Eureka Entrevista: Victor Del Vecchio conta sobre a seca e queimadas no Pantanal

Apesar das queimadas serem consideradas parte integrante de muitos ecossistemas, elas podem reduzir a quantidade de material combustível em áreas sujeitas a longos períodos de estiagem. Contudo, inúmeras notícias constatam o aumento das queimadas, principalmente no Pantanal, como vocês podem encontrar no texto O Pantanal arde em chamas,  publicado pelo Eureka Brasil.

Para acompanhar de perto as queimadas realizadas nesse bioma tão importante para nosso país, Victor Del Vecchio, colaborador do Eureka Brasil, viajou para o Pantanal e conta para a gente, nessa entrevista, o que ele viu de mais impressionante.

Conte-nos a respeito da sua experiência no Pantanal. Como surgiu essa ideia de cobrir as queimadas nesse bioma?

A ideia de cobrir as queimadas nesse ano surgiu, justamente, porque no passado esse evento chamou muita atenção e tivemos notícia de que agora, em 2021, o Pantanal atravessa a pior seca dos últimos 60 anos! Como sabemos, o combate ao fogo se faz, principalmente, com o uso de água e a escassez hídrica potencializa a ação do fogo, já que falta esse recurso para conter as chamas e deixa a vegetação mais seca. Então, esse fenômeno de seca juntamente com o fogo desidrata ainda mais a região, o que potencializa os incêndios. Por isso, a expectativa é de que os incêndios deste ano sejam muito intensos e, talvez, até mais danosos do que no passado!

A partir disso, surgiu essa ideia de vir aqui cobrir, noticiar e fazer essa informação circular para que isso permita não só uma maior conscientização da população sobre os danos, causas e tudo mais, mas também uma maior mobilização das instituições que atuam com a causa, sobretudo instituições do governo que, na avaliação geral, não tem se mobilizado suficientemente. O estado do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e, principalmente, o Governo Federal, atuam de maneira insuficiente, promovendo outras práticas que não são sustentáveis e vão contra a preservação do bioma e do meio ambiente de maneira geral, como foi o episódio de fomento às queimadas que rolou no ano passado. 

Felizmente, as queimadas ainda não começaram de maneira tão intensa quanto no passado. Isso acontece devido a vários fatores, inclusive devido a um processo de conscientização que, ainda de maneira muito tímida, tenha ocorrido e, também, porque a gente vê que os brigadistas desse ano estão muito mais treinados.

Existe uma mobilização tanto de órgãos que atuam com essa pauta de combate aos incêndios, como também agentes particulares, como fazendeiros, que estão abertos ao treinamento dos brigadistas, absorvendo essas instruções de como proceder em caso de incêndio e, até mesmo, evitando a ocorrência deles. 

O que você viu de mais impressionante? Como está a situação da fauna e flora após as queimadas?

O que mais tem chamado atenção esse ano é a seca. Isso é alarmante não só porque existe grandes áreas com vegetação totalmente desidratada, o que facilita muito a propagação do fogo, mas também a gente vê a fauna sofrendo muito. E são muito comuns os casos de animais, inclusive grandes mamíferos, que estão passando sede.

Os corixos, ou seja, os locais que são inundados em épocas de chuva e, posteriormente, desaguam em um rio maior, são fonte não só de água, mas, também, habitat de muitas espécies como pássaros e jacarés. Inclusive nós vimos jacarés secos no fundo de rios.

Além disso, os incêndios do ano passado, somados com a seca desse ano, têm reduzido muito a disponibilidade de alimentos. Então, a fauna como um todo está com menos disponibilidade de comida. Para ajudar, a gente observa que alguns centros fazem algumas ações de disponibilização de alimentos, o que é fundamental para ajudar os animais. 

Figura 1: reservatório seco e animais que morreram de sede. Foto de Gabriel Schlickmann.
Conte um pouco mais a respeito da campanha #PantanalAmeaçado. Qual o objetivo dessa campanha e quais os resultados?

O objetivo da campanha #PantanalAmeaçado é, justamente, levantar fundos para estarmos aqui produzindo conteúdo e propaganda para que as pessoas, em geral, saibam o que ocorre no Pantanal e, com isso, promover uma conscientização e maior cobrança das instituições, sobretudo governamentais, em torno da questão dos incêndios.

Não tem como a gente negar que as mudanças climáticas e toda essa ação sistêmica humana tem interferência na seca e na situação de queimadas que ocorre. 

Nós estamos vinculados com alguns grupos e isso tem sido possível graças ao nosso financiamento coletivo. As pessoas têm doado quantias que permitem que a gente possa estar aqui realizando esse trabalho, pois a estadia no Pantanal é muito cara.

