Kambô: o potencial farmacológico da nossa biodiversidade

O Kambô é o nome pelo qual é popularmente conhecido o sapo da espécie Phyllomedusa bicolor. Em várias comunidades indígenas da América do Sul, na Floresta Amazônica, a secreção liberada pela pele do animal é aplicada sobre pontos de queimadura na pele em rituais religiosos. Esse ritual supostamente melhora o sistema imune, fortalece as habilidades dos caçadores e até aumenta a qualidade da vida sexual. Mas o que a ciência já sabe sobre as moléculas contidas nessa secreção? O que já sabemos sobre  os efeitos no corpo humano, e, principalmente: quais são os riscos desse método? Quer informação baseada em dados e evidências empíricas? Então, leia mais na nossa coluna.

Antes, alguns avisos…

Antes de qualquer coisa, nós precisamos esclarecer que, se você pensa em coletar um sapo para algum tipo de ritual, você irá cometer um crime. Você será penalizado de acordo com a Lei 9.605 de 1998, a Lei de Crimes Ambientais. Essa lei estabelece a prisão para indivíduos que praticarem a caça, tráfico, manutenção e maus tratos de animais silvestres. Dessa forma, não colete ou interfira no comportamento natural das espécies nativas do nosso país, combinado?

Apesar de crime previsto em lei, sabemos que a biopirataria ameaça milhares de espécies nativas brasileiras. O Kambô já é amplamente utilizado como medicina alternativa no mundo. Infelizmente, é fácil encontrar no mercado negro o Kambô stick: um pedaço de palito embebido de secreção da pele do sapo. Na internet, é comum achar esses palitos à venda, com valores variando de US$ 60 a US$ 170. Consequentemente, as populações naturais desse anfíbio estão gravemente ameaçadas de extinção por causa da coleta ilegal. É necessário um rigor no cumprimento da lei para evitar a caça desses animais.

As comunidades indígenas utilizam o Kambô como uma forma de medicina alternativa baseada nos seus preceitos religiosos. Entretanto, a difusão desses rituais na sociedade não-indígena tem se tornado comum (como o Ayahuasca) e se difundido cada vez mais. O mesmo vem ocorrendo com outras terapias não convencionais, sendo utilizadas inclusive, no Sistema Único de Saúde (SUS), sem o suporte de dados científicos sobre suas eficácias. Contudo, o potencial terapêutico do kambô também não é comprovado pela ciência. Portanto, é perigoso o uso indiscriminado, não padronizado e não regulamentado dessas fórmulas. Sem informações sobre os efeitos colaterais, e até mesmo sobre a sua eficácia real, essas terapias podem causar danos a saúde e até mesmo a morte.

O que é a “vacina” do Kambô?

Todos os anfíbios secretam muco na epiderme. Lembre-se que os anfíbios trocam gases pela pele (além do pulmão), e, por isso, precisam mantê-la bem úmida.

Consequentemente, muitos anfíbios apresentam moléculas contidas nesse muco para a sua defesa (apresentando toxinas), prevenindo contra a presença de bactérias e fungos na epiderme. Quanto ao Kambô, seu muco é rico em vários peptídeos. 

A tal “vacina do sapo” é feita utilizando essa secreção da pele do sapo. Os animais são capturados e amarrados com as  patas posteriores e anteriores abertas em forma de X, próximos a uma fogueira. Como resultado, eles se estressam e começam a secretar um muco no dorso, o qual é coletado. Posteriormente, os animais são soltos no seu ambiente natural. Essa coleta por si só é estressante para o animal, o que configura crime ambiental se praticado por pessoas não-indígenas.

Ritual indígena

Os indígenas coletam esse muco secretado com palitos de madeira, e queimam o ombro dos participantes do ritual com outro palito em brasa. Sobre a queimadura, é depositada a ponta do palito contendo a secreção e os peptídeos do muco são absorvidos rapidamente. A partir daí, inicia-se o que os adeptos chamam de ritual de purificação. Dentre os efeitos, são observados taquicardia, sedação, sudação intensa, tontura, náuseas, sensação de ardência do corpo, salivação intensa e vômitos constantes. São comuns os casos de pessoas que defecam e urinam em si mesmas. Os fenômenos cessam após alguns minutos.

