Intercalar matérias melhora a aprendizagem

Para se valer dos benefícios da educação baseada em evidências, precisamos entender o que as pesquisas científicas têm mostrado como melhores estratégias para aprender. Dando sequência a série de posts aqui no Eureka sobre o assunto, eis mais uma dica que é fácil de implementar na sua rotina de estudos. E ela também faz a aprendizagem durar mais tempo: a prática de intercalar (misturar) matérias. Vocês já leram aqui sobre a prática de lembrar  e aqui sobre a prática de distribuir.  Agora discutiremos de uma prática não tão óbvia assim.

Pense em quando está estudando uma matéria, por exemplo, matemática. Quando você se depara com os exercícios de um determinado conteúdo, por exemplo, exercícios de soma. No início, enquanto está aprendendo o conteúdo, é legal resolver vários exercícios parecidos. Mas essa estratégia não deve ser mantida.

Já reparou que depois de tanta repetição, muitas vezes, você nem lê o problema, porque ele é muito parecido com o anterior? Ou seja, você não pensa em qual estratégia usar para resolver o problema. Repetindo o mesmo tipo de problema na sequência, você tem a sensação que dominou o conteúdo. Isso pode ser apenas um fenômeno conhecido como ilusão de competência, ou seja, a falsa crença de que se domina algo. Entretanto, já reparou que na prova, os exercícios de vários tópicos que aprendeu estão misturados e você precisa pensar qual estratégia deve usar para resolvê-lo?

Uma pesquisa resolveu testar se a forma intercalada poderia ter vantagens. Os cientistas observaram alunos que resolveram a mesma quantidade de exercícios durantes 3 meses de prática. Parte deles utilizaram a prática de forma concentrada (em blocos do mesmo assunto). A outra parte utilizou a forma intercalada, ou seja, faziam aleatoriamente exercícios de diferentes tipos (módulos).

Cerca de 5 dias depois dos estudos, os estudantes passaram por uma revisão com um exercício de cada tipo (módulo) e tiveram um teste surpresa ou 1 dia depois ou 30 dias depois dessa revisão.

Quando o teste surpresa foi realizado um dia depois da revisão, os alunos foram cerca de 16% melhores quando estudaram via prática intercalada do que quando praticaram cada tipo de exercício de forma concentrada. Já a longo-prazo, ou seja, quando o teste final foi 30 dias depois da revisão, os alunos foram cerca de 32% melhores! Ou seja, o efeito da prática intercalada é mais visível a longo-prazo, especialmente quando há provas cumulativas. Apesar das provas cumulativas não serem uma prática comum em todas as disciplinas e escolas, o objetivo da educação é que a informação adquirida permaneça por mais tempo possível. Assim, utilizar essa prática, pode fazer com que o aprendizado dure mais tempo!

 

Então, como estudar de forma intercalada?

Livros didáticos de matemática, por exemplo, contém séries de exercícios condensados de forma que exercícios parecidos (do mesmo módulo) estão em sequência. O ideal é, no momento do estudo, intercalar um exercício de uma lição com exercícios de outras lições. Desse modo, o aluno deverá refletir sobre qual estratégia escolher e do que se trata o exercício.

Outra dica é estudar conteúdos de matérias diferentes, e não condensar toda a matéria de uma disciplina no mesmo dia. Mas cuidado! Procure misturar conteúdos similares, pois as pesquisas mostram que quando os tópicos são muito distantes (ex. português e matemática), não há muito benefício dessa prática.

 

Por que a prática de intercalar funciona?

Já falamos anteriormente que aprender exige esforço. Não é algo que acontece em um piscar de olhos. Uma teoria que explica o motivo pelo qual esse efeito ocorre é a teoria das dificuldades desejáveis que afirma que algumas dificuldades são necessárias para que a aprendizagem dure.

Estudar o mesmo tópico em sequência “A, A, A; depois B, B, B; depois C, C, C” é mais fácil do que estudar misturado: “A, B, C; depois C, A, B; depois A, C, B”. Quando se estuda de forma intercalada, temos que constantemente pensar em qual estratégia usar para responder a questão e esse é possivelmente outro motivo pelo qual essa estratégia é melhor.

Muitos estudantes começam a usar a estratégia, mas durante a prática percebem que acertam mais respostas quando estudam os tópicos de forma concentrada. Entretanto, as pesquisas mostram que o desempenho no teste, quando o aluno é cobrado sobre os tópicos, é bem melhor do que quando se estuda misturando os tópicos.

Que tal tentar incorporar isso no seu dia-a-dia? Nos conte nos comentários o resultado do desempenho de vocês na prova! Bons estudos!

 

REFERÊNCIAS

Bjork RA. Memory and metamemory considerations in the training of human beings . Metacognition: Knowing about knowing. 1994.

Rohrer D. Interleaving helps students distinguish among similar concepts . Educational Psychology Review. 2012.

Rohrer D, Dedrick RF & Stershic S. Interleaved practice improves mathematics learning.  Journal of Educational Psychology. 2015.

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