Depois do desastre de Mariana

Em 5 de novembro de 2015, a barragem do Fundão, de propriedade da Sociedade Anônima Samarco Mineração S. A., localizada no município de Mariana, em Minas Gerais, foi alvo de um rompimento. Isto acarretou em uma erosão da barragem de Santarém. A erosão culminou com o derramamento de cerca de 50 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração no Vale do Rio Doce. Esse é o famoso desastre de Mariana.

A lama formadora do rejeito derramado era composta por minério de ferro.  Além disso, continha altos níveis de metais tóxicos e outros produtos químicos, atingindo diretamente 663 quilômetros de corpos hídricos. Ou seja, contaminando as águas dos rios da região. O impacto do desastre de Mariana foi tão grande que também afetou oceano Atlântico.

Para ficar mais claro, a lama que escorreu continha substâncias tóxicas. Essas substâncias contaminaram os rios, chegando inclusive no oceano, próximo ao Estado do Espírito Santo. Esse episódio foi o mais assustador de toda a história de contaminação ambiental existente no Brasil, e, segundo Belchior e Primo (2016), o maior desastre ambiental do país.

Muitas perguntas, na época, foram feitas para os administradores da empresa Samarco, questionando justamente como uma barragem poderia se romper e causar tanta destruição. No entanto, uma pergunta ainda precisa ser feita: O que aconteceu com o ambiente durante, e após, toda essa tragédia? Uma outra dúvida também é recorrente em nossas mentes: O ambiente contaminado com esses resíduos poderá ser recuperado?

Antes de tentar responder a essas questões, vamos começar do começo, ou seja, do desastre em si. As barragens foram criadas para receber os rejeitos provenientes do processo de extração de minério de ferro, as quais receberam o nome de Fundão e Santarém. O rompimento da barragem do Fundão conduziu a um escoamento e erosão de resíduos que se situavam na barragem de Santarém, provocando o desastre conhecido. Essas barragens operavam através do método do aterro hidráulico, onde os resíduos separados do ferro durante o processo de mineração eram escoados até as barragens por força gravitacional. Já a filtragem da água era realizada pela areia que ficava localizada estrategicamente na região frontal das bacias (barragens).

A hipótese mais provável da causa do rompimento das barragens foi o processo de liquefação. Esse fenômeno ocorre quando a areia depositada na parte frontal das barragens opera no sentido inverso à sua utilização, ou seja, ao invés de expelir a água, ela a retém, formando uma lama e deixando de filtrar os resíduos. Além disso, pequenos tremores (abalos sísmicos) foram registrados no dia do rompimento. Esses tremores foram de pequena magnitude, mas podem ter sido decisivos no rompimento da barragem. Por último, e não menos importante, houve um incremento na geração de minério de ferro. Com a elevação da produção e com o aumento do número de rejeitos, obras foram feitas para ampliar as barragens. Contudo, acredita-se que o acúmulo tenha sido superior à capacidade suportada pela barragem, ocasionando assim, o seu rompimento.

Agora que vocês já sabem como tudo ocorreu, vamos tentar responder as perguntas levantadas no começo do texto.

A primeira pergunta era: O que aconteceu com o ambiente durante e após toda a tragédia do desastre de Mariana?

A resposta não é lá muito animadora. O desastre resultou na morte de trabalhadores e moradores da região; na devastação de localidades (pequenos vilarejos ou regiões inteiras) que se situavam próximas às barragens; na destruição de 1469 hectares de vegetação, incluindo áreas de proteção ambiental; na mortandade da biodiversidade aquática e fauna terrestre; na interrupção do turismo; na alteração dos padrões de qualidade da água doce, salobra e salgada; na interrupção do abastecimento de água e na dificuldade de geração de energia pelas hidrelétricas atingidas. Ou seja, esse desastre interferiu e influenciou diretamente na queda da qualidade de vida e de saúde da população que saiu relativamente ilesa da destruição ocasionada pelo rompimento da barragem.

