Entre memes e genes, a evolução está presente

A partir do início das redes sociais, a troca de informação se tornou muito mais democrática, rápida e independente. Cada pessoa tem autonomia de propagar suas ideias ao redor do globo em um estalar de dedos. Ou melhor, em uma digitada no teclado. Com isso a geração de conteúdo pessoal se tornou cada vez mais difundida. Isso abriu espaço para artistas, jornalistas, músicos e uma infinidade de pessoas divulgarem seu próprio trabalho (INCLUSIVE A GENTE!). Além disso, a internet permitiu a criação de um espaço virtual de lazer e entretenimento. Esse espaço consome horas diárias na vida de uma pessoa. Quem nunca se divertiu na internet ao ver aquela foto engraçada com uma legenda hilária? Ou um vídeo curto com uma situação inusitada que rapidamente se propaga? Nesse tempos de conectividade absoluta, os memes são a cara da geração atual!

É quase impossível você passar por uma roda de conversa ou ficar 30 minutos em uma rede social sem ver, ouvir ou ler algo relacionado a um meme. Alguns engraçados, outros de mal gosto e há aqueles que você até hoje não entendeu por que ele virou um meme; seja por não fazer muito sentido ou por não ser engraçado mesmo. E os brasileiros são medalha de ouro no assunto: tudo que produzimos aqui tem virado memes internacionais de sucesso. Enfim, hoje em dia tudo é meme!

Seria ótimo se discutir ciência, cultura e biodiversidade fosse tão corriqueiro quanto os memes. Ou os virais que enchem a timeline.  Ou os grupos de aplicativos de conversa! Imagina aquele grupo de família que ao invés de corrente de oração ou figuras com mensagens de bom dia ou boa noite, divulgasse os problemas das alterações climáticas? Ou falassem da importância de usar energia limpa? De economizar energia elétrica? Talvez algo sobre evitar desperdício? Ou ainda questionar as consequências do desmatamento?

Entretanto, a gente sabe que dificilmente iremos convencer aquela tia a não mandar mais GIF’s de bom dia ou aquele tio a interromper a enxurrada de piadas já manjadas e sem graça. Os memes também estão lá, nos fazendo lembrar que gastamos milhares de megabytes diários – caros e de má qualidade – da nossa famigerada internet móvel. E você, sabe de onde surgiram os memes? Ou melhor: você sabe de onde vem essa palavra, MEME? O que ela tem a ver com ciência ou biodiversidade?

De certa forma, estamos no lugar certo para falar de memes. Isso mesmo! Você não leu errado. Meme tem tudo a ver com ciência. Se você não acredita, continue lendo nossa coluna.

A boa coisa sobre a Ciência é que ela é verdadeira. Acredite você ou não.

Tudo começou com um cientista britânico. O etólogo e biólogo evolutivo Richard Dawkins, da Universidade de Oxford, também é autor de vários livros de divulgação científica. Em um dos seus mais famosos livros, O Gene Egoísta, ele trata sobre a questão da evolução. Também fala sobre a herança de caracteres e sobre como a seleção ocorre no nível dos genes e não do organismo ou espécie. Em uma linguagem bem simples, ele expõe e leva o leitor ao questionamento de diversos tópicos sobre como a vida é moldada em função das forças evolutivas e da seleção natural.

No último capítulo do livro, ele trata sobre outras características que, embora não sejam herdadas geneticamente, tem grande influência sobre um indivíduo e sobre sua descendência: a cultura!

E é sobre a transmissão de cultura de um ser para outro que ele criou essa nova palavra: MEME. A palavra meme vem do grego mimeme, que significa imitação. A palavra foi abreviada para meme para soar foneticamente similar a gene. Basicamente é a imitação de uma ideia por outro ser, pulando de cérebro para cérebro. Segundo o próprio autor: “um meme de ideia pode ser definido como uma entidade capaz de ser transmitida de um cérebro para outro”.

Quando Dawkins escreveu sobre os memes pela primeira vez, certamente ele não pensava que seu neologismo seria aplicado também para piadas na internet, em forma de foto, sons e vídeos. Na verdade, sua intenção era dizer sobre como essas características não herdadas geneticamente são importantes no desenvolvimento de um ser.

Como você já deve ter observado, a cultura tem grande influência sobre a vida de uma pessoa. Ela está presente no café da manhã que ela come, nas frutas e legumes do almoço e nas bebidas do final do dia. Reflita sobre como dentro de um único país como o Brasil, onde todo mundo se parece tanto, ainda podemos observar costumes tão diversos em cada região: são comidas, costumes, danças, gírias e expressões usadas no cotidiano. Inevitavelmente, são hábitos encontrados em avós, pais e filhos, passados de geração em geração, assim como é possível observar na herança genética.

