É possível viver no espaço?

A ideia de viver no espaço já habita o imaginário humano há gerações. A curiosidade sobre o espaço e a possibilidade de viajarmos entre planetas instiga adultos e crianças. Depois do sucesso da missão Apollo 11 que, nas palavras do então presidente americano John F. Kennedy, “levou o homem a lua e os trouxe de volta em segurança”, em 1969, esse sonho antigo ficou um pouco mais próximo de, um dia, se tornar realidade.

Apesar de não terem sido realizadas novas missões tripuladas com o objetivo de se pousar na lua ou em outro planeta de nosso sistema solar, a NASA continua interessada em avaliar a possibilidade de sobrevivermos no espaço. Resultados preliminares de um longo estudo ainda em curso foram divulgados recentemente, na revista Nature. Um dos objetivos deste estudo foi avaliar como a exposição do corpo humano a radiação espacial por um longo período pode interferir e modificar o código genético – nossa sequência de DNA (em português: ácido desoxirribonucleico).

Para realizar o estudo, a agência americana recrutou dois astronautas: Scott Kelly e seu irmão gêmeo Mark. Por serem gêmeos idênticos, os irmãos têm exatamente a mesma sequência de DNA em cada uma de suas células; e podem ser considerados “clones naturais”. Os irmãos foram avaliados em relação a diversos parâmetros genéticos (e também funcionais, nutricionais e psicológicos) e, então, Scott foi enviado ao espaço, enquanto Mark permaneceu vivendo na Terra. No retorno de Scott, após quase um ano, os irmãos foram reavaliados quanto a esses mesmos parâmetros.

Antes de discutirmos os resultados, porém, precisamos entender como o DNA é encontrado dentro das nossas células.

O DNA está organizado em cromossomos, dentro do núcleo celular. Durante a divisão, o DNA se duplica e condensa, e fica preso a sua cópia pela região central, chamada de centrômero. No total, humanos possuem 23 pares de cromossomos (metade herdados de nosso pai e metade de nossa mãe). Cada um desses pares têm tamanho distintos e, a medida que envelhecemos, nossos cromossomos diminuem de tamanho. Essa redução acontece porque as extremidades dos cromossomos são formadas por sequências altamente repetitivas de DNA, chamadas telômeros. A enzima responsável pela duplicação do DNA (DNA polimerase) não é muito eficiente em copiar regiões assim. Então, a cada divisão, ocorre um encurtamento dos telômeros, que é associado ao envelhecimento normal, mas também ao surgimento de cânceres e menor capacidade de regeneração de tecidos e lesões.

Voltando aos resultados do estudo dos gêmeos, cientistas perceberam que a temporada no espaço fez com que os telômeros dos cromossomos de Scott ficassem maiores do que os de seu irmão, que ficou na Terra.  Esse resultado é exatamente o oposto do que se esperava, e desbanca a ideia proposta em filmes de ficção científica de que viver no espaço acelera o envelhecimento humano. Entretanto, logo que voltou a Terra, os telômeros de Scott voltaram ao tamanho que tinham antes da viagem, com uma velocidade relativamente rápida. Os cientistas ainda não conseguem explicar este achado, e um novo estudo com mais astronautas está em curso para se entender melhor o que significa esta alteração. Uma possibilidade é que a gravidade da Terra exerça um efeito sobre essas estruturas, mas ainda precisaremos aguardar por esta resposta.

Outro achado preliminar interessante foi quanto ao perfil de expressão gênica entre os irmãos. Esse perfil nos diz quais regiões do DNA (ou quais genes) estão sendo realmente “lidos” e traduzidos em proteínas; isto é, sendo expressos. Esse perfil muda constantemente nas pessoas, em função de fatores ambientais como mudanças na dieta, no padrão de sono, etc. Porém, em Scott, essas alterações parecem maiores do que o normal. Talvez seja um efeito da dieta no espaço, que é baseada apenas comida desidratada e congelada; ou da dificuldade em dormir flutuando no espaço; ou mesmo um efeito do estresse gerado pela missão…

Certamente, ainda há muito para se entender sobre esses resultados. E essas análises preliminares já nos mostram que as conclusões serão mais complexas do que esperávamos, e ainda trarão mais perguntas. Enquanto aguardamos os resultados mais conclusivos deste estudo, que estão previstos para ser divulgados ainda este ano, continuamos sonhando com todas as possibilidades… inclusive a de se viver no espaço.

 

REFERENCIAS:

https://www.nasa.gov/twins-study

Witze A.  Astronaut twin study hints at stress of space travel. Nature. 2017

Martínez P, Blasco MA. J Telomere-driven diseases and telomere-targeting therapies. Cell Biol. 2017

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