Figura 1: (A) Perereca Kambô (Phyllomedusa bicolor); (B) Coleta da secreção da pele de P. bicolor; (C) Aplicação do Kambô; (D) Marcas na pele após a aplicação do Kambô. Fotos: Silva FVAD, Monteiro WM, Bernarde PS. (CC BY 4.0).

Dentre as crenças indígenas, acredita-se que caçadores ineficientes possam aumentar sua destreza e habilidade, que a resistência e imunidade possam ser fortalecidas e inclusive a vida sexual possa melhorar. Entretanto, a comunidade científica ainda não encontrou eficácia comprovada. Em experimentos realizados (citados por den Brave e seus colaboradores), observou-se que o Kambô não exercia efeitos notórios em pacientes que o ingeriram. Dessa forma, pode ser que a crença de fortalecimento da saúde e outros benefícios sejam apenas um engodo, um placebo.

Muitas substâncias encontradas

Mesmo assim, não podemos ignorar toda a gama de moléculas que existem nesse muco do Kambô. São conhecidos diversos peptídeos, como filoceruleína (neuropeptídeo hipotensivo), phyllomedusina (taquiquinina que excita neurônios, evoca respostas comportamentais, contrai músculos lisos e é um potente vasodilatador e secretagogo), filoquinina (induz relaxamento do músculo liso arterial visando receptores de bradicinina), dermorfinas e deltorfinas (que tem atividade semelhante a um opiáceo). De fato, há um estímulo fisiológico no corpo do indivíduo que utiliza desse ritual.  Entretanto, não há comprovação baseada em evidências de que essas respostas fisiológicas irão melhorar a saúde da pessoa.

As moléculas presentes no corpo do sapo, provavelmente, são usadas para deixar um predador atordoado, em caso de uma possível predação. Isso responderia todo mal estar causado a quem entra em contato com essas substâncias. Assim, torna-se importante conhecer as substâncias presentes nessa secreção do kambô e os efeitos que causam ao corpo humano. Futuras pesquisas podem encontrar princípios ativos que possam ser usados na indústria farmacêutica. Já existem catalogados cerca de 100 tipos diferentes de compostos químicos no seu muco e 70 já foram, inclusive, patenteados. Os princípios ativos com potencial farmacológico encontrados na epiderme dos anfíbios já são conhecidos há algum tempo. No entanto, a quantidade de informação ainda é ínfima perante as cerca de 1200 que já são catalogadas para o Brasil.

Como outra substância estimulante qualquer, pode ser que o Kambô leve a dependência de seu uso. Isso acontece com usuários de morfina, por exemplo, onde cada vez mais o usuário necessite de uma quantidade maior da substância. Isso já é relatado para usuários frequentes dessa prática, sendo mais um motivo para termos atenção ao seu uso indiscriminado.

Figura 2: A espécie Phyllomedusa bicolor, uma perereca encontrada nas florestas da Amazônia.
É preciso estudar para saber usar

Substâncias encontradas em outros animais que foram devidamente estudadas, salvam vidas. O Captopril, por exemplo, famoso remédio usado para controle da pressão arterial, foi desenvolvido a partir do estudo do veneno da jararaca (Bothrops jararaca). Ou seja, a nossa biodiversidade pode ter inúmeros princípios ativos que podem salvar vidas. Entretanto, é preciso que estudos controlados possam nos dizer qual a melhor forma de usá-los. Afinal, como diria aquele ditado popular: a diferença entre o remédio e o veneno pode ser apenas a dose.

REFERÊNCIAS

Bernarde PS; Santos RA. Utilização medicinal da secreção (“vacina-do-sapo”) do anfíbio kambô (Phyllomedusa bicolor) (Anura: Hylidae) por população não-indígena em Espigão do Oeste, Rondônia, Brasil. Biotemas, 2009.

den Brave PS; Bruins E; Bronkhorst MWGA. Phyllomedusa bicolor skin secretion and the Kambô ritual. Journal of Venomous Animals and Toxins including Tropical Diseases, 2014.

Erspamer V, Falconieri Erspamer G, Severini C, Potenza RL, Barra D, Mignogna G, Bianchi A. Pharmacological studies of ‘sapo’ from the frog Phyllomedusa bicolor skin: a drug used by the Peruvian Matses Indians in shamanic hunting practices. Toxicon, 1993.

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