A maconha que todos nós já temos

Maconha se refere às folhas secas, flores, sementes da planta de cânhamo Cannabis, que contém inúmeras substâncias. Dentre essas substâncias, existem o psicoativo delta-9-tetrahidrocanabidinol (THC) e o canabidiol (CBD).

Essas substâncias já são usadas há milhares e milhares de anos. Nós, seres humanos, descobrimos a maconha há milhares de anos, na época da antiguidade. Dr. Ernest Abel em seu livro: “Maconha: Os Primeiros Doze Mil Anos” (do inglês “Marijuana: The First Twelve Thousand Years”), declara que os chineses já plantavam a maconha e que os imperadores, há mais de 4 mil anos atrás, sugeriam o uso da maconha para o tratamento de diversas doenças.

Você já deve ter se deparado na internet, na revista, no jornal, na TV ou em uma roda de amigos com discussões das mais variadas sobre a maconha: o uso medicinal, o abuso de maconha, a legalização, a descriminalização.

Independente da sua opinião pessoal sobre todas essas discussões, gostaria de te informar, caso já não saiba, que você tem, dentro de você mesmo, substâncias muito semelhantes àquelas presentes na maconha, ainda que nunca tenha experimentado a planta. Essa “maconha natural” é chamada de endocanabinóide.

Os endocanabinóides controlam de maneira muito delicada as regiões de conexão entre dois neurônios no cérebro, as sinapses. Eles estão envolvidos com diversas funções fisiológicas. Exemplos dessas funções podem ser o apetite, sensação de dor, humor, aprendizagem e memória, digestão, comportamento de sucção em bebês, balanço energético, ciclo sono e vigília e estresse. Ou seja, os endocanabinóides são subtâncias importantíssimas para o funcionamento do nosso organismo.

E você pode me perguntar: então eu tenho THC e CBD na cabeça?

Não, não tem!

O que você tem na cabeça são os endocabinóides. Eles se chamam: N-araquidoniletanolamida (AEA) e o2-araquidonilglicerol (2-AG). Os endocanabinóides não são idênticos aos componentes canabinóides da maconha, apesar de terem uma estrutura bioquímica muito semelhante. O AEA e o 2-AG são considerados neuromoduladores e são liberados pelos neurônios para atuar em, pelo menos, dois receptores: o CB1, expresso em estruturas cerebrais, músculos, pulmão, sistema cardiovascular; e o CB2, expresso principalmente em células do sistema imunológico. Os endocanabinóides, os receptores e as enzimas que degradam os endocanabinóides estão aí dentro de você neste exato momento. E é só porque temos esses sistema que podemos perceber os efeitos que a maconha causa, tanto os efeitos psicoativos quanto os medicinais. Isso porque os componentes da maconha vão agir nos nossos receptores CB1 e CB2.

A ligação aos receptores modula a informação que um neurônio está trazendo a determinada região do cérebro. Na maioria dos casos essa modulação suprime a atividade do terminal sináptico, por suprimir a liberação de neurotransmissores como o GABA (neurotransmissor inibitório) e o glutamato (neurotransmissor excitatório). Pelo fato de os endocanabinóides regularem diversas funções, não é de se espantar que as substâncias da maconha possam ser utilizadas para o tratamento de diversas doenças.

Existem estudos científicos que demonstram o poder dos canabinóides em ajustar a atividade cerebral (homeostase). Além disso, eles também contribuem para diminuir sintomas ou progressão de diversas doenças como: doença de Alzheimer, doença de Parkinson, esclerose múltipla, epilepsia e tantas outras.

Portanto, independente de todas as outras questões sobre a maconha, não há mais como negar que a importância crucial dos endocannabinóides. Além disso,  a utilização dos canabinóides provenientes da maconha têm papel fundamental na medicina dos transtornos neurológicos, psiquiátricos e psicológicos.

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REFERÊNCIAS

Abel EL. Marijuana: The First Twelve Thousand Years. Berlin: Springer Publications, 1980.

Aizpurua-Olaizola O, Elezgarai I, Rico-Barrio I, Zarandona I, Etxebarria N, Usobiaga, A. Targeting the endocannabinoid system: future therapeutic strategies. Drug Discovery Today. 2016.

Godoy-Matos AF, Guedes EP, Souza LL, Valério CM. O sistema endocanabinóide: novo paradigma no tratamento da síndrome metabólica. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia & Metabologia. 2006.

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