Agrotóxicos: nocivo ou útil para a agricultura?

O termo agrotóxico pode ser definido como “uma mistura de substâncias de natureza química destinadas a prevenir, destruir ou repelir, direta ou indiretamente, qualquer forma de agente patogênico ou de vida animal ou vegetal, que seja nociva às plantas e animais úteis, seus produtos e subprodutos e ao homem” (Peres et al, 2003). Ou seja, qualquer substância utilizada na agricultura para controlar agentes causadores de danos nas plantações é considerado um agrotóxico.

 

Desde quando utilizamos agrotóxicos?

O uso desses agentes químicos se iniciou em 1950, com a “Revolução Verde”, onde grandes modificações foram observadas no processo tradicional de agricultura.

Apesar dos agrotóxicos trazerem novas facilidades de controle de produção, essas facilidades não foram acompanhadas pela sociedade. A falta da implementação de programas de qualificação da força de trabalho, principalmente nos países em desenvolvimento, expôs as comunidades agrícolas a um conjunto de riscos originado pelo uso extensivo de um grande número de substâncias químicas perigosas.

Além disso, o processo de urbanização contribuiu de maneira significativa para o aumento do uso dos agentes químicos. Com a diminuição do percentual da população que residia em áreas rurais, um grupo menor de agricultores, geralmente despreparados e não-assistidos, tornaram-se responsáveis por uma produtividade cada vez mais elevada. Esse fato contribuiu consideravelmente para a utilização crescente de agrotóxicos e fertilizantes.

 

Quanto utilizamos de agrotóxicos atualmente?

Atualmente, estima-se que cerca de 2,5 a 3 milhões de toneladas de agrotóxicos são utilizados a cada ano na agricultura. Isso envolve cerca de 20 bilhões de dólares de gastos.

O Brasil é responsável pelo consumo de 50% da quantidade de agrotóxicos utilizados na América Latina. Ocupamos o quarto lugar no ranking dos países consumidores de agrotóxicos.

 

E os agrotóxicos fazem mal à saúde?

Em estudos desenvolvidos com a comunidade agrícola de Nova Friburgo no Rio de Janeiro mostrou que o uso intensivo de agrotóxicos pode causar problemas na saúde. De acordo com o estudo, o uso de um tipo de substância chamadas de organofosforados (OF), presente em agrotóxicos, está entre os principais responsáveis por casos de intoxicação aguda ou crônica. Além disso, a elevada exposição a essa substância não só pode colocar em risco a saúde dos produtores, como também pode afetar o meio ambiente e os consumidores.

Os principais danos causados pelos agrotóxicos são os neurológicos. Esses danos incluem déficits significativos de performance neurocomportamental e anormalidades no sistema nervoso. Alguns dos principais efeitos são: redução nos níveis da acetilcolinesterase (enzima responsável pela hidrólise da acetilcolina. Com o acúmulo da acetilcolina, os músculos podem se contrair involuntariamente, ou ocasionar paralisia); presença de cefaléia; vertigem; fadiga; distúrbios cognitivos (dificuldade de concentração, esquecimento, confusão mental); e distúrbios motores e neurossensoriais (fraqueza, tremores, formigamento, visão turva).

 

Os agrotóxicos também prejudicam o meio ambiente

Com relação ao meio ambiente, os agrotóxicos podem interferir de maneira direta de acordo com as características bióticas e abióticas do ambiente. Além disso, as propriedades físico-químicas dos agrotóxicos, assim como a frequência do uso, os métodos de aplicação e as condições meteorológicas (climáticas) podem determinar o destino dos pesticidas no ambiente. Essas condições variam de acordo com o produto e com os fatores relacionados à sua aplicação. Por isso, torna-se difícil prever um modelo para o comportamento desses pesticidas.

De maneira geral, esses produtos podem ser retidos, transformados, transportados pelo solo e bioacumulados em organismos animais e vegetais.

Figura 1: Produtos que podem estar contaminados com agrotóxicos.

