Como não estudar

Em um texto anterior fizemos um resumão de técnicas de estudo que a ciência aprova. Entretanto, precisamos falar de técnicas que não costumam promover uma aprendizagem de longa-duração. Por quê? Estudos mostram que a técnica mais utilizada e preferida pelos estudantes é reler o conteúdo que ele deve saber para as provas. Provavelmente você deve estar se perguntando: o que há de errado com isso? Eu sempre estudei assim, e estou hoje na graduação, ou pós-graduação…

Vamos refletir: Você já teve os famosos brancos na hora da prova? Ou então, já fez uma prova e dias depois não lembrava de quase nada do que estudou? Esses acontecimentos são muito comuns quando se estuda relendo o conteúdo quando comparado com o técnicas mais eficientes como a prática de lembrar (sim, ela de novo! Para quem não leu, o post está aqui).

Reler o conteúdo diversas vezes: por que não?

Imagine que você tem 3 horas para estudar para uma prova. Você normalmente estuda tentando colocar o máximo de informações “para dentro da cabeça”, por exemplo, relendo o conteúdo. Assim, terá visto 100% do conteúdo, certo? E se ao invés disso você estudar tentando “tirar a informação para fora da sua cabeça”? Ou seja, tente lembrar o que sabe sobre o conteúdo aprendido (técnica de praticar lembrar.

O fato é que os estudos científicos mostram que mesmo que você pratique lembrar parte da matéria, a longo-prazo, lembrará mais do se estivesse relido todo o conteúdo. Uma das explicações para isso é que a prática de lembrar fortalece o caminho para encontrar a informação, fazendo o traço de memória ficar mais forte.

Isso tudo não acontece quando você relê o conteúdo… Você pode até ir bem na prova, mas o conteúdo não durará tanto tempo quanto se você tivesse praticado lembrar!

Um ponto importante: quando você está tentando lembrar das informações, confira se acertou ou não, e veja o que esqueceu. Assim, com esse feedback, sua aprendizagem será melhor! Aí sim vale a pena reler aquilo que ainda não dominou e depois praticar lembrar a informação!

Grifar o conteúdo funciona?

Já vi diversos cadernos e apostilas de alunos todos coloridos, com grifos nas partes que os alunos acham que é importante (essa é a função de grifar ou sublinhar: selecionar aquilo que é importante). Essa estratégia não tão boa quanto se imagina. Qual o motivo? As pesquisas mostram que comumente os alunos têm dificuldade de selecionar aquilo que é relevante e acabam grifando coisas que não são tão importantes. Isso acontece principalmente com alunos menos experientes.

Esse é o mesmo problema dos resumos mal feitos: comumente os alunos copiam frases que acham que é importante do texto e não levantam os pontos importantes, elaborando-os e reescrevendo-os com nossas próprias palavras. Para que resumir seja uma boa técnica, é preciso treino.

Voltando a estratégia de grifar, de acordo com uma ampla revisão da literatura, cientistas da aprendizagem classificaram grifar o conteúdo como de baixa utilidade, pois só funciona com alunos experientes, que sabem de fato levantar aquilo que é relevante. Além disso, uma pesquisa mostrou que os alunos que grifaram elaboraram menos e fazem menos conexões do texto com o conteúdo que já sabem. Isso é ruim, especialmente pelo fato de que elaborar um conteúdo e tentar conectar a outros aumenta a probabilidade de lembrar do que aprendeu em um momento futuro.

Imagem mental

Essa técnica consiste em criar imagens mentais. Por exemplo, quando estamos aprendendo palavras em língua estrangeira, podemos associar a nova palavra com uma imagem mental. Assim, se aprendo que “mizu” é “água” em japonês, posso imaginar água associada à palavra. Entretanto, os estudos não revelaram melhora na recordação após o uso dessa técnica. E também há o inconveniente que nem sempre é fácil de criar uma imagem mental para conceitos complexos.

Para ver um resumo de quão efetivos são as técnicas de estudo que os autores revisaram (conteúdo disponível na língua inglesa), veja a tabela 1 do artigo sobre estratégias de estudos, clicando aqui.

Então como estudar?

Se você é novo aqui no Eureka, sugiro que confira os posts anteriores sobre como estudar baseado na Ciência da aprendizagem que foram os links que disponibilizamos no início desse post.

Bons estudos!

REFERÊNCIAS

Dunlosky J. Strengthening the student toolbox: Study strategies to boost learning. 2013.

Dunlosky J, Rawson K A, Marsh EJ, Nathan MJ & Willingham DT. Improving students’ learning with effective learning techniques: Promising directions from cognitive and educational psychology. Psychological Science in the Public Interest. 2013.

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