Bioinvasão: o problema do transporte de espécies

A distribuição dos seres vivos na biosfera é limitada por barreiras físicas e climáticas que impedem a sua dispersão para outras regiões do planeta. Rios e montanhas são difíceis de atravessar para alguns seres vivos e isso limita sua área de ocorrência. Além disso, o clima de cada região do planeta atua como fator limitante na distribuição das espécies pelo globo. Por estarem adaptadas às características de seu habitat original, indivíduos podem morrer caso sejam transportados para um habitat completamente diferente do seu; é o caso de levar um urso para a savana africana. No entanto, alguns organismos conseguem se adaptar a essas mudanças de habitat, passando a viver normalmente nesses locais. Casos assim recebem a atenção de conservacionistas e autoridades de saúde, pois, nesses novos habitats, tais organismos são exóticos, possuindo potencial para se tornarem invasores e causarem inúmeros impactos ambientais, econômicos e na saúde da população. Isso se denomina bioinvasão.

Nem toda espécie exótica é invasora, já que a grande maioria não se estabelece nos locais nos quais foram introduzidas. Conceitualmente, espécie exótica é aquela encontrada fora de seu habitat natural, mas que não causa dano algum. Já a espécie exótica invasora é aquela que, ao chegar ao novo habitat, aumenta sua população e se dispersa pelo ambiente, estando plenamente estabelecida e interferindo na sobrevivência de outras espécies, causando impactos econômicos e de saúde.

O transporte desses organismos para o novo habitat ocorre por diversos meios, a maior parte por intermédio das ações humanas. Intencionalmente ou não, o ser humano transporta seres vivos desde que começou a migrar pelo mundo. Um dos principais transportes em massa de seres vivos ocorreu durante a época das grandes navegações, a partir do século XV. Europeus introduziram em suas colônias plantas cultivadas e animais domésticos a fim de terem alimento para quando retornassem e também para tornar o ambiente um pouco familiar. Bois e porcos na América e raposas na Austrália ilustram introduções de espécies feitas na Era dos Descobrimentos.

Atualmente, as introduções são realizadas, sobretudo, para fins comerciais ou econômicos, ou ainda por transporte acidental. Acredita-se que mais de 75% das espécies invasoras no Brasil foram introduzidas intencionalmente, com finalidade econômica ou comercial. Vindos para esse fim, e já espalhados pelo Brasil, estão o caramujo-gigante-africano (Achatina fulica), a rã-touro (Rana catesbeiana), o javali (Sus scrofa scrofa) e o búfalo (Bubalus bubalis).

Acidentalmente, um organismo pode ser transportado junto à água de lastro dos navios. Os tanques de lastro de um navio não preenchidos com água para manter a estabilidade da embarcação, balanceando sua massa. Em cada porto, navios enchem e esvaziam esses tanques com água de mar, levando junto uma variedade imensa de organismos marinhos. Atualmente, os navios modernos transportam cerca de 6 a 10 bilhões de toneladas de água por ano, através do globo e estima-se que 3000 espécies de plantas e animais sejam transportadas por dia. Um único navio cargueiro pode exceder 150.000 toneladas de água de lastro, transportando dezenas de milhares de espécies de bactérias, protistas, fungos, animais e vegetais.

Outra forma de transporte acidental são as sementes e esporos que aderem às roupas, pelos e penas; o capim gordura (Mellinis minutiflora) teria chegado ao Brasil junto à roupa dos escravos. Esses propágulos resistem longos períodos de tempo fora de um substrato e apresentam estruturas que permitem sua fixação junto aos animais; essas adaptações foram fundamentais para sua capacidade de dispersão junto a outros seres vivos.

Para se tornar invasora, a espécie exótica, depois de estabelecida no novo habitat, deve expandir sua área de ocorrência e, com isso, passa a gerar impactos que podem atingir o meio ambiente, a economia e a saúde. Essa expansão se inicia com seu estabelecimento e ausência de algum fator que limite seu espalhamento pelo ambiente. Com isso, indivíduos exóticos se reproduzem descontroladamente, ameaçando o ambiente.