Muitos pássaros, por exemplo, embora tenha um canto característico da espécie, podem apresentar “sotaques” que são aprendidos com os indivíduos que vivem mais proximamente. Algo bem similar como o que acontece nos nossos sotaques, não é mesmo? Embora essas diferenças entre similaridades e diferenças do canto desses pássaros não sejam estabelecidas geneticamente, elas são herdadas de acordo com o contexto espacial que o indivíduo vive, assim como nossos aspectos culturais. Alguns comportamentos em primatas, também parecem seguir essa mesma linha, sendo aprendidos de acordo com o grupo que o animal vive, sem que haja uma “memória genética” desse ato. Essa condição seria a transmissão cultural de um ato ou comportamento.

Essas heranças culturais, como já foi dito anteriormente, são fortemente moldadas pelo contexto em que estamos inseridos e assim como os genes, os memes também podem evoluir a partir de mudanças durante o processo de herança entre as gerações. A nossa linguagem é um exemplo claro disso.

Imaginem como seria se Machado de Assis ou Tomás Antônio Gonzaga desembarcasse direto de uma máquina do tempo nos dias atuais? Será que eles entenderiam se alguém perguntasse “qual é a boa de hoje” ou “já lacrou alguma vez na vida”? Embora a língua portuguesa seja comum a todos nós, a linguagem usada desde os séculos passados sofreu muitas mudanças até os dias atuais.

Isso também acontece com os genes que inevitavelmente sofrem mutações ao longo de milhares ou milhões de anos. A grande diferença é que enquanto os genes demoram muito tempo para produzir mudanças significativas na população, os memes sofrem mutações quase que instantâneas. A moda é um bom parâmetro para exemplificar. Imagine como os cortes de cabelo estilo mullet da década de 80, ou as charmosas e úteis pochetes, tem pouco valor adaptativo em 2017. Certamente, a capacidade de repassar essa informação para as próximas gerações é bem próxima de zero, como um gene que confere desvantagens na sobrevivência de um organismo.

A forma como uma ideia, ou meme, é transmitida varia muito, bem diferente dos genes, que basicamente são transmitidos através do conteúdo genético contido nas células. As ideias são repassadas pela moda, de forma escrita, oralmente, pela música, nas artes e até mesmo na religião. Assim como nos genes, há a necessidade de longevidade, fecundidade e fidelidade de cópia para alcançar o sucesso da proliferação da informação. Quanto mais tempo durar, mais organismos “adotarem” e mais próximo da ideia original for, mais sucesso um meme terá. Afinal, ele será lembrado por uma quantidade maior de pessoas. Mas as “mutações” sofridas por um meme pode também ser um fator favorável, já que as inovações a partir do “estado ancestral” podem ajudar sua popularidade decadente a ganhar novos ares e consequentemente novos adeptos.

Assim como os genes, os memes não agem de forma intencional, por vontade própria, embora a seleção natural haja de forma a parecer que eles trabalham por sua própria sobrevivência. Da mesma forma que pensamos que um gene que favoreça a sobrevivência possa agir para que ele se perpetue na espécie, na verdade é sua sobrevivência diferenciada em relação aos demais que garante seu sucesso nas gerações seguintes. Assim como ocorre com as ideias.

E as semelhanças entre memes e genes não param por aí. Quando pensamos em genes, lembramos que muitos deles competem com seus alelos, os seus “pares”. Os alelos podem ser codominantes, dominantes e recessivos. Isso que dizer que os alelos “brigam” para ver quem vai ser o “mandachuva” na hora de construir o ser vivo.

E os memes? Ao invés de competir com seus pares, eles competem na verdade com um mundo todo de informações. Uma competição muito maior, com toda nova gama de informações que surgem a todo o momento. É difícil prever dessa forma quem irá sobreviver, ao longo das gerações, e se destacar frente aos demais.

Ufa! É muita informação contida em uma palavra tão simples como meme. Dificilmente você poderia imaginar que um simples meme de internet poderia ter toda uma teoria biológica por trás. A ciência sempre é fascinante e surpreendente. Ela está embutida até mesmo nas pequenas coisas da vida, mesmo que seja uma simples foto engraçada que se espalha pela internet!

 

REFERÊNCIAS

Baron, A. TED: What’s in a meme? 2016.

Dawkins, R. O gene egoísta. Companhia das Letras. Companhia das letras, São Paulo. 544 pp. 1976.

Marcus. TED: What Are Memes Really?  2017.

 

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