A ciência da Doença de Parkinson

Não há dúvidas que o cérebro é responsável pelos processos de memória, sentimentos e da organização das atividades motoras. Quando você caminha, nada ou toca um instrumento musical, o seu cérebro dispara atividade organizada que controla o seu corpo. Assim como todos os outros órgãos do nosso corpo, o cérebro também pode sofrer alterações que levam à doenças, desencadeando falhas nos processos motores e cognitivos. A doença de Parkinson é decorrente de uma dessas falhas no cérebro. O que será que a ciência da Doença de Parkinson pode nos informar?

Esta doença afeta 2-3% da população mundial com mais de 65 anos de idade e apesar de poder aparecem em indivíduos jovens, se inicia por volta dos 50 anos de vida na maioria dos casos. A Doença de Parkinson é a segunda doença neurodegenerativa mais comum observada nos seres humanos.

Figure 1: Molécula de Dopamina

Os cientistas já sabem muito bem onde ocorre a falha cerebral que promove a Doença de Parkinson. Essa falha ocorre em neurônios dopaminérgicos (que liberam a substância chamada de dopamina) presentes em uma região cerebral denominada de Substância Negra. Os pacientes com Doença de Parkinson apresentam muito menos neurônios dopaminérgicos que pessoas que não possuem a doença. Isso ocorre devido à morte dos neurônios. Além disso, os pacientes apresentam agregados de uma proteína chamada de α-sinucleína no cérebro.

Apesar dos cientistas saberem qual é a falha cerebral associada à Doença de Parkinson, eles ainda não sabem exatamente como e por que esses neurônios morrem em algumas pessoas e em outras não. Os sintomas da Doença de Parkinson só aparecem quando já houve morte significativa dos neurônios: pelo menos 80%. Isso dificulta o entendimento de como a doença se inicia.

Existem inúmeros estudos que mostram que causas genéticas e ambientais estão associadas ao desenvolvimento da Doença de Parkinson. Diversos fatores moleculares também estão envolvidos com a patologia da doença como: função da mitocôndria (organela associada a produção de energia na célula), estresse oxidativo, homeostase do cálcio, transporte no axônio do neurônios e neuroinflamação.

E o que toda essas alterações provocam no paciente? O diagnóstico clínico (aquele realizado pelo médico ao observar os sintomas) é embasado nas características motoras que a Doença de Parkinson causa. De maneira simplificada os sintomas motores englobam:

  • tremores das mãos ou membros quando eles estão em repouso;
  • dificuldade de iniciar movimentos;
  • rigidez muscular;
  • perda de equilíbrio;
  • movimentos lentos.

Com o avanço da doença pode se desenvolver sintomas que afetam a memória, humor, sono, etc.

Apesar da análise dos sintomas clínicos ser muito importante, estudos científicos a respeito de biomarcadores cerebrais da Doença de Parkinson. Técnicas de imagem cerebral como: tomografia, ressonância magnética tem ajudado a identificar a doença mais especificadamente (diagnóstico diferencial), mesmo em estágios iniciais. Esses métodos tem ajudado no prognóstico da doença e efetividade do tratamento.

Infelizmente, ainda não existe cura definitiva para essa doença. No entanto, existe um excelente arsenal de medicamentos para melhorar substancialmente os sintomas cognitivos e motores desencadeados pela Doença de Parkinson. Na sua maioria, os tratamentos estão associados à farmacologia de substituição para retomar os níveis de dopamina perdidos por causa da morte dos neurônios. A levodopa (L-DOPA) é o medicamento mais usado e é um precursor da dopamina. Sua eficácia é excelente, mas o uso prolongado desencadeia efeitos colaterais como o aparecimento de discinesias. As discinesias são movimentos involuntários repetitivos, como fazer caretas e piscar os olhos. Por isso, essa droga é mais utilizadas em pacientes acima de 65 anos.

Diversos outros medicamentos vão melhorar a atividade dopaminérgica por inibir a degradação da dopamina ou agir como agonista específico dos receptores da dopamina. A escolha de um ou outro medicamento deve ser realizada pelo médico e, na maioria dos casos, é necessário a tentativa de diferentes drogas para minimizar efeitos colaterais.

A boa notícia é que a ciência vem, rapidamente, desenvolvendo diversas possibilidades de tratamentos. Drogas que não afetam diretamente o sistema dopaminérgico já são realidade e podem tratar tanto os sintomas motores como os sintomas cognitivos. Pacientes em estágios avançados se beneficiam de tratamento com estimulação cerebral intracraniana. Ainda em fase de experimentação, existem tratamentos baseados em terapia gênica ou celular para recuperar os níveis de dopamina cerebrais. Mais recentemente, os cientistas estão considerando modular a agregação ou transporte da α-sinucleína como meio de tratamento da Doença de Parkinson.

O mais importante é que a ciência continue estudando melhores maneiras de diagnosticar e tratar essa doença. Quanto mais cedo diagnosticar e quão maior o arsenal de tratamento, melhor a vida de todo mundo.

Esse é só mais um dos motivos que faz ser tão importante o investimento em ciência.

Divulgue!

 

REFERÊNCIA

Poewe W, Seppi K, Tanner CM, Halliday, GM, Brundin P, Volkmann J, Schrag A, Lang AE. Parkinson disease. Nature Reviews Disease Primers. 2017.

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