A gente depende diretamente do circuito turístico disponível e são grandes distâncias percorridas, o gasto de combustível, estradas ruins. Em 10 dias foram 4 pneus furados, para vocês terem noção de como é. Tivemos que trocar o carro que a gente tinha alugado por um mais resistente e mais caro. 

Sem falar, claro, nos equipamentos. Como tem muita poeira e o calor do fogo e das cinzas, temos que ter um cuidado muito grande na produção de imagens, além de toda uma rotina de limpeza e tudo mais. 

Em seu perfil do Instagram, você divulgou o estudo do SESC Pantanal sobre o Manejo Integrado do Fogo (MIF). Ele já vem sendo aplicado junto a população local? Como eles receberam essa nova metodologia?

O MIF (Manejo Integrado do Fogo) ainda está em fase de estudos e não existem resultados conclusivos sobre ele. Existem, no entanto, e acho que é interessante pontuar, que ele é muito criticado por alguns ambientalistas, porque acreditam que o fogo nunca vai ser sustentável e ele sempre danifica o solo e o meio ambiente.

Mas, o que nós temos observado conversando com outras pessoas, inclusive ambientalistas e cientistas que atuam na pauta, é que o fogo é uma técnica muito enraizada na produção rural brasileira e que vai ser praticamente impossível conseguir abrir mão do seu uso. Criar mecanismos burocráticos para que sua ocorrência seja controlada e fiscalizar para que isso, de fato, seja cumprido não tem se mostrado efetivos. 

Por isso, o MIF é a aposta dos cientistas e do pessoal do Sesc Pantanal que tem investido nesse projeto. Eles querem não só entender as melhores práticas, mas difundi-las perante a comunidade, mostrando que é possível, sim, promover a limpeza de áreas com o fogo sem ter um grande dano ambiental, sem encurralar os animais, criando rotas de fuga para eles e criando formas desse fogo também não se alastrar para fora da área pretendida.

Isso é, portanto, a saída que tem se mostrado mais viável no momento, mas, como disse, ainda não existem estudos conclusivos. O projeto do Sesc Pantanal tem uma equipe empenhada de 40 cientistas e a tendência é que, ainda no próximo ano, a gente comece a ter alguns resultados mais conclusivos. 

Figura 2: araras procurando água. Foto de Gabriel Schlickman.
Para encerrar, que mensagem você deixa para os leitores do Eureka sobre essa vivência no Pantanal?

A mensagem final que eu gostaria de deixar é que, mesmo com toda essa seca e a destruição, estando na época que não é de inundações, a gente tem conseguido ver muita exuberância nesse bioma, com uma riqueza da biodiversidade e maior concentração de mamíferos por quilômetro quadrado do mundo. É realmente um lugar maravilhoso e, ao mesmo tempo, dá uma dor no coração quando vemos os animais sofrendo com todos esses desequilíbrios, com a seca e com a ação humana.

Então, a mensagem que eu dou é que a gente possa rever nossos comportamentos. E isso vai desde pensarmos como escolhemos nossos governantes até hábitos pequenos do nosso dia a dia de consumo, como saber a origem dos alimentos que a gente compra, se a cadeia produtiva deles é sustentável…

E, claro, entender que essas ações de recuperação feitas apresentam um resultado interessante. Ainda muito aquém do necessário, mas mostram que se a gente dá as condições apropriadas, a natureza consegue retomar a sua vida e, enfim, voltar a ser exuberante. Então, é urgente que a gente pare de destruí-la e dê as condições para que ela possa se recuperar. Até porque a nossa própria existência depende disso.

Minha última mensagem é que, para que tudo seja transmitido de maneira consistente, isso envolve muito estudo. Envolve também a gente estar aqui retratando isso, que só é possível graças ao apoio dos nossos financiadores que tem contribuído intensamente com doações. Nós precisamos de uma força para avançar nesse projeto, então deixo aqui também o link para que vocês possam contribuir.

Convido todo mundo para conhecer as nossas redes, onde a gente divulga mais conteúdo sobre o que está rolando por aqui. E uma forma de contribuir também é divulgando esse nosso trabalho, fazendo com que ele chegue mais longe e conscientizando mais pessoas sobre o assunto. 

Se você deseja ajudar financeiramente a campanha Pantanal Ameaçado, é só fazer uma doação no financiamento coletivo no Catarse nesse link.

Acompanhe o Victor e seus parceiros em suas redes sociais:

Instagram – @victordelvecchio

                       @g.slkn – Gabriel Schlickmann (fotógrafo)

Twitter – Leandro Barbosa (repórter ambientalista) @Barbosa_Leandro

* Crédito da imagem de capa: Gabriel Schlickman.

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