O aprendizado de uma feira de ciências

Todos os anos, o mesmo ritual se repete: divisão de equipes, definição de tema, preparo do material e muito estudo para que, no dia marcado, a apresentação seja um sucesso. As Feiras de Ciências (também chamadas de Feiras do Conhecimento, Feiras Multidisciplinares ou Feiras Culturais) são eventos tradicionais em muitas escolas do Brasil. Seu início remonta à década de 1960. Era uma forma das escolas mostrarem para a comunidade sua educação científica. Além disso, apresentavam os trabalhos desenvolvidos pelos alunos.

Muitos alunos, e até mesmo os pais, vêem esses eventos como apenas mais um evento dentro tantos do calendário escolar. Outros estudantes inclusive reclamam bastante das feiras de ciências só dá trabalho.

Opiniões à parte, esses eventos não são simples trabalhos escolares, onde o aluno faz sua pesquisa, organiza tudo e apresenta. Uma feira de ciências bem feita coloca o aluno no lugar do cientista e, para ele, isso é maravilhoso. Digo isso não apenas no sentido de elevar o ego do estudante, mas sim elevar seu intelectual, seu conhecimento científico, sua capacidade de planejamento e organização.

A primeira mudança que esses eventos causam no aluno é a ampliação dos conhecimentos. Ao pesquisar sobre um assunto, o aluno descobrirá coisas novas. Os alunos aprofundam seus conhecimento neste assunto, estando preparados para responder possíveis perguntas dos visitantes. Esse tipo de atividade mobiliza muito o aluno: ele tem que pesquisar, levantar hipóteses, planejar como será apresentado; mais ou menos o trabalho de um cientista. Quando o aluno faz isso bem feito, fica evidente na apresentação de seu projeto: as respostas dadas são firmes, embasadas e o aluno demonstra confiança naquilo que fala. A dedicação na pesquisa promove um crescimento pessoal grandioso. O estudante mostra firmeza de argumentos e autoconfiança.

Esse crescimento pessoal também é refletido na capacidade de comunicação do aluno. A feira de ciências é um evento aberto para a comunidade. Isso pode causar temor, pois os estudantes terão que explicar para pessoas que não estão em seu convívio escolar. O compromisso do aluno em apresentar um trabalho bem feito o motiva a estudar. Além disso, o estudante também aprendem a se relacionar bem com sua equipe. Ele se dedica ao planejamento da apresentação e posterior comunicação com o público. Comunicar-se melhor ajuda não só a fazer um ótima explanação para os visitantes, mas em toda a sua vida escolar, pessoal e profissional.

E por falar em se relacionar bem com a equipe, um trabalho durante uma feira de ciências só será bem sucedido se os membros do grupo souberem ouvir uns aos outros, respeitar opiniões e chegar a uma decisão. Para isso o aluno deve amadurecer, desenvolver sua criticidade e adquirir novos hábitos. Quando o grupo está na mesma sintonia, não há desentendimentos por motivos insignificantes. Os membros sabem respeitar o outro, olhar suas limitações de tempo, por exemplo, e achar uma saída. O projeto é feito por um grupo. A análise crítica dos temas e do planejamento garante sua conclusão de forma prazerosa e criativa.

Alguns trabalhos apresentados na Feira de Ciências da Escola Estadual Padre João Neiva (MG) em 2017.

O compromisso e a responsabilidade que os estudantes desenvolvem realizando esse tipo de trabalho persiste durante toda a vida. Isso reflete em sua vida futura. Frederick Grinnell e sua equipe correlacionaram, em 2017, uma informação interessante: o compromisso em fazer um bom trabalho de feira de ciências garantia maior lisura em pesquisas científicas futuras.

Analisando o comportamento dos estudantes durante o Ensino Médio nos Estados Unidos e Canadá e comparando com o comportamento deles durante a graduação (ou pós-graduação), os pesquisadores perceberam que o número de fraudes em pesquisas era bem menor entre aqueles alunos que haviam participado seriamente de uma feira de ciências do que entre aqueles que não participavam.

As fraudes incluíam alteração de dados, reformulação de hipóteses após a finalização dos testes e outros tipos de péssima conduta científica. Ao vivenciar, ainda na escola, o método científico para elaborar seus trabalhos, os estudantes devem perceber que a ciência se faz com formulação de hipóteses, testes e muitas vezes os resultados não saem como se espera. E a partir daí, o bom cientista avalia o que pode ter dado errado, seja no teste ou na sua hipótese.

A boa conduta ética, seja na pesquisa em instituição de pesquisa ou em atividade escolar, mostra o quão humilde o cientista é, ao aceitar que o experimento não saiu como esperado e, a partir daí, trabalhar em cima dessa adversidade para aprender mais, descobrir porque o resultado foi aquele e, dessa forma, fazer mais ciência de qualidade.

E essa ciência deve sair da mente do pesquisador/estudante e ir para o mundo. As feiras de ciência são ótimas para a divulgação científica na comunidade. Pais de alunos e membros da comunidade escolar gostam de visitar esses eventos não apenas para dar apoio e ver o trabalho do filho, mas também para aprender. Se cada pessoa que sair de uma feira de ciências tenha aprendido algo novo, já valeu muito a pena todo o esforço.

 

REFERÊNCIAS

Albagli S. Divulgação científica: Informação científica para cidadania. Ciência da Informação. 1996.

Grinnell F. High School science fair and research integrity.  PLOS ONE 12(3), 2017.

Hartmann AM, Zimmermann E. Feira de ciências: a interdisciplinaridade e a contextualização em produções de estudantes de ensino médio. In: VII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências–ENPEC; Florianópolis: ABRAPEC, 2009.

Mezzari S, Frota PRO, Martins MC. Feiras multidisciplinares e o Ensino de ciências.  Revista Electrónica de Investigación y Docencia (REID), 2011.

Vasconcelos SD, Silva MF, Lima KEC. Uma experiência participante de acompanhamento de uma Feira de Ciências em uma escola pública da Zona Rural de Pernambuco.  In: VIII Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências (VIII ENPEC) & I Congresso Iberoamericano de Investigacion en Enseñanza de las Ciencias, UNICAMP–Campinas. 2011.

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