A importância do investimento em Ensino de Ciências

Nesses tempos de pandemia da COVID-19, a cada minuto recebemos muitas informações. Notícias de novos casos e mortes, pesquisas sobre vacinas e medicamentos, mensagens nos grupos de Whatsapp com curas mirabolantes e, supostamente, milagrosas… Como saber o que é certo e o que é fake? Não é tão difícil quanto parece. As vezes, basta lembrar um pouco das aulas de Ciências da escola para desmistificar muitas dessas notícias.

Esses dias li um meme nas redes sociais:

2002 – para quê preciso estudar célula eucarionte/procarionte, vírus, vacinas???

2020 – Coronavírus foi fabricado na China! Vacinas fazem mal! É só uma gripezinha!

Foi engraçadinho ver as expressões dos personagens na imagem dizendo essas coisas. Por outro lado, esse tipo de meme mostra uma realidade triste que se observa no nosso país: a descrença na Ciência. E esse desprezo pela Ciência se agrava simplesmente pela falta de entendimento dos conhecimentos científicos básicos.

Existe o interesse pela Ciência, mas pouco conhecimento sobre ela

O brasileiro se interessa por Ciência, embora saiba pouco sobre ela. Uma pesquisa de 2015, realizada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia (C&T) e Inovação, buscou traçar um perfil da relação entre a população brasileira e a Ciência (“Percepção Pública de C&T no Brasil 2015 – Ciência e Tecnologia no olhar dos brasileiros”).

Essa pesquisa mostrou que 61% dos entrevistados disseram ser interessados ou muito interessados em Ciência. Essa porcentagem é maior do que os interessados em Esportes (56%), Moda (34%) e Política (28%). A mesma pesquisa mostrou que houve um aumento na visitação de espaços científicos como museus, jardins botânicos e zoológicos. Também foi apontado que a maior parte dos entrevistados obtém informações científicas pela TV e pela Internet.

No entanto, a mesma entrevista mostrou que muitos dos participantes, sobretudo os jovens, não souberam informar o nome de algum cientista brasileiro ou centros de pesquisa do país. Além disso, mostrou que existe uma porcentagem que acredita que a Ciência traz muitos malefícios e que os cientistas têm muitos conhecimentos que os tornam perigosos.

Esse interesse e, ao mesmo tempo descrença e preocupação, em relação à Ciência nos leva de volta ao meme que comentei logo acima. O que acontece na idade escolar, que faz com que um jovem não se importe e ache que as informações poderiam ser bobagens?

Os primeiros contatos com a Ciência

O primeiro contato de muitas pessoas com a Ciência acontece nos primeiros anos da escola. Os conhecimentos sobre os seres vivos, o corpo humano e o espaço sideral são fascinantes, despertando interesses e paixões nos estudantes. No entanto, esse interesse pode diminuir com o passar dos anos, quando aquela criança chega à adolescência. O início de uma maior complexidade nos conteúdos de Ciências, problemas de aprendizagem, todas as mudanças psicossociais da adolescência e o despertar de novos interesses pelo jovem podem deixar o gosto pela Ciência um pouco de lado, o que é prejudicial para um aprendizado satisfatório.

Se o aluno perde o interesse, ele não vê lógica em aprender sobre vírus, bactérias, vacinas e formato da Terra, achando que isso nunca será útil para ele. Só que esses conhecimentos fazem parte da realidade do mundo onde ele vive, um mundo que não é plano, onde antibióticos matam bactérias, que álcool é eficiente na higienização das mãos etc.

Se você parar para analisar algumas das Fake News sobre o novo coronavírus (o Eureka desmentiu várias delas. Confira no nosso Facebook ou Instagram!), qualquer pessoa que lembre do que aprendeu na escola saberia que são falsas.

Uma dessas fake news dizia que “a célula do vírus mede 540 nm”. Isso é  errado porque vírus não são formados por células. Outra desinformação veiculada pelas fake News é a de que “devemos consumir alimentos alcalinos como o limão”; o limão é ácido, é só lembrar das aulas de Química.

Como solucionar essa questão?

Parte do problema relacionado com a descrença na Ciência pode ser efeito da não compreensão da Ciência. Na escola, o conteúdo pode estar muito denso e confuso para o aluno; falta uma aproximação entre conteúdo, professor e aluno, que devem se comunicar em uma mesma linguagem.

É importante que professores não deixem o interesse pelas aulas de Ciências diminuírem. Santos e seus colaboradores realizaram uma pesquisa em 7 escolas da rede pública de Criciúma (SC) e perceberam que os alunos se interessam por Ciências, embora muitas vezes as aulas são pouco atrativas. O jovem pode ficar desmotivado caso o conteúdo seja abstrato demais, ou possua muitos cálculos, e o docente deve agir para isso não acontecer. É importante que o aluno saiba como a Ciência é feita e como tudo aquilo que aprende chegou até ele. Aulas práticas no laboratório de Ciências ou de Informática e a construção de modelos simples com isopor e massinha de modelar marcam a memória do aluno de uma forma grandiosa. O conteúdo é compreendido de maneira muito mais fácil e natural, para toda a vida.

Trazer aqueles tópicos para a realidade do estudante é outra ação primordial a ser feita. Quando o aluno percebe que aquilo que o professor fala está presente em seu cotidiano, ele consegue relacionar vários assuntos, refletindo e questionando se algo é verdadeiro ou não, se existem riscos, se algo é lógico. Essa competência deve ser desenvolvida nos alunos durante as aulas de Ciências, permitindo que ele leve para a vida todas aquelas habilidades desenvolvidas. Afinal, quando falamos em compreender as Ciências, estamos falando de compreender o mundo. O mesmo mundo onde vivemos e sentimos as alterações que sofre.

Faltam recursos aos professores

Muitas vezes falta ao professor um apoio para realizar todas essas atividades. Infelizmente, como cita Pieri em seu “Retratos da Educação no Brasil” (2018), o investimento em educação e a gestão desses recursos estão muito aquém do esperado.

Isso é perceptível na realidade de diversas escolas Brasil afora. Faltam recursos básicos, como materiais de laboratório, de infraestrutura e capacitações para que os alunos tenham aulas diferenciadas, contextualizadas e atrativas, que só trazem benefícios para sua aprendizagem. Por isso é urgente um olhar mais atento e carinhoso com a educação do país, pois esse investimento trará conhecimento à população, presente nas boas práticas de saúde e em não acreditar em tudo o que se lê.

Portanto, sempre que receber alguma notícia “boa demais para ser verdade”, leia-a com atenção. Será que aquilo realmente faz sentido? Será que o que aprendi com meus professores se aplica aqui? Na dúvida, busque na internet em fontes seguras, como sites científicos, de instituições de pesquisas e órgãos sérios.

Não acredite em tudo o que lê!

REFERÊNCIAS

Gouw AMS, et al. O Jovem Brasileiro e a Ciência: Possíveis Relações de Interesse. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, v. 16. n. 3. pp. 627–648, 2016.

Laplane MA, et al. Percepção pública da ciência e tecnologia 2015 – Ciência e tecnologia no olhar dos brasileiros. Sumário executivo. Brasília: Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, 2015.

Pieri R,. Retratos da Educação no Brasil. INSPER – Instituto de Ensino e Pesquisa, 2018.

Santos AC, et al. A importância do ensino de Ciências na percepção de alunos de escolas da rede pública municipal de Criciúma – SC. Revista Univap, v. 17, n. 30, 2011.

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