Já a segunda pergunta: O ambiente contaminado com esses resíduos poderá ser recuperado?

Também não tenho boas notícias.

De acordo com a empresa Samarco, os impactos provenientes do rompimento das barragens seriam mitigados através de três ações: ações humanitárias; água; meio ambiente.

1) as ações humanitárias consistiriam em medidas de apoio à população atingida. Isso seria feito por aluguel de casas, doação de cestas básicas, contratação de agentes de saúde para atuarem na prevenção de doenças, etc.

2) ações com respeito à água seriam através da distribuição de água potável. A empresa faria doação de água mineral, construção de adutoras, monitoramento e divulgação dos dados relativos à qualidade da água.

3) ações no meio ambiente. Nesse caso a empresa seria responsável pela limpeza e desobstrução de reservatórios. Também haveria o bloqueio de lagoas com barreiras para evitar que a água contaminada por rejeitos atingisse lagoas marginais. Ainda seria feito um resgate de peixes e crustáceos para a preservação das espécies. Contudo, as ações mitigadoras no meio ambiente foram pouco implementadas. Apenas 6 municípios dos 17 afetados receberam algum tipo de ação para remediar o desastre ocasionado.

E por que as ações ambientais não foram empregadas como deveriam?

Essa pergunta ainda é muito difícil de responder. As ações ambientais levam mais tempo para serem percebidas e precisam de maiores investimentos em tecnologia, o que tornam as despesas mais onerosas; além disso, muitas pesquisas precisam ser realizadas antes de se tomar qualquer medida. Em estudos realizados por Segura e colaboradores (2016), mostraram que a água presente nas casas deixadas pelos moradores das regiões atingidas continha baixos níveis de elementos químicos.

Além disso, amostras de água dos rios atingidos também mostraram baixos níveis de elementos químicos, como cádmio, cobre, cromo, entre outros. Apenas o ferro e o manganês apresentavam altos índices nas águas dos rios contaminados pela lama, elevando também o pH da água. Com relação aos organismos, o estudo apresentou resultados desanimadores. Amostras de solo apresentaram altos níveis de contaminação. Isso também prejudicava os animais alterando a conformação do DNA e levando-os à morte.

O trabalho de Bottino e colaboradores (2017) demonstrou que a contaminação afetou o crescimento das plantas. Houve um decréscimo da biomassa nas primeiras 48 horas. Contudo, as mesmas apresentaram um pequeno crescimento após esse período, constatando uma resistência adquirida com o processo de contaminação.

Ainda hoje…

Até hoje, o Rio Doce, altamente atingido pelo desastre, apresenta resíduos dos contaminantes. Os organismos que sobreviveram ainda precisam ser melhor estudados, para se ter uma ideia da extensão da contaminação ambiental e, se os mesmos estão apresentando resistência frente à contaminação. É evidente que o meio ambiente do Município de Mariana ainda sofre com os resquícios do desastre, e só o tempo e muitas pesquisas na região irão mostrar a profundidade do mesmo. Só o tempo será capaz de remediar e curar o Rio Doce.

 

REFERÊNCIAS

Belchior GPN e Primo DAS. A responsabilidade civil por dano ambiental e o caso Samarco: desafios à luz do paradigma da sociedade de risco e da complexidade ambiental. RJurFA7, 2016.

Bottino F, Milan JAM, Cunha-Santino MB, et al. Influence of the residue from na iron mining dam in the growth of two macrophyte species. Chemosphere, 2017.

Lopes LMN. O rompimento da barragem de Mariana e seus impactos socioambientais. Sinapse Múltipla, 2016.

Segura FR, Nunes EA, Paniz FP, et al. Potential risks of the residue from Samarco’s mine dam burst (Bento Rodrigues, Brazil). Envrion Pollut. Enviromental Pollution. 2016.

Viana JP. Os pescadores da bacia do Rio Doce: subsídios para a mitigação dos impactos socioambientais do desastre da Samarco em Mariana, Minas Gerais. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2016.

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