Copa do Mundo: o que isso tem a ver com os animais?

O futebol é o esporte mais popular do mundo e a cada 4 anos ele paralisa as pessoas ao redor do mundo. Isso não é nenhuma novidade!

Também não é novidade a festa mobilizada em torno desse grandioso encontro de seleções de diversos países e seus maiores craques. Junto com o torneio esportivo, vem os álbuns de figurinhas, os churrascos celebrados entre amigos e familiares, as ruas enfeitadas e o tão aguardado Mascote Oficial! Eis que começa mais uma epopéia chamada Copa do Mundo de Futebol! Entre toda essa bicharada, vem a pergunta: o que os animais tem a ver com o futebol?

 

Quando surgiu esse “espírito animalnas copas?

Provavelmente as primeiras menções diretas de animais relacionados às Copas do Mundo veio com o surgimento dos mascotes. A primeira Copa a ter um mascote oficial foi a de 1966, um simpático leão chamado Willie. Na Copa de 1994 foi a vez do cachorro Strike, na França em 1998 veio o galo Footix, na Alemanha de 2006, novamente um leão chamado Goleo VI, na África em 2010 apareceu o leopardo Zakumi. Em 2014 veio o mais simpático, o tatu-bola brasileiro Fuleco. Nessa copa de 2018, a atração animal é o lobo Zabivaka. Normalmente, a escolha de um animal como mascote é a receita certa para atrair mais fãs, sobretudo as crianças. Além disso, traz boas cifras à FIFA pela venda de produtos licenciados.

 

Na Copa de 2014, poderíamos ter algo de bom apesar do 7X1…

Ok, o resultado foi o maior vexame que já passamos no futebol mundial. Talvez os problemas financeiros decorrentes das obras foram até maiores. Além dos escândalos de corrupção e obras inacabadas que nos envergonhou muito. Porém, o evento poderia ter gerado um saldo positivo. Poderia… O grande gol a favor do meio ambiente poderia ser justamente na Copa de 2014. Ao escolher o tatu-bola Fuleco para ser um mensageiro a favor do meio ambiente. Seu nome vem da junção de Futebol e Ecologia.

O nosso tatu-bola (Tolypeutes tricinctus) tem um comportamento interessante, que é se enrolar sobre o ventre quando se sente ameaçado. Vem daí seu nome popular. A espécie é considerada vulnerável à extinção. Isso está associado a uma distribuição fragmentada na Caatinga brasileira, que causa diminuição rápida do tamanho da população conhecida. Também existe uma forte pressão de caça e a perda de habitat natural. Ou seja, seu ambiente está sendo destruído.

A Caatinga, que já perdeu 53% do seu território original, sofre, nos remanescentes de sua área original, grande pressão de exploração humana. Esse bioma ainda é pouco conhecido frente aos demais biomas brasileiros, e também o menos protegido comparado aos demais.

Figura 1: Desenho do Tatu-Bola (Tolypeutes tricinctus).

Todos nós esperávamos que esse grande evento fosse a grande chance de ser uma goleada a favor do meio ambiente. Já que a atenção do mundo se voltou a esse tímido animal brasileiro, o ambiente que ele vive, e os problemas de conservação da espécie… Apesar do mascote ter uma mensagem ambientalista, nenhuma ação direta da FIFA ou do Governo Federal a favor da espécie ou do bioma onde ele ocorre foi executada concomitantemente com o torneio futebolístico.

 

O mascote da Copa da Rússia: o lobo europeu

O lobo encontrado na Rússia, corresponde a espécie Canis lupus lupus pode atingir quase um metro de altura, pesando cerca de 40 kg. Inspirado nesse animal, o mascote da copa de 2018 foi escolhido por meio de votação popular: daí surgiu o simpático lobo Zabivaka.

Figura 2: Lobo europeu, a inspiração para o mascote Zabivaka.

Os lobos convivem proximamente aos seres humanos há pelo menos 300 mil anos, segundo achados arqueológicos. E provavelmente a partir desse relacionamento próximo, pode ter acontecido seu processo de domesticação, e origem do cão doméstico, em torno de 30 a 15 mil anos antes do presente (saiba mais sobre esse tópico nas referências desse texto).

A espécie já sofreu declínios populacionais e algumas extinções locais, e atualmente tem se recuperado em alguns países. Apesar das pressões humanas nos ambientes naturais desse animal, caça ilegal, doenças, e perda de hábitat, a espécie não é considerada como ameaçada de extinção. Entretanto, não há relação direta da escolha do mascote e alguma mensagem ecológica. Aliás, a Rússia parece não ter muita preocupação com o bem-estar animal. Vale relembrar as matanças de cães para “limpar as ruas” durante as olimpíadas de inverno de Sochi, em 2014, que despertou a ira de agentes ambientais em todo o mundo (Veja mais nesses links  1 e 2). O grande medo é que esse fato voltasse a acontecer durante essa copa.

 

Os profetas da Copa
Figura 3: O famoso “profeta”: o polvo Paul.
Atualmente vivemos a onda dos animais profetas. Aqueles animais que teriam o “superpoder” de prever antecipadamente os resultados das partidas. Em 2010, surgiu talvez o mais famoso deles, o polvo Paul. Nessa copa, já surgiu a elefanta Zella, do zoológico de Stuttgart, na Alemanha. Também na Alemanha, terra do falecido polvo Paul, temos o tigre Fedor. Além desses já citados, já apareceu cachorro, peru, gato e até pinguim. Uma febre um tanto controversa pelo uso de animais com a função de entretenimento. Ressaltamos a importância de se estabelecer os limites éticos e legais para uso dos animais. Acredito que sua utilização deva ser restrita a atos onde a sua presença seja insubstituível e inevitável, em nome da ciência e o bem-estar comum. O que certamente não contempla seu uso em brincadeiras para entretenimento puro.
Futebol como mensageiro do meio ambiente

Com audiência estimada de cerca de até 1 bilhão de pessoas em final de um campeonato mundial, certamente uma mensagem transmitida através desse esporte poderia alcançar muitas pessoas e incentivar ações políticas mais concretas para a conservação do meio ambiente.

E essas ações precisam sair do papel. Lembram da abertura das Olimpíadas e as sementes plantadas pelos atletas que iriam compor a Floresta dos Atletas? Pois é, a ação não saiu do papel, e as mudas podem ser perdidas… Mais um 7×1 que tomamos …

Apesar de tudo isso, ainda somos apaixonados pelo futebol. Então, prepare a pipoca e ligue a TV para o próximo jogo! Divirtam-se, mas não se esqueçam que a natureza precisa também da nossa torcida! Marque um gol de placa a favor do meio ambiente: recolha seu lixo, separe os recicláveis, não solte rojões, e corra para o abraço!

 

REFERÊNCIAS

Lescureux N, Linnell JDC. Warring brothers: The complex interactions between wolves (Canis lupus) and dogs (Canis familiaris) in a conservation context. Biological Conservation. 2014.

Melo FP, Siqueira JA, Santos BA, Alvares-da-Silva O, Ceballos G, Bernard E. Football and Biodiversity Conservation: FIFA and Brazil Can Still Hit a Green Goal. Biotropica. 2014.

Randi E. Genetics and conservation of wolves Canis lupus in Europe. Mammal Review. 2011.

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