Depois de uma única sessão de exercício

Quantas vezes você já ouviu o conselho de que precisa praticar exercício físico? Talvez seja muito provável que você concorde com o fato de que a prática regular e moderada de exercícios físicos pode melhorar diversos aspectos da sua saúde.  Em alguns casos, também da sua aparência física. Isso porque existem um conjunto enorme de estudos científicos que demonstram a importância dos exercícios. Além disso, a ciência vem buscando entender como os exercícios aeróbicos (aqueles que te fazem transpirar) e anaeróbicos (aqueles de levantar peso) podem afetar o cérebro.

Resultados de diversos estudos sugerem que a atividade física pode reduzir o risco de diversas doenças neurológicas. Os exercícios também protegem o cérebro dos efeitos negativos do envelhecimento. Também existe um enorme interesse nos efeitos benéficos do exercício no humor, na memória, na atenção e na criatividade. Não há como negar que praticar exercícios pode melhorar a saúde.

O problema é que, ou pela falta de tempo ou pela preguiça, a maior dificuldade que enfrentamos é a de engajar em uma atividade física regular. As tentativas com início, porém, sem meio e fim, são inúmeras. No entanto, imaginem se mais ou menos uma hora de exercício físico já pudesse trazer alguns benefícios à sua saúde? É isso que muitos estudos vêm tentando entender. Como uma única sessão de exercício pode alterar nosso comportamento e nosso cérebro?

Metade do cérebro humano. Em vermelho descata-se o córtex pré-frontal.

Uma recente meta-análise (técnica de revisão sistemática de dados com o objetivo de integrar resultados de diferentes artigos científicos), elaborada pelas cientistas Dr. Julia Basso e Wendy Susuki, da Universidade de Nova York, concluiu que o exercício agudo aeróbico (mais ou menos 1 hora) tem um impacto positivo em algumas funções cognitivas. Essas funções são: atenção, tomada de decisão e alguns tipos de memória, funções essas associadas a atividade de uma região do cérebro chamada de córtex pré-frontal (essa parte vermelha marcada no cérebro da foto ali ao lado). Esse benefício é passageiro e persiste por somente 2 horas após o fim da prática de exercício. A sessão única de exercício também reduz o estresse por até 3 horas após a atividade, melhora os estados positivos do humor e diminui os estados negativos por até 2 dias depois da prática.

Um estudo em ratos realizado na Universidade Federal de São Paulo, sugere que o exercício agudo também pode induzir padrões de sono mais consolidados. Vale a pena ressaltar que o rato de laboratório tem um padrão de sono polifásico. Isso quer dizer que o rato dorme e acorda o tempo todo. Bem diferente de nós. É preciso testar a hipótese da melhora do sono nos seres humanos.

Mesmo sendo passageiros, os benefícios do exercício agudo podem ajudar a lidar com situações estressantes. Um estudo de 2017 mostrou que uma sessão de caminhada, ou corrida leve de 15 minutos, fez com que indivíduos reagissem melhor a um filme que induzia raiva e ansiedade em participantes que não fizeram o exercício. O benefício observado no grupo que praticou caminhada não foi observado nos participantes que fizeram 15 minutos de alongamento. O estudo do Dr. Loprinzi contou com pouquíssimos participantes (em torno de 9 por grupo). Por isso, a ciência terá que replicar e investigar ainda mais esse efeito. De qualquer maneira, vale a pena manter em mente que diferentes tipos de exercícios podem causar diferentes tipos de efeitos comportamentais.

Todas essas alterações de comportamento estão associadas às alterações da atividade de diversos neurotransmissores em diversas regiões do cérebro. O interessante é que as alterações da atividade cerebral e dos neurotransmissores persistem por somente 6 minutos a 2 horas após o exercício. Isso leva os cientistas a crer que outras alterações cerebrais possam ser responsáveis pelas mudanças de humor citadas no parágrafo anterior.

Outro ponto interessante é que o famoso aumento das endorfinas parece persistir somente por 30 minutos após um exercício mais longo: corrida de 2 horas. Os pesquisadores acreditam que esse aumento pode explicar o famoso ditado de que correr vicia. No estudo, o nível de excitação dos corredores era proporcional ao nível de endorfina em diversas regiões do córtex cerebral.

Todas essas novidades sobre os efeitos do exercício agudo são ótimas, não é mesmo? A questão é que os efeitos do exercício moderado e regular podem ser muito mais impactantes para a saúde. Então não desista dos seus planos em acrescentar no seu cronograma diário aqueles 30 minutos de exercícios físicos.

Além disso, mais estudos estão descobrindo que o efeito do exercício que você faz hoje podem até passar para os seus filhos amanhã. São as descobertas da epigenética, que será tópico de um próximo texto…

REFERÊNCIAS

Boecker H, Sprenger T, Spilker ME, Henriksen G, Koppenhoefer M, Wagener KJ, Valet M, Berthele A, Tolle TR. The Runner’s High: Opioidergic Mechanisms in the Human Brain. Cerebral Cortex. 2008.

Edwards MK, Rhodes RE, Loprinzi PD. A Randomized Control Intervention Investigating the Effects of Acute Exercise on Emotional Regulation. Am J Health Behav. 2017.

Basso JC, Suzuki WA. The Effects of Acute Exercise on Mood, Cognition, Neurophysiology, and Neurochemical Pathways: A Review . Brain Plasticity. 2017.

de Lima C, Arida RM, Andersen ML, Polesel DN, de Alvarenga TAF, Vancini RL, Matos G, Tufik S. Effects of acute physical exercise in the light phase of sleep in rats with temporal lobe epilepsy. Epilepsy Res. 2017.

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