Cordyceps e o apocalipse zumbi

O cinema, TV e HQs já mostraram as possibilidades de um futuro onde um vírus ataca a humanidade, transformando cadáveres em zumbis sanguinários sedentos por carne fresca. No entanto, o mundo real apresenta alguns seres vivos capazes de “controlar” a mente de outros organismos, utilizando os corpos para seus propósitos. Um deles, um simples fungo, pode ser um grande vilão para insetos das florestas tropicais do mundo todo. Curioso? Pegue sua pipoca e se prepare para essa história digna das maiores produções da cultura pop.

Inspiração para filmes

É mais um dia numa floresta tropical. Uma formiga operária sai de seu formigueiro para mais um dia de trabalho. Enquanto forrageia o solo, sem perceber, pequeninos esporos caem sobre seu corpo. Dentro desses esporos, aguarda o início de um apocalipse para toda aquela sociedade.

Os dias passam e a formiga começa a se sentir estranha. Ela sente uma vontade súbita de buscar locais altos, acima de onde suas irmãs moram. Por fim, ela deixa seu trabalho e sobe num ramo de alguma planta. Quando alcança uma certa altura, morde com todas as forças um galho, ou folha, morrendo logo em seguida. De repente, começa a emergir de seu corpo filamentos estranhos. Eles fazem parte de um fungo, o Cordyceps, responsável por mudar o comportamento da pobre formiga. 

Do alto do galho, saindo do cadáver daquela formiga que controlou, o fungo libera esporos, suas “sementinhas”, ao vento. Eles vão se espalhar para todas as direções, caindo sobre outras formigas, espalhando a infecção…

Figura 1: fungo Cordyceps sinensis emergindo de uma formiga.

A cena acima, que pode lembrar o início de um apocalipse zumbi, acontece diariamente em várias florestas de regiões tropicais e subtropicais úmidas. Nesses locais, principalmente nas florestas da Ásia, vivem fungos do gênero Cordyceps, famosos por serem entomopatogênicos, ou seja, parasitam insetos. Eles também parasitam outros artrópodes, como aranhas, sempre utilizando o mesmo método.

Por dentro do apocalipse zumbi

Tudo começa quando o futuro hospedeiro, o artrópode, entra em contato com os esporos do fungo. Essas estruturas são como se fossem sementes (mas não confunda, esporos e sementes são bem diferentes um do outro), dando origem a um novo fungo quando encontram um local com condições favoráveis.

Os esporos de Cordyceps, quando caem sobre o corpo de um artrópode, começa a se desenvolver rapidamente. Ele começa a produzir e liberar substâncias que fazem uma pequenina abertura no exoesqueleto do animal, por onde os filamentos do fungo vão entrar. Para se proteger da radiação solar, o esporo também produz substâncias que funcionam como um filtro solar. Ao encontrar condições favoráveis, em apenas algumas horas, o fungo inicia seu processo de germinação e invasão do corpo do pobre artrópode.

O fungo vai crescendo sem parar e seus filamentos ocupam espaços por todo o corpo de seu hospedeiro. Assim como todo parasita, ele vai absorvendo nutrientes e crescendo cada vez mais. Às vezes, o fungo fica meses dentro do artrópode. Então, quando as condições ambientais ficam favoráveis, o Cordyceps começa a pôr em prática a estratégia que chamou a atenção de cientistas do todo mundo: o controle “mental” de sua vítima.

Criando zumbis

O Cordyceps libera, incansavelmente, substâncias dentro do corpo do artrópode que está parasitando. Num dado momento, essas substâncias começam a alterar os gânglios nervosos de seu hospedeiro (os órgãos centrais do sistema nervoso dos artrópodes), controlando suas ações.

O hospedeiro do fungo deixa de fazer suas atividades diárias e busca por lugares altos. Eles sobem em ramos e galhos de vegetais, sempre num local bem ventilado. As substâncias produzidas pelo fungo são liberadas em maior quantidade e cada vez mais tóxicas, provocando, finalmente, a morte do animal. Muitas vezes, o artrópode morde no galho ou em alguma folha, ficando bem preso.

Após seu hospedeiro morrer, o fungo começa a crescer e, em alguns dias, emerge do cadáver do animal que o carregou por tanto tempo. O que sai é chamado de corpo de frutificação. Essa estrutura reprodutiva carrega os esporos do Cordyceps, aqueles pequenos grãos que guardam o início de um novo fungo. Do alto desse galho, o corpo de frutificação fica a espera do vento para espalhar seus esporos por aí, começando tudo novamente.

Estratégia antiga

Os fungos Cordyceps desenvolveram uma estratégia fenomenal para conseguir espalhar seus esporos pelo ambiente, ocupando grandes extensões. Subir em um local mais alto ajuda na dispersão dos esporos e o fungo, por si só, é incapaz disso. Portanto, desenvolver uma forma de controlar o comportamento de seu hospedeiro e induzi-lo a procurar os melhores locais para a dispersão dos esporos foi fundamental para que se espalhasse por praticamente todo o planeta, com exceção da Antártida e outros locais gelados.

