Diferenças cerebrais entre mulheres e homens: tamanho é documento?

Quais são as diferenças cerebrais? Homens tem cérebros maiores enquanto mulheres tem córtex mais grosso.

No dia 8 de maio de 2017 o site Motherboard, especializado em tecnologia, uma matéria sobre um memorando interno da Google, escrito por um de seus engenheiros de software. Nele, o funcionário de uma das maiores empresas do mundo afirmou que o baixo número de mulheres nos altos cargos de tecnologia não ocorre por sexismo. Na realidade o baixo número ocorreria por diferenças biológicas entre homens e mulheres. Segundo ele, “as habilidades de homens e mulheres são diferentes devido a causas biológicas, e que essas diferenças podem explicar porque não vemos uma representação igual de mulheres na tecnologia e em liderança“.

O memorando de mais de 10 páginas causou um alvoroço nas redes sociais. Isso levou a Google a se pronunciar oficialmente e demitir o funcionário.

Nesse período, muito foi dito sobre as diferenças biológicas e cerebrais nas redes sociais. É preciso ouvir o que a ciência tem a dizer sobre as diferenças cerebrais.

Há tempos que os cientistas tentam entender as diferenças entre homens e mulheres, tanto em seus aspectos comportamentais quanto fisiológicos. Contudo, além de polêmico, esses estudos são muito complexos de serem realizados. O maior desafio é conseguir separar o que é natural do que é normal. Ou seja, é difícil separar o que nos difere biologicamente do que é socialmente forjado.

Do ponto de vista fisiológico ou natural, um trabalho recente trouxe grandes avanços no entendimento sobre o tema.

Os pesquisadores colaboraram com o UK Biobank, um banco de acompanhamento da saúde de 500 mil participantes do Reino Unido. Foi analisado com ressonância magnética mais de 5000 cérebros (2750 mulheres e 2466 homens) com idades variando entre 44 e 77 anos. Eles examinaram 68 regiões cerebrais, investigando seus volumes, espessuras e conexões entre elas.

Os resultados revelaram que existem muito mais semelhanças que diferenças cerebrais entre homens e mulheres. Os homens apresentaram cérebros com volume ligeiramente maior que o das mulheres. Quando se considera o volume das regiões subcorticais, as diferenças se tornam ainda menores. Os homens apresentam 14 regiões com volume maior que as mulheres e elas, 10 regiões maiores que eles.

Ao se fazer a comparação por idade, entretanto, as mulheres apresentaram espessura cortical maior que a dos homens. Dentre essas regiões encontram-se:

  • o hipocampo (região que desempenha um importante papel na memória e na consciência espacial);
  • a amígdala (área associada ao processamento das emoções e memória);
  • e o tálamo (região fortemente ligada ao processamento e retransmissão de informações sensoriais para outras partes do cérebro).

Aqui é preciso ressaltar que estudos posteriores já haviam encontrado fortes correlações entre espessura do córtex com melhor desempenho em uma variedade de testes cognitivos e de inteligência geral. Entretanto, os homens apresentaram volumes maiores em todas as regiões subcorticais examinadas. Mais que isso, os cérebros masculinos eram muito mais variáveis entre si em volume do que os femininos.

De maneira geral, esses resultados não são novidade. Há décadas, que a ciência já sabia que os cérebros masculinos tendem a ser ligeiramente maiores do que os femininos. Contudo, esse trabalho foi o maior já realizado até o momento. Os estudos anteriores analisavam amostras relativamente pequenas, por volta de 100 cérebros, dificultando a possibilidade de conclusões mais gerais. Mais que isso, até esse estudo muito pouco se sabia sobre as diferenças nas subestruturas cerebrais. Portanto, esse estudo é um grande avanço para o entendimento dos cérebros masculino e feminino. Ótimo!

E o engenheiro da Google? Ele tem razão?

Tanto essa quanto outras pesquisas evidenciam que ele está completamente equivocado.

Primeiro, ainda que exista padrões diferentes associados aos sexos, os resultados mostram que há uma grande sobreposição no volume cerebral e na espessura cortical entre homens e mulheres. Isso significa que se você retirar, aleatoriamente, a imagem da ressonância de um dos cérebros estudados na pesquisa seria muito difícil dizer se ele era de um homem ou de uma mulher. Ou seja, os cérebros masculino e feminino são muito mais parecidos do que diferentes.

Segundo, e talvez o mais importante: embora essas diferenças cerebrais existam, elas não se traduzem em diferenças comportamentais e cognitivas, como a inteligência e liderança.

Pelo contrário, uma série de pesquisas com testes cognitivos, habilidades matemáticas e emocionais revelam que não existem diferenças entre homens e mulheres. Quando existem, é facilmente possível encontrar fatores sociais que as geram. Por exemplo, nos países onde mulheres têm posição de poder na esfera política e forte aceitação na sociedade, as meninas se saem melhor que os meninos nos testes de matemática…

É preciso mudar o senso-comum…

É preciso entender que o “senso comum” está repleto de supostos exemplos de diferenças entre os sexos. Exemplos podem ser encontrados em afirmações como: mulheres são mais emotivas que os homens, são mais aptas para ciências humanas, não conseguem liderar etc. Contudo, ao se olhar para as evidências científicas sobre diferenças comportamentais, apenas agressão física mais elevada nos homens foi confirmada.

Mais que isso, nenhuma pesquisa até hoje foi capaz de revelar as causas dessas diferenças. Os fatores ambientais e sociais, normais, desempenham um papel determinante nas formas de pensar e interagir uns com os outros.

Assim, pensar ou afirmar que existem diferenças cerebrais e biológicas entre homens e mulheres que podem justificar formas de agir e de se comportar não passa de uma mistura de analfabetismo científico com uma cultura machista. E é preciso, urgentemente, que ambos os males sejam combatidos.

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REFERÊNCIA

Ritchie SJ, Cox SR, Shen X, Lombardo MV, Reus LM, Alloza C, Harris MA, Alderson H, Hunter S, Neilson E, Liewald DCM, Auyeung B, Whalley HC, Lawrie SM, Gale CR, Bastin ME, McIntosh AM, Deary IJ. Sex Differences In The Adult Human Brain: Evidence From 5,216 UK Biobank Participants. Biorxiv beta. The Preprint Server for Biology. 2017.

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