 

Pesquisadoras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul relatam que os agrotóxicos inorgânicos, como os cúpricos (presença de cobre na sua composição), podem persistir no solo por décadas. Já no caso dos hidrocarbonetos aromáticos, eles podem permanecer no ambiente por anos.

Além disso, os agrotóxicos podem interferir na fisiologia e metabolismo de vegetais e animais, degradando estruturas relacionadas aos processos fotoquímicos metabólicos. Com relação aos animais, os agrotóxicos podem ser bioacumulados, causando toxicidade e contaminação em espécies não-alvo.

Os recursos hídricos também podem ser afetados, principalmente os superficiais e subterrâneos. Eles são os principais destinos dos pesticidas. A contaminação das águas tornou-se preocupante. Mesmo em concentrações baixas, os agrotóxicos podem causar danos aos consumidores.

O solo também não fica de fora da contaminação quando se fala em pesticidas. A poluição do solo por agrotóxicos pode causar alterações na degradação da matéria orgânica através da inativação e morte de microrganismos e invertebrados que se desenvolvem no solo. A ciclagem de nutrientes também pode ser afetada. Isso interfere no desenvolvimento de bactérias fixadoras de nitrogênio, responsáveis pela disponibilização do mineral às plantas.

 

E dá para solucionar o problema?

Os efeitos provocados pela utilização de agrotóxicos é impactante e gera problemas ambientais e de saúde pública.

Um primeiro passo para melhorar a relação com os agrotóxicos é a conscientização da população da necessidade de reduzir a utilização desses produtos. Programas visando a redução do número de aplicações e o desperdício do produto aplicado já são desenvolvidos. Uma simples modificação no pulverizador pode reduzir a exposição de um trabalhador, por exemplo.

Além disso, entender os aspectos bioquímicos do agrotóxico é importante. Conhecer o ciclo de vida desses produtos, desde as matérias-primas até o descarte, poderia reduzir os impactos ambientais e os problemas relacionados à contaminação.

Para um futuro ainda menos agressivo, é necessário o incentivo de uma produção agrícola limpa, como a produção orgânica, o manejo integrado e a utilização de agentes de controle biológico para a redução de danos no campo.

Apenas a educação do produtor rural poderá mudar esse cenário. Quando se conhece alternativas mais limpas e eficientes, a produção torna-se mais sustentável, garantindo boa alimentação para a população, sem prejudicar a saúde humana e o meio ambiente.

 

REFERÊNCIAS

Araújo AJ, Lima JS, Moreira JC, Jacob SC, Soares MO, Monteiro MCM, Amaral AM, Kubota A, Meyer A, Cosenza CAN, Neves C, Markowitz S. Exposição múltipla a agrotóxicos e efeitos à saúde: estudo transversal em amostra de 102 trabalhadores rurais, Nova Friburgo, RJ. Ciência e Saúde Coletiva. 2006.

Faria NMX, Fassa AG, Facchini LA. Intoxicação por agrotóxicos no Brasil: os sistemas oficiais de informação e desafios para a realização de estudos epidemiológicos. Ciência e Saúde Coletiva. 2006.

Moreira JC, Jacob SC, Peres F, Lima JS, Meyer A, Oliveira-Silva JJ, Sarcinelli PN, Batista DF, Egler M, Faria MVC, Araújo AJ, Kubota AH, Soares MO, Alves SR, Moura CM, Curi R. Avaliação integrada do impacto do uso de agrotóxicos sobre a saúde humana em uma comunidade agrícola de Nova Friburgo, RJ. Ciência e Saúde Coletiva. 2002.

Peres F, Moreira JC, Dubois GS. Agrotóxicos, saúde e ambiente: uma introdução ao tema. É veneno ou é remédio. 2003.

Ribas PP, Matsumara ATS. A química dos agrotóxicos: impacto sobre a saúde e meio ambiente. Revista Liberato. 2009.

Spadotto CA, Gomes MAF, Luchini LC, Andréa MM. Monitoramento do risco ambiental de agrotóxicos: princípios e recomendações. Embrapa. 2004.

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