Célula tumoral circulante: boa ou má notícia?

Já pensou se conseguíssemos diagnosticar câncer em um simples exame de sangue? Grupos de pesquisa no Brasil e no mundo tem explorado o potencial das células tumorais circulantes como ferramenta para diagnóstico seguro, precoce e não invasivo. Além disso, essa ferramenta pode auxiliar a análise de prognóstico e de resposta a terapia.

Claro que ninguém acha que um diagnóstico de câncer é uma boa notícia. No entanto, o lado bom desta história é que as células tumorais circulantes podem diagnosticar tumores antes que eles se tornem grandes o suficientes para serem detectados em exames de imagem.

Tumores são formados por um aglomerado de células que se multiplicam indefinidamente. Antes de formar um tumor, essa célula era uma em bilhões que formam cada órgão, cada estrutura do nosso corpo. Ela, então, adquiriu característica únicas – ou hallmarks, e se tornou uma célula tumoral.

Dois exemplos desses hallmarks são a perda do controle da divisão celular e resistência a morte celular programada, que explicam o seu crescimento desordenado. Porém, muitas vezes, um tumor “grande” não é tão problemático. Há diversos exemplos de tumores benignos que formam massas enormes.

Dois outros hallmarks estão ligados a habilidade de um tumor de se disseminar. Um deles é a capacidade de estimular angiogênese, ou seja, a formação de novos vasos sanguíneos. O outro hallmark é a capacidade de se desprender do tecido de origem e invadir novos tecidos, formando novos pontos de crescimento tumoral (as temidas metástases).

Metástases surgem quando células de um tumor primário se desprendem dele e se alojam em um tecido distante. Em geral, essas células “viajam” pelo nosso corpo através da circulação. Essas células são chamadas de células tumorais circulantes e tem potencial de predizer resposta a tratamento, estágio da doença, além de serem consideradas uma ferramenta para diagnóstico precoce, através da biópsia líquida, que exclui a necessidade de uma biópsia invasiva, por exemplo.

A pesquisa atualmente se concentra em três vertentes:

  1. Aprimorar técnicas de isolamento das células tumorais circulantes

Apesar de estarem na circulação, células tumorais circulantes são raras. Enquanto existem milhões de células brancas de defesa – os leucócitos – por mL de sangue, as células tumorais circulantes não chegam a casa das dezenas.

As primeiras técnicas se baseiam em separação por tamanho (já que as células tumorais circulantes são maiores dos que os leucócitos). Atualmente, conseguimos separar as células tumorais circulantes de forma eficiente através de moléculas presentes na superfície dessas células, como a EpCAM (do inglês, molécula de adesão de célula epitelial).

  • Entender como as células tumorais circulantes se correlacionam com os tumores primários

Um dos primeiros trabalhos científicos a reportar associação de células tumorais circulantes com prognóstico foi um trabalho publicado no prestigiado New England Journal of Medicine, em 2004.  Os autores quantificaram células tumorais circulantes no sangue de 117 pacientes com câncer de mama metastático. Eles perceberam que pacientes que apresentavam mais de 5 células tumorais circulantes em 7,5 ml de sangue antes do tratamento tiveram uma sobrevida mais curta do que pacientes com menos de 5 células tumorais circulantes no mesmo volume de sangue.

Relação semelhante a foi descrita em diversos outros tipos tumorais. Mais recentemente, uma metanálise demonstrou que a detecção de células tumorais circulantes no momento de diagnóstico está associado a menor sobrevida em pacientes com câncer pancreático. A longa lista de tumores que podem se beneficiar do diagnóstico com células tumorais circulantes ainda inclui melanomas, câncer de próstata, intestino, esôfago, pulmão, cabeça e pescoço, entre outros.

  • Caracterização molecular das células tumorais circulantes

A terceira vertente consiste em caracterizar melhor essas células. Este trabalho é essencial para aprendermos sobre sua biologia e entendermos melhor sobre como o processo de metastatização acontece e como podemos evitá-lo.

REFERÊNCIAS

Stephenson D, Nahm C, Chua T, Gill A, Mittal A, Reuver P, Samra J. Circulating and disseminated tumor cells in pancreatic cancer and their role in patient prognosis: a systematic review and meta-analysis. Oncotarget 2018.

Chinen LTD, Abdallah EA, Braun AC, Flores BCTCP, Corassa M, Sanches SM, Fanelli MF. Circulating Tumor Cells as Cancer Biomarkers in the Clinic. Adv Exp Med Biol. 2017.

Williams SCP. Circulating Tumor Cells. PNAS 2013.

Hanahan D, Weinberg RA. Hallmarks of Cancer: The Next Generation. Cell 2011.

Massimo Cristofanilli M, Budd GT, Ellis MJ, Stopeck A, Matera J, Miller MC, Reuben JM, Doyle GV, Allard WJ, Terstappen LWMM, Hayes DF. Circulating Tumor Cells, Disease Progression, and Survival in Metastatic Breast Cancer. NEJM 2004.

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