Células-tronco embrionárias: entre o sucesso e a ética

No último post da minha coluna aqui no Eureka Brasil, vimos que diversos órgãos de um indivíduo adulto possuem células-tronco, responsáveis pela sua manutenção e restauração após uma lesão.

Hoje iniciaremos uma sequência de textos sobre um outro tipo de células-tronco. As células-tronco embrionárias! Estas células tem propriedades fantásticas. São capazes de gerar todos os mais de 200 tipos celulares especializados que existem em um ser humano!

Há 20 anos, a notícia de seu primeiro isolamento entrou para o hall dos grandes marcos da ciência biomédica! Curioso? Vamos saber o porquê.

 

Pra começar, alguns conceitos….

As células-tronco embrionárias surgem durante as primeiras etapas da formação do embrião, quando este se encontra em um estágio denominado “blastocisto”. Em humanos, esse estágio se inicia em torno do 5˚ dia pós-fertilização. Nesta fase, o embrião ainda está caminhando pelas trompas em direção ao útero. Estruturalmente, o blastocisto se assemelha a uma esfera oca, com um pequeno agregado de células em seu interior: a “massa celular interna”. É desta região que são isoladas as células-tronco embrionárias. Por terem potencial de gerar todas as células do novo organismo em formação, dizemos que estas células são pluripotentes.

Figura 1: Esquema ilustrando a estrutura de um embrião na fase de blastocisto.

 

Um pouco da história por trás do feito

Por que cientistas queriam isolar estas células?

As células-tronco embrionárias são exaltadas pelo seu potencial na medicina regenerativa. No entanto, esta não foi a única motivação dos cientistas que tentavam isolá-las e cultivá-las in vitro. Os cientistas buscavam, também, formas de estudar o desenvolvimento embrionário humano. A maior parte dos conhecimentos que temos sobre este tópico foram obtidos com animais, como os camundongos. No entanto, existem limitações no que podemos adotar como “semelhante” ao nosso desenvolvimento. Afinal, somos espécies diferentes! Nosso corpo é diferente, o tempo de gestação é diferente, para citar exemplos.

Os cientistas imaginavam que, tendo as células-tronco embrionárias em laboratório, seria possível estudar como estas células sabiam o quê fazer. Em outras palavras, como as células-tronco embrionárias sabem que devem gerar todo um novo organismo, com órgãos tão diversos! Por isso, muitos grupos ao redor do mundo concentravam seus esforços neste objetivo.

É claro que esta não era uma tarefa fácil. O maior problema não era isolar as células-tronco embrionárias do embrião. O problema era desvendar a fórmula apropriada para manter as células vivas, proliferando e, principalmente, mantendo sua característica mais importante: a pluripotência.

Após mais de 10 anos de trabalho, James A. Thomson e colaboradores, da Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, chegaram lá! A edição de 6 de Novembro de 1998 da revista Science publicou o artigo destes pesquisadores, reportando o isolamento e o estabelecimento in vitro das primeiras linhagens de células-tronco embrionárias humanas. Utilizando 14 embriões excedentes de procedimentos de fertilização in vitro, doados com consentimento de seus responsáveis, 5 linhagens foram obtidas.

Desde então, o campo de pesquisas em células-tronco e, em certa extensão, da biologia do desenvolvimento, se dividiu no tempo, em antes e depois. O porquê? Muitos. Vejamos:

  • O estudo demonstrava como cultivar as células-tronco embrionárias humanas, mantendo suas características.
  • Tornou possível estudar importantes mecanismos do desenvolvimento embrionário humano e, consequentemente, a gênese de uma infinidade de doenças genéticas e malformações.
  • Abriu caminhos para a utilização das células-tronco embrionárias para gerar microórgãos em laboratório, que seriam utilizados para desenvolvimento e teste de fármacos. Dessa forma, minimizaria-se a necessidade do uso de animais e as avaliações seriam mais fidedignas do contexto humano.
  • Impulsionou o campo da terapia celular e da bioengenharia de tecidos, gerando uma fonte de células-tronco, com infinitas possibilidades de aplicação.

Dessa forma, todo um campo de pesquisa, que não existia anteriormente, surgiu a partir desta descoberta.

Foi o florescer da era das células-tronco!

Vale ressaltar que o furor ocasionado pela publicação do trabalho de Thomson também estava relacionado a uma outra importante questão: o entendimento sobre os limites éticos da ciência!

 

Podemos usar embriões humanos para este fim?

O advento das células-tronco embrionárias ocorreu alguns anos após o êxito da clonagem de mamíferos. Como da ovelha Dolly em 1996. Desde então, nos colocávamos frente a uma difícil questão: qual o status moral de um embrião? Em outras palavras, teria o embrião, os mesmos direitos de um indivíduo?

A resposta para essa pergunta não existia antes e nem existe, até hoje. Alguns argumentam que sim, desde o momento da concepção. Já outros acham que nas fases iniciais, em que as estruturais neurais ainda não estão formadas, não.

Figura 2: Fotografia de embriões em fase inicial de desenvolvimento, obtida por microscopia.

O fato é que, à época do isolamento das células-tronco embrionárias, os Estados Unidos tinham leis que restringiam pesquisas científicas com embriões humanos e proibiam que investimentos federais fossem utilizados para custeá-las. O próprio Thomson teve que provar que nenhum recurso federal tinha sido utilizado na geração de suas linhagens.

No entanto, o apelo científico e de certos setores da sociedade – principalmente doentes esperançosos por novas terapias – foi bastante significativo em prol das pesquisas. Então, em 2001, o governo americano revisou a lei. Decidiu-se que seria permitido realizar pesquisas com as células-tronco embrionárias já existentes. Porém, novos embriões não poderiam ser usados para gerar novas células. Além disso, um montante de recursos federais também passou a ser destinado a estes estudos.

Assim, as pesquisas com células-tronco embrionárias progrediram e se multiplicaram. E mais: elas assentaram a base para um novo grande marco científico: a geração de células-tronco de pluripotência induzida, criadas em laboratório, sem a necessidade de embriões! Só que esta é uma história que vamos conhecer no próximo texto. Até lá!

 

REFERÊNCIAS

Thomson JA, Itskovitz-Eldor J, Shapiro SS, Waknitz MA, Swiergiel JJ, Marshall VS, Jones JM. Embryonic Stem Cell Lines Derived from Human Blastocysts. Science, 1998

De Miguel-Beriain I. The ethics of stem cells revisited. Advanced Drug Delivery Reviews, 2015

 

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