Contos sobre a ciência e a lua

A Lua certamente encantou sociedades antigas e ainda encanta a nossa. Ela é a base de alguns calendários, como o islâmico, e de muitos dos mitos presentes em nossa sociedade. Porém estas estórias, quando não bem amarradas em seus contextos, podem muito facilmente confundir ou nos conduzir ao erro na compreensão de muitos fenômenos naturais.

 

A influência da gravidade lunar

Não há dúvida de que a gravidade lunar influencia as marés oceânicas na Terra. A propósito, a gravidade do Sol também aumenta as marés, um pouco mais do que a metade do que a causada pela Lua.

Eventualmente pessoas usam o fato do efeito lunar nas marés para defender a ideia que ela provoca alterações fisiológicas no corpo humano. Essas ideia perpetua uma grande mal-entendido sobre como a gravidade funciona para gerar as marés.

A atração gravitacional depende basicamente de duas coisas: da massa e da distância. As marés são produzidas somente quando os dois objetos envolvidos são de tamanhos astronômicos, portanto muito maiores que um humano. Além disso, esse objetos dever estar astronomicamente próximos. A Lua está a aproximadamente 30 diâmetros da Terra longe do nosso planeta e possui aproximadamente 1/80 da massa da Terra. Portanto, a Lua ajuda a elevar as marés, que em média, são de alguns metros de altura nos oceanos fluidos.

Se os efeitos das marés fossem mensuráveis no corpo humano, o que não são, seriam da espessura de um pedaço de papel. Assim, enquanto a gravidade da Lua pode influenciar marés da Terra, seu efeito sobre o corpo humano é totalmente desprezível.

A propósito, muitas vezes ouvimos pessoas dizerem que hospitais relatam um aumento na taxa de natalidade em épocas do mês quando a Lua está cheia. Porém diversos estudos mostraram que essa correlação não existe! A figura abaixo, mostra a distribuição do número de nascimentos nos dias das principais fases da Lua (Nova, Crescente, Cheia e Minguante), bem como nos três dias anteriores (-3, -2 e -1) e nos três dias posteriores (+1, +2 e +3) a cada mudança. O estudo usou uma base de dados com 93124 datas de nascimento com 90% dos nascimento entre 1967 e 1983. Os restantes 10% nasceram entre 1930 e 1967.

Figura 1: Número de nascimento em função das fases lunares (Silveira FL, 2001).

 

Super Lua

Super Lua é o nome dado à Lua Cheia ou Nova quando o astro encontra-se no ponto mais próximo da Terra ao longo de sua órbita (perigeu). Como resultado, o tamanho da Lua, vista da Terra, é aparentemente maior. Super Lua, porém, não é um termo científico. O nome tem muito mais apelo por parte da cultura popular do que na comunidade da astronomia. O nome técnico para esse fenômeno é Lua de Perigeu-Sizígia.

A distância entre a Terra e a Lua varia a cada mês entre aproximadamente 357.000 km e 406.000 km devido à sua órbita elíptica. A Lua cheia no perigeu é visualmente maior. Cerca de 14% maior em diâmetro e com 30% de brilho a mais do que uma no seu ponto mais distante, o apogeu.

A distância entre a Terra e a Lua varia a cada mês entre aproximadamente 357.000 km e 406.000 km devido à sua órbita elíptica. A Lua cheia no perigeu é visualmente maior. Cerca de 14% maior em diâmetro e com 30% de brilho a mais do que uma no seu ponto mais distante, o apogeu.

 

A Lua Azul

A translação da Lua ao redor da terra dura aproximadamente 29 dias, 12 horas e 44 minutos. A posição que ela ocupa entre a Terra e o Sol determina suas fases que se repetem a cada ciclo. Eventualmente, devido à diferença entre nosso calendário e o ciclo lunar podemos ter a ocorrência de duas fases no mesmo mês. Lua azul é somente o nome dado a segunda Lua cheia em um mesmo mês. O termo não tem nada a ver com a coloração de nosso satélite natural! A Lua não fica azul!

 

 

Lua de Sangue

Durante a fase de Lua cheia, a Lua recebe luz do Sol que permite que nós consigamos observá-la no céu. Em um eclipse lunar a Lua cheia é ocultada pela sombra, deixando de receber luz diretamente do Sol. Mesmo sem iluminação solar direta, ainda é possível observar a Lua facilmente no céu. Isso acontece devido ao espalhamento de luz que acontece em nossa atmosfera.

Assim, observamos a Lua com uma coloração diferente, mais avermelhada, como resultado desses espalhamento. Esse fenômeno também pode fornecer uma coloração mais amarelada ou mais azulada à Lua. O espalhamento de luz é o fenômeno responsável também por outras tonalidades que o céu pode assumir ao longo do dia, ou mesmo pela nossa percepção sobre a cor do Sol. Sobre espalhamento há um texto aqui no Eureka Brasil com mais detalhes sobre o fenômeno físico.

Eventualmente temos fenômenos lunares como os citados, que acabam ganhando tons ricos em misticidade e esoterismo. No entanto, estes não são influentes nas vidas cotidianas ou mesmo responsáveis por suas tomadas de decisões. Algo que não pode ser esquecido é que estas datas são ótimas oportunidades para se chamar atenção para as ciências e a astronomia ou mesmo compartilhar ótimas histórias entre amigos.

 

REFERÊNCIAS

Otaola JA, Valdés-Galicia JF. Los rayos cósmicos: mensajeros de las estrellas. Cidade do México: Fondo de Cultura Económica. 1992.

Kelly IW, Rotton J, Culver R. The Moon Was Full and Nothing Happened, Skeptical Inquirer Volume 10.2, Winter 1985-86. 2016.

Silveira FL. A Lua e os bebês. Ciência Hoje, Rio de janeiro, v. 29, n.170, 2001.

Margot JL. No evidence of purported lunar effect on hospital admission rates or birth ratesNursing research. 2015.

Morton-Pradhan S, Bay RC, Coonrod DV. Birth rate and its correlation with the lunar cycle and specific atmospheric conditions. American Journal of Obstetrics and Gynecology. 2005.

Astropixel: Full Moon at Perigee (Super Moon): 2001 to 2100. acessado em 26/01/2018.

02Ocean service NOAA: What is a perigean spring tide? acessado 26/01/2018.

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