Aquecimento global e a atividade industrial

Recentemente, o presidente dos Estados Unidos Donald Trump anunciou a saída do país do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Ele disse que o atual documento trazia uma série de desvantagens aos Estados Unidos para beneficiar outros países. Assim, o país irá interromper a implementação de tudo o que for legalmente possível. Em discurso realizado em junho de 2017, o presidente anunciou que irá negociar para a realização de um novo acordo. O Acordo de Paris, assinado em dezembro de 2015, prevê que os países devem trabalhar para que o aquecimento global fique muito abaixo de 2ºC. Isso significa limitá-lo a 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais.

Depois do pronunciamento do presidente, muitos especialistas se manifestaram, principalmente criticando a iniciativa de Donald Trump. Contudo, por que esta decisão foi tão polêmica? Melhor dizendo, como esta decisão pode influenciar o aquecimento global?

Primeiro, deve-se entender o que é o aquecimento global. Para vários detalhes, você pode consultar esse outro texto do Eureka Brasil, “Mudanças climáticas: a chapa está esquentando”. Resumidamente, o aquecimento global está intimamente ligado ao efeito estufa. O efeito estufa é natural no planeta Terra. Ele possibilita a manutenção da temperatura numa média de 15ºC. Isso é ideal para o equilíbrio de grande parte das formas de vida em nosso planeta. No entanto, o efeito estufa pode ser intensificado com a queima de combustíveis fósseis. Quanto maiores forem as concentrações de gases do efeito estufa (GEE), menor seria a fração de radiação de ondas longas, emitidas pelo sol na superfície da Terra, que escaparia para o espaço. Consequentemente, mais alta a temperatura do planeta pode ser.

E o aquecimento global?

As ações decorrentes das atividades econômicas e industriais duplicaram a concentração de GEE. Um dos principais gases é o gás carbônico (CO2), cujas emissões no Brasil, provenientes da utilização de diversos tipos de combustíveis, cresceram vertiginosamente nos últimos 40 anos. No entanto, os países desenvolvidos são os que mais contribuem para o aumento da concentração de GEE. Além disso, esse aumento é  intensificado pela ação das indústrias, que lançam seus produtos e outros gases, como gás metano, óxido nitroso e óxidos de nitrogênio, na atmosfera.

Com o advento do desmatamento e das queimadas, o efeito estufa aumentou substancialmente. Isso leva ao aquecimento global de maneira mais acelerada. Em estudos desenvolvidos por Davidovits, em 1994, as indústrias de cimento de Portland apresentavam as maiores emissões de CO2 já constatados, maiores até que as mesmas indústrias situadas no Japão. De acordo com o estudo, para a produção de 1 tonelada de cimento eram necessários 0,55 toneladas de compostos contendo CO2. Esses compostos passavam por um processo de combustão, gerando 0,40 toneladas de CO2 que eram liberados na atmosfera.

Já Stern (2006) destaca que os riscos de um aumento do aquecimento global são mais sérios do que se pensava. Sua pesquisa ressalta que alguns impactos potenciais podem ser irreversíveis e acelerar o processo de aquecimento global. Um exemplo o derretimento do permafrost (solo permanentemente congelado), que poderia liberar grandes quantidades de metano. Esse simples acontecimento poderia levar a um aquecimento global muito maior do que as projeções atuais. E isso resultaria em temperaturas muito mais altas do que nos últimos 50 milhões de anos.

O que é preciso fazer?

Diante desses aspectos, os países desenvolvidos e em desenvolvimento, como os Estados Unidos e o Brasil se veem obrigados e pressionados a assumir compromissos voluntários de redução de GEE. Enquanto os países ainda lutam para conseguir conciliar a economia com os impactos ambientais, o aquecimento global toma corpo e começa a preocupar os líderes mundiais. Acredita-se que a alteração da concentração dos GEE poderá desencadear um aumento da temperatura média no planeta entre 1,4 e 5,8ºC nos próximos 100 anos.

Já os impactos econômicos, sociais e ambientais decorrentes do aquecimento global afetarão todos os países. O continente europeu pode sofrer com o desaparecimento das geleiras dos Alpes, impactando principalmente o turismo; com relação à América Latina pode ocorrer a diminuição da produção agrícola, o aumento de diversos vetores relacionados a doenças, e a extinção de plantas e animais.

Assim, podemos entender porque a saída dos Estados Unidos foi tão polêmica. Diante do exposto até o momento, a quebra do Acordo de Paris irá resultar em um aumento ainda maior da liberação dos GEE, podendo intensificar o fenômeno do aquecimento global.

Nos resta ainda uma pergunta:

Como os países podem auxiliar para a diminuição dos GEE? Para se ter uma ideia, nos Estados Unidos, as indústrias de ferro, vidro e de produtos químicos estão inseridas em programas cujo os principais objetivos são o aumento do uso de materiais recicláveis em suas fabricações. A famosa indústria de cimentos de Portland, mencionada nesse texto, ainda engatinha quando se refere à diminuição da emissão de CO2 para a atmosfera. Assim, você poderia pensar que a única saída para a indústria de cimento de Portland para reduzir o uso desses gases, seria a redução do consumo de cimento e a diminuição da atividade dessa indústria. Com a globalização, essa redução do consumo e da atividade iria afetar a economia do país como um todo.

Com isso, entramos em um beco sem saída! Na verdade, não!

A partir do protocolo de Quioto ficou claro que o mercado poderia auxiliar no processo de redução das emissões de GEE. Isso poderia ser feito pela criação de um valor transacionável para essas reduções. Desse modo foram estabelecidos mecanismos de flexibilização. Entre eles, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), o que consiste na proposta de que cada tonelada de CO2 deixada de ser emitida ou retirada da atmosfera por um país em desenvolvimento poderá ser negociada no mercado mundial. Isso cria um novo atrativo para a redução das emissões globais.

Contudo, as empresas que não conseguem ou não desejam reduzir suas emissões, poderão comprar Certificados de Emissões Reduzidas (CER) em países em desenvolvimento e usá-los para cumprir suas metas. Essa proposta visa, de maneira direta, reduzir as emissões em países em desenvolvimento, criando atrativos econômicos. De maneira indireta, os países desenvolvidos podem cumprir suas metas estabelecidas.

Essa proposta de flexibilização não é a solução definitiva para a questão do aquecimento global. Mesmo comprando CER, os países desenvolvidos ainda liberam GEE de maneira assustadora, sendo difícil os países em desenvolvimento reduzirem o CO2 proporcionalmente. Dessa maneira, necessita-se de uma ação conjunta. Reduzir ainda é a melhor maneira de preservar.

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REFERÊNCIAS

Davidovits J. Global warming impact on the cement and aggregates industries. World Resource Review, 1994.

Fearnside PM. Como o efeito estufa pode render dinheiro para o Brasil. Ciência Hoje, 1999.

Moura-Costa P. Breve história da evolução dos mercados de carbono. Silvicultura, 1998.

Molion LCB. Aquecimento global: uma visão crítica. Revista Brasileira de Climatologia, 2008.

Rocha MT. Aquecimento global e o mercado de carbono: uma aplicação do modelo CERT. Tese de Doutorado – Agronomia (USP), 2003.

Stern N. What is the economics of climate change? World Economics, 2006.

 

 

 

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2 comentários em “Aquecimento global e a atividade industrial

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