Essa é uma estratégia antiga e mostra o quanto ela deu certo para esse grupo de fungos. Pesquisadores dos Estados Unidos e Alemanha encontraram fósseis de folhas com marcas de preensão de formigas que datam do período Eoceno (56-34 milhões de anos atrás) indicando que foram vítimas de fungos Cordyceps. No mesmo estudo, os cientistas citam o achado de talos de fungos da espécie Paleoophiocordyceps coccophagus emergindo de insetos conservados em âmbar datados do Cretáceo, há mais de 105 milhões de anos! 

Com a ausência de hospedeiros intermediários, o ciclo de vida das mais de 400 espécies de fungos Cordyceps mostram que elas são altamente virulentas, sempre levando seu hospedeiro a morte. A disseminação dele é tão intensa, que pode dizimar formigueiros inteiros. E, por isso, o Cordyceps é considerado um importante agente de controle populacional e mantenedor do equilíbrio ecológico das regiões onde vive. A medida que ele controla as populações de formigas, por exemplo, os recursos da região não são esgotados, reduzindo a competição e permitindo a sobrevivência de outras espécies.

Figura 2: o fungo Cordyceps sinensis.
E o ser humano?

Embora o jogo The Last of Us mostre como uma infecção por Cordyceps dá origem a vários humanos zumbis, na realidade, o fungo não faz isso. Como a espécie humana evoluiu num ambiente recheado de esporos de várias espécies de fungos, nosso sistema imunológico desenvolveu diversas estratégias para o combate desses invasores. O fato de sermos seres homeotérmicos, ou seja, apresentarmos temperatura corporal constante (o popular “seres de sangue quente”), ajuda no combate a essas infecções. A temperatura na faixa dos 36ºC permite que o sistema imunológico tenha uma boa resposta contra antígenos, ajudando no combate contra muitas infecções, como algumas daquelas causadas por fungos.

Mas, e as frieiras e outras micoses, como as de unha? Como essas regiões ficam nas extremidades do corpo, a temperatura tende a ser um pouco menor. E, por isso, é o bastante para algum fungo se desenvolver. 

Entretanto, não precisa perder noites de sono com medo de um apocalipse zumbi como o do jogo. O sistema nervoso humano é bem desenvolvido para resistir ao controle mental dos Cordyceps atuais e não há relatos de infecções desse fungo em nenhuma espécie de mamífero.

Cordyceps e a medicina

Os fungos Cordyceps podem ser o terror dos artrópodes, mas pesquisas mostram que eles podem ter potencial medicinal. Há muitos anos são utilizados na culinária e medicina tradicional asiática. No Nepal, atribui-se ao fungo a cura de diarreias, dor de cabeça, tosse, reumatismo, problemas no fígado e várias outras. A procura por ele é tão grande pelos povos da região que, em muitos lugares, houve redução das populações naturais do fungo.

Investigando o que existe de real nesse costume, pesquisadores indianos testaram uma substância encontrada nos Cordyceps, chamada Cordycepin (3’deoxiadenosina). Seus ensaios mostraram que a Cordycepin tem potencial ação nos sistemas hepático, renal, cardiovascular, respiratório, nervoso, sexual e imunológico. Além disso, possui atividades anticâncer, antioxidante, anti-inflamatória e antimicrobiana.

Outro aspecto da pesquisa com o Cordyceps é a participação de suas substâncias no metabolismo energético. Essa hipótese, segundo os autores da pesquisa, vem do caso de atletas chinesas que afirmaram ter usado extratos do fungo no Jogos Nacionais da China, em 1993, onde quebraram 9 recordes mundiais. Acredita-se que substâncias presentes no Cordyceps melhorem também a resistência física, tornando-o muito útil para idosos e atletas.

No entanto, não quer dizer que pode-se coletar esses fungos na natureza e usar sem nenhum cuidado. Nos testes, não foram encontradas substâncias tóxicas, mas foram relatados casos de comportamentos gastrointestinais adversos após o uso do Cordyceps, como boca seca, náusea, e diarreia. LEMBRE-SE: medicamentos apenas com prescrição médica!

As pesquisas continuam e se mostram promissoras. É mais um exemplo de como a biodiversidade pode guardar surpresas boas e soluções para diversos males da humanidade. Ótimo motivo para preservá-la, não acha?

Figura 3: o fungos Cordyceps é utilizado na medicina tradicional asiática.
REFERÊNCIAS

Andrade CFS. Epizootia natural causada por Cordyceps unilateralis (Hypocreales, Euascomycetes) em adultos de Camponutus sp. (Hymenoptera, Formicidae) na região de Manaus, Amazonas, Brasil. Acta Amazonica, 1980.

Freire FM. Aspectos taxonômicos de fungos entomopatógenos (Cordyceps s.l.) da Mata Atlântica catarinense. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Ciências Biológicas) – Florianópolis, UFSC, 2012.

Hughes DP, Wappler T, Labandeira C. Ancient death-grip leaf scars reveal ant–fungal parasitism. Biology Letters, 2011. 

Lopes RJ. Além de Darwin: evolução: o que sabemos sobre a história e o destino da vida. São Paulo: Globo, 2009.

Tulli HS, Sandhu SS, Sharma AK. Pharmacological and therapeutic potential of Cordyceps with special reference to Cordycepin. 3 Biotech, 2014.

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