Cecílias, os anfíbios que se parecem com cobras

Você já ouviu falar de anfíbios que não tem patas e se parecem com cobras? Talvez você os conheça pelo nome de cobra-cega ou cecília. Pois é, apesar do nome, eles não são cobras e nem são cegos. As cecílias são anfíbios, parentes próximos dos sapos que você vê por aí. Cientistas brasileiros acabam de descobrir que esse tipo de animal tem uma peçonha e que pode intoxicar suas presas quando eles as mordem! Ficou curioso para saber mais? Continue lendo essa coluna!

Afinal de contas, o que é uma cobra-cega?

As cobras-cegas (ou cecílias) são anfíbios ápodes, ou seja, que não tem membros. Devido a essa aparência longilínea, serpentiforme, em muitos casos eles são confundidos com as serpentes verdadeiras. Eles são parentes próximos dos sapos, rãs e pererecas, e não tem nada a ver com os répteis.

As cecílias são facilmente encontradas na região tropical do planeta. Como costumam viver enterradas no solo, não a vemos facilmente rastejando por aí. É um dos grupos de vertebrados menos conhecidos que existem.

Também são raras as informações sobre a biologia e o comportamento desses animais, devido ao hábito discreto de viver. Eles costumam habitar solos úmidos, próximos de riachos, lagos e brejos. Algumas poucas espécies são aquáticas. Lembrem-se que os anfíbios precisam manter a pele úmida por conta da respiração cutânea, aquela que é realizada através da pele.

São conhecidas 214 espécies ao redor do mundo e só no Brasil são quase 40 espécies! Como todos os anfíbios, eles têm a pele úmida, possuindo várias glândulas. Isso é fundamental para manter a respiração cutânea. Além disso, apresentam um crânio forte que funciona como uma pá e ajuda a cavar o solo onde eles se enterram. Outra coisa curiosa desses animais é que, ao contrário de outros anfíbios, eles realizam fertilização interna. Para isso, eles contam com um órgão copulador, que fica na cloaca, chamado de falodeu.

A grande e extraordinária descoberta dos cientistas brasileiros

Os anfíbios, de uma forma geral, possuem na sua epiderme várias glândulas que produzem mucos e toxinas que ajudam na proteção contra predadores. Portanto, se um predador tentar comer um sapo, essa secreção irá causar danos ao agressor. Esses mecanismos diferem das serpentes, por exemplo, que podem injetar a toxina de suas glândulas nas presas através de dentes inoculadores. Assim, ao contrário das serpentes que atacam ativamente, a defesa dos anfíbios é passiva.

No entanto, um grupo de cientistas brasileiros, liderado pelo Dr. Pedro Mailho-Fontana e Dr. Carlos Jared, do Instituto Butantan, descobriu que além das glândulas presentes na pele, a cecília da espécie Siphonops annulatus também possui glândulas na base dos dentes. Essas glândulas produzem enzimas que são comumente encontradas em peçonhas de outros animais, como as serpentes. O mais interessante é que essas glândulas se originaram a partir do mesmo tecido embrionário que forma as glândulas de peçonha dos répteis. Apesar disso, as análises indicam que o surgimento dessa estrutura ocorreu de forma evolutivamente independente das serpentes, e muito antes na história evolutiva.

Figura 1 – Estrutura da maxila superior e inferior da espécie de cecília Siphonops annulatus. (A) A espécie S. annulatus. (B) mandíbula superior. (C) mandíbula inferior. (D) cabeça após corrosão parcial da pele, mostrando as glândulas relacionadas aos dentes, aprimoradas digitalmente em verde. (E) Seção da região labial superior mostrando as glândulas e os ductos glandulares. Setas pretas (linha do dente externo); seta branca (fila interna do dente); pontas de seta (cavidades que acomodam os dentes quando a boca está fechada). To = língua; S = pele; E = olho; Te = tentáculo; OE = epitélio oral. Fonte: Mailho-Fontana et al. 2020 (CC BY-NC-ND 4.0).
As novidades evolutivas das cecílias

O grupo das cecílias (os Gymnophiona)  surgiu há mais de 250 milhões de anos e possuem diversas diferenças em relação aos seus parentes mais próximos, os anuros (sapos, rãs e pererecas) e as salamandras. A mais marcante é o corpo alongado e a ausência de membros. Eles também têm uma mordida forte, o que facilita a alimentação que é constituída de invertebrados e pequenos vertebrados.

A grande novidade que o estudo dos cientistas brasileiros traz é modificar o paradigma do uso de toxinas de forma passiva pelos anfíbios para uma forma ativa. Isso ocorre através da inoculação da toxina nas presas, assim como fazem as serpentes. Entretanto, diferente da maioria das serpentes peçonhentas, os dentes dessa espécie de cecília não tem sulcos ou canais para facilitar a inoculação da toxina.

Essas descobertas são muito importantes para entender a evolução não só desse grupo de anfíbios como também das estruturas de produção e inoculação de peçonha dos répteis. Com esse estudo é possível sugerir que as cecílias foram pioneiras na capacidade de desenvolver estruturas de inocular ativamente toxinas através dos dentes, sendo um dos primeiros vertebrados a possuir tal sistema. No estudo dos cientistas brasileiros, outras espécies foram observadas e essas estruturas também estavam presentes.

Quais substâncias estão presentes na toxina das cecílias

Os pesquisadores encontraram enzimas que são similares às encontradas na peçonha das serpentes. Contudo, os estudos ainda estão no início e precisam entender melhor a composição dessas moléculas. 

Ao contrário das glândulas cutâneas dos outros anfíbios, essas glândulas da cecília associadas aos dentes não são envoltas por células mioepiteliais ou músculos compressores, como os que existem nas glândulas de peçonha das serpentes. Portanto, para o conteúdo dessas glândulas serem liberadas, a glândula precisa ser pressionada. E é exatamente isso que ocorre quando a cecília morde e segura a presa na boca. 

A glândula é comprimida, o conteúdo tóxico é liberado e a presa começa a sofrer a ação da toxina. Essas enzimas supostamente funcionam para ajudar a matar a presa e auxiliar na digestão dos tecidos, facilitando a deglutição do alimento.

Figura 2 – A cecília Siphonops annulatus alimentando-se de um rato recém-nascido. Observe a grande quantidade de secreção (seta) que se acumula ao redor da boca do anfíbio e na pele do rato no momento da mordida. Fonte: Mailho-Fontana et al. 2020 (CC BY-NC-ND 4.0).
As cecílias são mansas, raras e devem ser preservadas

Apesar dessas novas descobertas, não se preocupe. Esse é um animal manso, que não ataca seres humanos e sequer há relatos de que eles tenham causado perigo a vida de alguma pessoa. Não há nenhum caso de morte ou ferimento causados pelas cecílias. Esse e outros anfíbios estão seriamente ameaçados pelas mudanças climáticas e pela perda de hábitat naturais.

Portanto, vamos cuidar da nossa natureza e salvar as espécies que ainda restam no planeta. Eles ainda podem nos presentear com novas descobertas!

Referências

Mailho-Fontana PL et al. Morphological Evidence for an Oral Venom System in Caecilian Amphibians. iScience. 2020.

Jared C et al. Skin gland concentrations adapted to different evolutionary pressures in the head and posterior regions of the caecilian Siphonops annulatus. Scientific Reports. 2018.

Vitt LJ, Caldwell JP. Herpetology: an Introductory Biology of Amphibians and Reptiles. 4 ed. Amsterdam: Elsevier, 2014.

*Foto da capa por Carlos Jared/Instituto Butantan (CC-BY-NC-ND).

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