Exploração da Amazônia: desmatar para expandir?

A Amazônia brasileira tem um potencial econômico baseado na riqueza de seus recursos naturais. Contudo, sempre nos questionamos o seguinte: “até onde pode-se permitir a exploração?” Outros ainda podem pensar que recursos naturais, dentro de uma economia, podem ser pouco aproveitados, sendo necessária a expansão da agropecuária, atividade que realmente enriquece o país. Portanto, será que desmatar para expandir seria a melhor solução? O que é expansão econômica de fato? A quem essa expansão favorece? Esses questionamentos são importantes para justamente tomarmos uma posição em relação ao desmatamento da Amazônia ou de qualquer outro bioma.

Para começo de conversa, o que significa desmatar? De acordo com o Ministério do Meio Ambiente, desmatar significa degradar a vegetação nativa de um lugar, ou seja, destruir ou retirar as espécies vegetais que habitavam determinada região. Quando falamos de desmatamento, também precisamos entender a sua origem. Fearnside (2005) e Alencar e seus colaboradores (2004) relatam que até 1970 a Amazônia permanecia intacta. Contudo, a situação se modificou nessa mesma década. Isso aconteceu por que foram proporcionados incentivos fiscais que estimularam uma forte migração para a região. Em seguida, com o advento da agropecuária e com o avanço da exploração madeireira, o desmatamento se tornou ainda mais intensificado.

Em decorrência dos estudos realizados por Fearnside (2006), nota-se que os grandes fazendeiros e os pequenos agricultores são os maiores responsáveis pelo desmatamento na região amazônica. Muitos podem pensar: “Não há progresso sem desmatamento!”. Nesse caso, progresso de quem? Para se ter uma ideia, em Mato Grosso, as grandes plantações de soja estão tomando conta do Cerrado brasileiro. Já no Pará e em Rondônia, pequenos agricultores representamos maiores destruidores da floresta.

Políticas governamentais estimulam ainda mais esse processo de destruição descabida e desenfreada da nossa floresta. O simples fato de planejar melhorias em rodovias, que culminam com a abertura de mais áreas florestais, conduzem a um aumento do desmatamento. Além disso, o mero anúncio de melhorias na região leva a uma corrida especulativa da terra, onde os grileiros (agente que toma possa de terras indevidas através da falsificação de documentos) fazem a festa tentando se apoderar de terras que poderiam gerar riquezas futuras.

Entendem agora que o progresso prometido não é para todos?

Aliás, não há progresso, pois a agropecuária é pouco rentável na Amazônia e só persiste porque se beneficia de subsídios ou créditos do governo ou por causa de ganhos especulativos. Dessa maneira, imaginar que o progresso viria com o desmatamento é um grande engano. Não há expansão econômica com o desmatamento. Ninguém é favorecido com essa prática. Desmatar promove apenas mais problemas ambientais.

O trabalho desenvolvido por Soares-Filho e colaboradores (2005) mostra como o processo de desmatamento pode ser prejudicial. Seus estudos observaram que grandes mudanças na cobertura florestal têm importantes impactos quanto à perda da biodiversidade, além de contribuírem com o efeito estufa. Já em estudo desenvolvido por Fearnside (2006) revela que o desmatamento pode interferir no uso sustentável da floresta, incluindo a diminuição da produção de mercadorias por manejo florestal. Além disso, a ciclagem da água também fica comprometida, através da diminuição da evapotranspiração e alteração do regime de ventos da região, podendo ocasionar uma mudança climática regional.

Não podemos pensar que o desmatamento é necessário para um bem maior. Esse processo não promove lucro, já que fazendeiros, os que mais recebem incentivos fiscais do governo, não obtêm lucro com a agropecuária. Não podemos pensar em melhorias ambientais, pois perde-se também a biodiversidade da região.

O conhecimento científico sobre a floresta também será prejudicado, porque menos pesquisas serão desenvolvidas, menos recursos serão aproveitados da floresta.

O ambiente será ainda mais prejudicado, pois o clima poderá sofrer modificações, assim como o regime de chuvas.

E não podemos esquecer dos habitantes da floresta, aqueles que vão sentir diretamente os impactos do fim de seu habitat. A fauna e flora perderão locais de moradia, alimentação e parceiros para reprodução. Todo o ecossistema deixará de existir pela simples promessa de um “progresso” que nunca chegará.

Desmatar não beneficia ninguém e não promove a expansão econômica. Aliás, só propicia uma pior qualidade de vida. A sustentabilidade se mostra como a melhor solução: usufruir da natureza, mas com responsabilidade. Sabendo seus limites e tendo em mente que os recursos naturais são finitos. Assim, podemos conviver com a natureza sem destruir, sem degradar, de maneira pacífica e harmônica, buscando o equilíbrio.

 

REFERÊNCIAS

Alencar A, Nepstad D, McGrath D, et al. Desmatamento na Amazônia: indo além da “emergência crônica”. Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, 2004.

Fearnside PM. Desmatamento na Amazônia brasileira: história, índices e consequências. Megadiversidade, 2005.

Fearnside PM. Desmatamento na Amazônia: dinâmica, impactos e controle. Acta Amazonica, 2006.

Margulis S. Causas do Desmatamento da Amazônia Brasileira. Banco Mundial, 2003.

Soares-Filho BS, Nepstad DC, Curran L, et al. Cenários de desmatamento para a Amazônia – Dossiê Amazônia Brasileira II. Estudos Avançados, 2005.

Portal Brasil – Meio Ambiente. LINK: http://www.brasil.gov.br/meio-ambiente/2012/04/saiba-o-que-e-desmatamento-e-quem-o-monitora-no-brasil (acessado em 23/08/2017).

Facebook Comments
COMPARTILHAR:

Deixe uma resposta