais com cerca de uma tonelada, e, hoje, o nosso maior mamífero terrestre é a anta (Tapirus terrestris), que pesa cerca de 300 kg, no máximo. Essa fauna fascinante (e grande!) desapareceu do continente entre o Pleistoceno e o Holoceno (cerca de 11,5 mil anos atrás). Nessa época, 100% da megafauna e cerca de 80% dos grandes mamíferos foram extintas. Credita-se essa extinção em massa a doenças, mudanças climáticas e atividade humana, induzida principalmente pela caça excessiva. Os motivos ainda causam controvérsia entres os cientistas, mas não há sombra de dúvidas de que os seres humanos viveram junto com esses animais.

Com a chegada do ser humano na América do Sul, provavelmente após o Último Glacial Máximo (UGM, entre 20.000 e 18.000 anos atrás; mas esse ainda é um tema muito debatido) as coisas rapidamente mudaram para a megafauna aqui existente. A temperatura subiu no continente, as áreas de vegetação aberta foram diminuindo, e a presença humana – e consequente atividade de caça – se intensificaram. Essa megafauna era em grande parte adaptada a ambientes abertos, o que pode ter contribuído fortemente para o seu desaparecimento devido aos ambientes abertos retraírem e as florestas expandirem. Eles eram herbívoros na sua maioria, e alguns poucos carnívoros. Além disso, provavelmente as fêmeas demoravam muito (mais de 10 anos) para atingir a maturidade sexual, e possuíam um longo período de lactação e de cuidado parental. Isso provavelmente dificultou as populações de sobreviverem as adversidades, gerando descendentes de forma mais rápida.

Apesar de toda histeria em torno do tema, é interessante e ao mesmo tempo triste, notar que pouco se fala das grandes formas de animais que andaram sobre as terras brasileiras. Isso talvez se deva ao fato de que a a ciência ainda não seja muito expressiva em comparação às potências científicas do mundo. Além disso, nossa divulgação científica ainda está muito aquém do necessário. Até mesmo a subvalorização da nossa cultura ajuda a diminuir o interesse pela megafauna brasileira.

Cerca de 70% da megafauna extinta era de xenartras, os parentes dos tamanduás e preguiças. Entretanto, outros animais igualmente fantásticos existiram no território brasileiro. Um deles é o Tigre-dente-de-sabre (Smilodon populator), parente dos tigres e onças atuais, mas com um tamanho de cerca 1,20 metro de altura, aproximadamente 2,10 de comprimento, 400 kg e um par de dentes caninos de 28 centímetros de comprimento em formato curvo. Não eram bons corredores, mas tinham a força comparável a de um urso. Os animais desse gênero foram descritos pela primeira por um naturalista dinamarquês chamado Peter Wilhelm Lund, em 1842. Lund nasceu em Copenhagen (Dinamarca) em 1801, veio para o Brasil em 1825, e coletou e pesquisou uma quantidade substancial de plantas e animais, e achou fósseis de animais em cavernas na região da cidade mineira de Lagoa Santa.

Outro animal fantástico que andou por terras brasileiras são as Preguiças-gigantes (Eremotherium laurilardi e Megatherium americanum). Se as preguiças atuais são carismáticas e simpáticas, as que existiram há cerca de 10 mil anos não pareciam tão dóceis. Tinham até seis metros de comprimento e 4 metros de altura, e poderiam rechaçar ataques de carnívoros como o Tigre-dente-de-sabre. Apesar de seus parentes próximos atuais como tatus e tamanduás não serem muito pesados, esses seres já extintos podiam ter até quatro toneladas. De fato, não eram predadores ferozes, eram herbívoros. Mas com esse tamanho todo não devia ser fácil enfrentá-lo frente a frente. Ela não vivia pendurada em árvores, mas andava no chão. Provavelmente possuíam uma língua preênsil parecida com as dos tamanduás atuais, se apoiava na lateral e não nas plantas dos pés, como os demais mamíferos.

Agora, se há um animal realmente curioso e no mínimo diferente, esse é o xenorinotério (Xenorhinotherium bahiensis). Esse animal viveu na Bahia e em Minas Gerais até cerca de quatro mil anos atrás. Tinha cerca de 2,5 metros de comprimento e 2,5 metros de altura, pesando até cerca de 800 quilos. Não existe nenhum parente próximo a esse animal atualmente vivo no planeta. Isso o torna tão único para nossa percepção. Esse animal possuía uma espécie de tromba curta.  Daí vem o nome do gênero, que significa besta de nariz estranho. Apesar dessa tromba, os parentes mais próximos desses animais seriam os cavalos, antas e rinocerontes, os perissodáctilos, e não os elefantes. No entanto, a separação das linhagens foi há muito tempo antes, cerca de 66 milhões de anos.

Tão simpático quanto os tatus atuais, o parente já extinto dos tatus atuais, preguiças, e tamanduás, tinha o tamanho de um fusca e é conhecido como Glipdonte (Glyptodon clavipes). Ele tinha cerca de dois a três metros de comprimento e 1,2 de altura, pesando até 1.4 toneladas. Existiu até cerca de cinco mil anos atrás e possuía uma armadura como os tatus atuais contra os possíveis predadores.

Outra forma, talvez até impensável para muitos de ocorrer no Brasil, foram os mastodontes (Stegomastodon waringi). Essa espécie, que é aparentada aos mamutes e aos elefantes, tinha cerca de 5 metros de comprimento e 2,5 de altura, pesando cerca de 4 toneladas. Viveram entre o Paraná e a Bahia.

Muitas outras formas interessantes viveram por essas terras e seria preciso muitos posts para falar de todas elas. Apesar de conviverem com os humanos sul-americanos pré-colombianos, ainda não sabemos quase nada sobre as interações dessa fauna com os nossos primeiros habitantes. Precisamos de mais estudos, mais achados e mais discussões. Com certeza esse tema sempre terá muitos cientistas dispostos a trabalhar pela causa. Também terá muitos fãs que vão adorar descobrir curiosidades sobre essas formas magníficas. E que tal, se em breve em um cinema perto de você aparecesse um bom filme nacional de ficção científica sobre o nosso “Parque da Megafauna”?

 

REFERÊNCIAS

Araújo BBA, Oliveira-Santos LGR, Lima-Ribeiro MS, Diniz-Filho JAF, Fernandez FAS. Bigger kill than chill: The uneven roles of humans and climate on late Quaternary megafaunal extinctions. Quaternary International. 2017.

Cione AL, Tonni EP, Soibelzon L. Did humans cause the late Pleistocene-Early Holocene mammalian extinctions in South America in a context of shrinking open areas? In: American megafaunal extinctions at the end of the Pleistocene. G. Haynes (ed.). 2009

Kellner A. O dente da preguiça gigante. 2012.

Kellner A. Hominídeos x megafauna. 2013.

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