Devido aos danos causados, as espécies exóticas invasoras são consideradas a segunda maior ameaça à biodiversidade – atrás apenas da destruição de habitats. Quando se instalam em um ambiente, elas passam a competir com as espécies nativas por recursos e saem vitoriosas. Dessa forma as espécies nativas são eliminadas da região, podendo ser extintas.

Com a extinção das espécies nativas, as espécies invasoras contribuem para um processo conhecido por homogeneização biótica. Esse processo caracteriza-se pela redução da diversidade biológica de uma região, existindo apenas uma biota muito semelhante entre si. A homogeneização biótica inicia-se com a extinção das espécies nativas pelas invasoras, restando apenas seres vivos muito semelhantes corporalmente, na maioria das vezes espécies exóticas.

Além do impacto ambiental, as espécies exóticas podem causar doenças ou serem vetores de patógenos. A maioria dos vermes, artrópodes, vírus, bactérias e outros microrganismos causadores ou transmissores de doenças são introduzidos, pois é extremamente fácil realizar o transporte desses seres vivos.

A bactéria causadora da cólera (Vibrio cholorae) teria se dispersado para várias partes do mundo através da água de lastro, já que a bactéria é resistente à água salgada e os primeiros casos da doença, na década de 1990, foram registrados na região de portos.

Dois insetos que transmitem diversas doenças no Brasil também teriam chegado de forma acidental. O barbeiro (Triatoma infestans), vetor da doença de Chagas, veio com imigrantes bolivianos para as lavouras de café e o Aedes aegypti, transmissor da dengue, febre amarela, zika e chikungunya, chegou da África junto com os navios negreiros. Quando chega a um local onde não ocorria, tal vetor (ou causador) de doença se espalha muito facilmente. Como a população não estava imune, as epidemias se iniciaram em várias cidades, colocando em risco a vida da população.

Outros invasores causam doenças em animais e plantas nativos ou domesticados, gerando o terceiro maior impacto das espécies exóticas invasoras: danos econômicos. As espécies invasoras podem se tornar pragas de lavouras, gerando graves prejuízos. A broca do café (Hypothenemus hampei) é um inseto originário da África que veio ao Brasil em sementes importadas. Esse besouro ataca os grãos de café em qualquer estágio de desenvolvimento do fruto. E  causa prejuízos por causa da perda de peso e mau aspecto do grão, além do sabor prejudicado.

Junto com o prejuízo das lavouras infestadas de pragas invasoras, a soma gasta no controle desses organismos é altíssima. Estima-se que as espécies exóticas invasoras causem prejuízos estimados, em média, de US$1,4 trilhão, em termos globais. Ou seja, não são apenas danos ambientais que a introdução de espécies causa, uma série de impactos posteriores também podem estar relacionados.

Para amenizar esse problema, a ciência mostra que existem métodos de controle dessas espécies. Esses métodos envolvem o controle populacional, a erradicação das espécies invasoras e a mitigação dos impactos que elas causam. Em muitos casos, certas espécies invadiram profundamente o ambiente, sendo difícil sua erradicação. Nesses casos, a única opção é mitigar os impactos e aprender a conviver com elas.

Não é uma situação tranquila. A saúde de todos os seres vivos são ameaçadas em casos de invasão de espécies exóticas. Por isso é essencial e urgente que as pessoas tenham cuidado ao viajar para não trazer, mesmo que sem querer, um ser vivo de longe. Aquela plantinha linda que você viu em uma caminhada na mata pode se tornar uma grande praga em sua região. Criações e cultivos de plantas exóticas também devem ser feitos com cuidado e com observação dos órgãos competentes, pois qualquer descuido pode dar início a uma invasão.

 

REFERÊNCIAS

Brasil. Ministério do Meio Ambiente. Espécies Exóticas Invasoras: Situação brasileira. Brasília, MMA. 2006.

Chame M. Espécies Exóticas Invasoras que afetam a saúde humana. Revista Ciência & Cultura,. 2009.

Gesisky J. Isso é uma invasão. Revista Terra da Gente. Campinas. 2004.

Lopes RM, Villac MC. Métodos. In: Ministério do Meio Ambiente. Informe sobre as Espécies Exóticas Invasoras Marinhas no Brasil. Brasília: MMA/SBF. 2009.

Matthews S. América do Sul Invadida: a crescente ameaça das espécies exóticas invasoras.

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