Edição gênica de bebês: o futuro chegou

Existe uma discussão ética e histórica sobre a possibilidade de edição gênica de bebês. Ou seja, de seres humanos escolherem os genes dos próprios bebês. Menino ou menina? Olhos azuis, verdes ou castanhos? Alto ou baixo? Tendência a ser mais magro ou mais gordo? E a cor dos cabelos? E a cor da pele? O que você escolheria? Enquanto algumas pessoas possam sentir calafrios e constrangimento com esse tópico, existe outro grupo de pessoas que acham a ideia excelente.

Há alguns anos já existe a possibilidade de se escolher, em uma inseminação artificial de fertilização in vitro (quando o embrião é cultivado primeiro no laboratório e depois colocado dentro do útero da mãe), o sexo do bebê. É possível também selecionar embriões com menor risco para o desenvolvimento de certas doenças genéticas, como tumores hereditários, por exemplo. E como seria poder então escolher diversas outras características físicas e, quem sabe, psicológicas do seu bebê? A ciência vem desenvolvendo ferramentas de edição gênica para alterar as características genéticas das pessoas. A técnica mais famosa atualmente é chamada de CRISPR/Cas9.

A edição gênica de bebês parece surreal e os desdobramentos éticos sobre o assunto são infinitos. Fatos históricos como a segunda Guerra Mundial, que trouxe à tona a apologia à Eugenia Nazista (àquela na qual acreditava-se em uma raça pura e superior), fazem com que a probabilidade de delineamento genético seja muito perigosa.

Por outro lado, pensem comigo! E se a edição gênica de bebês fosse utilizada para arrumar mutações (alterações no genoma) que podem causar doenças? E se fosse possível prevenir doenças genéticas ainda no embrião?

Isso é o que foi feito em 2017, pelo biólogo Shoukhrat Mitalipov e seu time. Os cientistas corrigiram um gene de um embrião que pode causar condições cardíacas fatais ao indivíduo. Para fazer isso os cientistas utilizaram a técnica CRISPR/Cas9. Essa técnica é, muito provavelmente, umas das maiores revoluções na área científica e da área médica das últimas décadas. CRISPR é a abreviação de Clustered Regulatory Interspaced Short Palindromic Repeats. Não vou nem tentar traduzir porque o importante é compreender como essa técnica funciona. Assim, você ficará por dentro de avanços médicos que estão por vir.

O sistema CRISPR utiliza pequenos pedaços de RNA bacteriano que são produzidos quando uma bactéria entra em contato com invasores para que essa bactéria se defenda. Esses pedaços podem reconhecer DNA exógeno de maneira muito específica e atuar como um guia para orientar a nuclease Cas (como a Cas9) a deletar aquele pedaço do DNA de um organismo invador. É um mecanismo de defesa. Ele foi originalmente encontrado no genoma da Escherichia coli pelo grupo de cientistas liderados por Atsuo Nakata, em 1987, na Universidade de Osaka no Japão.

No entanto, foi só em 2006 que outros cientistas propuseram a hipótese de que o CRISPR seria um sistema de defesa adaptativo primitivo. Esse sistema faz uso de RNA como memória de invasões anteriores (como se fossem os anticorpos que produzimos para nos defender de patógenos que já entraram em nosso corpo). A partir daí, a técnica passou a ser utilizada em biotecnologia para alterar o DNA de diversos seres vivos.

O que os cientistas começaram a fazer foi infectar essas bactérias com genes que interessam à ciência e à medicina. Isso foi feito com a finalidade de deletar genes específicos em modelos experimentais ou em seres humanos. Apos a infecção, a bactéria produz o RNA de referência contra aquele gene de interesse. Os pesquisadores, então, injetam esse RNA com a nucleasse Cas9 para deletar um gene específico.

O trabalho de Shoukhrat Mitalipov utilizou essa técnica para corrigir a mutação de uma proteína cardíaca chamada MYBPC3 (myosin binding protein C) em embriões humanos, antes de implantação na mãe. A mutação da proteína cardíaca causa cardiopatias quando o indivíduo já é adulto. Por não causar problemas durante a vida sexualmente ativa da população, essa mutação é passada para gerações seguintes, causando cardiopatias em muitas pessoas. Particularmente, a mutação MYBPC3 é responsável por mais ou menos 40% dos problemas genéticos relacionadas às doenças do coração.

Você pode estar se perguntando se esses embriões foram implantados em mamães. Não, os cientistas ainda precisam desvendar muitos detalhes sobre possíveis efeitos colaterais do processo, como mutações em outras regiões do DNA. Mesmo assim, o avanço científico é de altíssima importância. Isso porque aumentamos o conhecimento sobre a eficácia e segurança da técnica. E como mais de 10 mil outras doenças são causadas por mutações em um único gene, essa nova tecnologia permite que esse ajuste seja realizado no embrião, prevenindo que aquele indivíduo desenvolva tais doenças.

Ainda fica em mente os desdobramentos éticos da alteração gênica dos embriões. Esse assunto deve ser discutido e pensado por todos nós. A ciência deve avançar em prol da melhoria da qualidade de vida dos seres vivos. No entanto, não deve causar danos éticos à humanidade.

 

O que você pensa sobre isso?

 

REFERÊNCIAS

Ma H,     Marti-Gutierrez N, Park SW, Wu J, Lee Y, Suzuki K, Koski A,  Ji D, Hayama T, Ahmed R, Darby H, Dyken CV, Li Y, Kang E, Park AR, Kim D, Kim ST, Gong J, Gu Y, Xu X, Battaglia D, Krieg SA, Lee DM, Wu DH, Wolf DP, Heitner SB, Belmonte JCI, Amato P, Kim J, Kaul S, Mitalipov S. Correction of a pathogenic gene mutation in human embryos. Nature. 2017.

Ishino Y, Shinagawa H, Makino K, Amemura M, Nakata A. Nucleotide sequence of the iap gene, responsible for alkaline phosphatase isozyme conversion in Escherichia coli, and identification of the gene product. J Bacteriol. 1987.

Makarova KS, Nick V. A putative RNA-interference-based immune system in prokaryotes: computational analysis of the predicted enzymatic machinery, functional analogies with eukaryotic RNAi, and hypothetical mechanisms of action. Biology Direct. 2006.

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