Esperança na cura da AIDS

A epidemia da AIDS apavorou a geração nos anos 80, levando ídolos como Freddie Mercury, Cazuza e Renato Russo. Hoje, uma nova geração negligencia a doença, levando a um crescimento do número de pessoas infectadas nos últimos anos. A novidade é que um grupo de pesquisadores do Reino Unido anunciaram o segundo caso no mundo de um paciente curado da AIDS. Mas se a doença já não assusta mais, por que esta notícia merece destaque?

O que e a AIDS?

A Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA, ou, em inglês, AIDS) é uma doença infecciosa causada pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Essa doença é transmissível por contato com sangue contaminado, como ato sexual sem preservativo e uso compartilhado de seringas. Foi descrita pela primeira vez em 1981. Na época, a ausência de tratamento chocou o mundo sendo a causa da morte de milhares de jovens ao redor do mundo.

A grande complicação do tratamento desta infecção ocorre porque o HIV infecta uma das principais células de defesa do nosso corpo: os linfócitos T auxiliares. A função destes linfócitos é produzir mediadores imunológicos (citocinas e quimiocinas) que estimulam a produção de anticorpos e a eliminação do agente invasor. Portanto, o indivíduo infectado fica vulnerável a infecções secundárias. A maioria dos casos de óbito acontece por causa dessas infecções oportunistas. São infecções que não causam problemas para uma pessoa saudável. Mas, por causa da deficiência imunológica, causam risco de vida em pacientes com o HIV.

E os tratamentos?

É verdade que o tratamento hoje é muito mais eficiente do que há poucas décadas. Famosos como o jogador de basquete americano Magic Johnson e o ator Charlie Sheen são exemplos de pessoas que levam uma vida normal como portadores do vírus.

Ainda sim, o tratamento é por toda a vida. E consiste em uma combinação de medicamentos antirretrovirais, que inibem a replicação do vírus e o enfraquecimento do sistema imunológico. É preciso evitar de todas as formas que o indivíduo infectado com o HIV adquira qualquer outra infecção!

Muitas pessoas infectadas não sabem que são portadoras do vírus por não apresentarem sintomas. Assim, acabam disseminando a doença por falta de informação. Os sintomas iniciais podem ser semelhantes a uma gripe: febre, mal-estar, dores de cabeça e no corpo. Não há, nesta fase inicial (também chamada de fase aguda), sintomas muito específicos.

A segunda fase é assintomática, e pode durar anos. Apesar da ausência de sintomas, o indivíduo continua disseminando o vírus. A maioria dos casos é diagnosticado em uma fase mais tardia. Nesta terceira fase, o número de linfócitos auxiliares já está baixo, o que ocasiona frequentes infecções. Aí vem a suspeita do AIDS, que pode ser confirmada com exame de sangue.

E eu ainda preciso me preocupar com a AIDS?

Sim, a AIDS continua sendo um gravíssimo problema de saúde pública!

Uma recente publicação do Ministério da Saúde no Brasil mostrou o crescimento assombroso da incidência de HIV no Brasil, especialmente entre jovens de 15 a 24 anos. Especialistas consideram esta uma nova epidemia de AIDS no Brasil.

Por isto, é de extrema importância que o poder público adote medidas eficazes de prevenção, especialmente entre os mais jovens. Como a relação sexual sem preservativos é a principal forma de contágio, é essencial que o tema seja abordado nas escolas e discutido de forma aberta com a população.

Uma pessoa que manteve relação sexual sem preservativos deve ser testada. Isto permite que o tratamento seja iniciado o quanto antes. E também previne que o doente continue transmitindo o vírus.

Neste caso, é importante lembrar que existe a chamada “janela imunológica”. É um período inicial (em geral, cerca de 30 dias), que não conseguimos detectar o vírus no organismo. Possivelmente porque a carga viral – ou seja, a quantidade de vírus no corpo – é pequena para ser quantificada pelas técnicas atuais. Por isto, recomenda-se que o teste seja repetido dentro de 30 dias. Neste período, é fundamental evitar novas exposições ao HIV.

E então, a AIDS tem cura?

A resposta, até o momento, é NÃO. No entanto, uma esperança surgiu nos últimos meses graças a um trabalho de um grupo inglês. Os autores reportaram a cura de um paciente que era portador do HIV desde 2003, e estava em tratamento com antirretrovirais desde 2012.

O “paciente de Londres” como vem sendo chamado, também era portador de uma neoplasia chamada linfoma de Hodgkin. Na doença, começam a ser produzidos na medula óssea linfócitos anormais. O tratamento consistiu em um transplante de medula óssea, na tentativa de substituir o tecido neoplásico por tecido saudável. Neste caso, o diferencial foi o doador. Foi selecionado um doador que tem uma alteração específica nos linfócitos T auxiliares: uma mutação no gene CCR5. Esse gene codifica um receptor presente na membrana das células-alvo do HIV. Na ausência dele, o vírus não consegue completar seu ciclo de vida.

Pessoas com mutação no gene CCR5 são resistentes a maioria dos vírus do HIV em circulação atualmente. Porém, essas pessoas são uma minoria na população geral.

O “paciente de Londres ainda ficou em terapia antirretroviral por 16 meses, e há 3 meses interrompeu o tratamento. Ele está “livre de vírus” há 19 meses. Segundo o autor principal do estudo, dr. Ravindra Gupta, ainda é cedo para usarmos a palavra “cura”. O paciente continuará sendo acompanhado por especialistas.

Antes deste, havia um único relato na literatura de um paciente curado da AIDS. E isso aconteceu há 12 anos atrás! Desde então, novas tentativas vêm sendo feitas, mas este feito só foi reproduzido recentemente. Por isto, este resultado foi recebido com tanto entusiasmo no meio médico. Mais uma evidência de que a AIDS poderá, num futuro próximo, ter cura!

REFERÊNCIA

Gupta RK, Abdul-jawad S, McCoy LE, et al. HIV-1 remission following CCR5Δ32/Δ32 haematopoietic stem-cell transplantation. Nature. 2019.

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