A desinformação em tempos de COVID-19

Outra manhã de quarentena. Você acorda, prepara seu café da manhã e liga a internet no celular. De repente, mensagens anunciando “tratamentos efetivos contra a COVID-19” começam a pipocar. Achando a história “muito boa para ser verdade”, você decide pesquisar na internet e descobre que nenhuma informação é verdadeira. Ao comentar isso com outras pessoas, você percebe que muitas repassaram o conteúdo para outros acreditando ser verdadeiro. O cenário descrito acima é mais comum do que você pensa.

Hoje, falsos tratamentos, rumores sobre a origem do vírus, meios de prevenção sem comprovação científica e falsas informações sobre o vírus e a doença “viralizaram” como memes. Neste artigo, falaremos sobre o perigo da disseminação desses conteúdos durante uma pandemia, além de dar dicas para te ajudar a identificar lorotas que circulam por aí.

Infodemia: o que é isso?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a pandemia da COVID-19 está sendo acompanhada por um excesso de informações relacionadas à ela. Infodemia foi o nome atribuído pela OMS à esse excesso de conteúdo que se multiplica exponencialmente. Nesse “oceano” de posts, vídeos, mensagens e dados, nem tudo que encontramos por aí é verdadeiro. Por isso, rumores e desinformação, ou seja, informações falsas ou enganosas, também são encontradas.

O acesso à internet facilitou as formas como podemos obter informações. Contudo, rumores e desinformação sobre a COVID-19 também são disseminados pela internet, em especial, nas redes sociais.

Qual tipo de desinformação circulou durante a pandemia?

Um estudo conduzido por pesquisadores da Fiocruz identificou as principais informações falsas que circulavam pelas redes sociais no país. Para isso, os pesquisadores utilizaram as denúncias encaminhadas para o aplicativo “Eu Fiscalizo”. De março ao início de abril, a maioria das informações falsas tratavam de métodos caseiros de prevenção (65%) e com potencial de “cura” (20%) da COVID-19. Já de meados de abril até o início de maio, a maioria das informações enganosas afirmavam que a doença era uma estratégia política (24,6%). A porcentagem de mensagens que ensinavam métodos caseiros para prevenção do contágio diminuiu (10,1%), e cresceram aquelas que defendiam o uso da cloroquina e hidroxicloroquina, sem comprovação científica para o tratamento da COVID-19 (10,1%).

Segundo dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic), em 2019, 134 milhões de brasileiros eram usuários de internet. Desses, 76% faziam uso de alguma rede social.

Se considerarmos o nosso uso das redes sociais, a probabilidade de que encontremos ou recebamos informações falsas como as citadas acima é grande. Se não soubermos avaliar a qualidade desses conteúdos, a chance de propagarmos conteúdos falsos (mesmo que não intencionalmente) também é maior.

O impacto da infodemia na pandemia

O excesso de informação em momentos como o atual dificulta encontrar fontes idôneas e recomendações confiáveis. Como é mais difícil encontrar essas informações, o processo de tomada de decisão, em especial quando precisamos adotar estratégias rapidamente, pode ser afetado.

Notícias falsas que promovem tratamentos sem comprovação científica contra a COVID-19 podem colocar a vida das pessoas em risco. Se autoridades dentro de um país propagam informações falsas que contradizem as evidências científicas disponíveis, cria-se um cenário de incerteza. E a população deixa de saber quais recomendações seguir. Além disso, a abundância de informações pode impactar nossa saúde mental, fazendo-nos sentir sobrecarregados, emocionalmente exaustos e ansiosos. Isso compromete nossa capacidade dar atenção àquilo que importa.

“Tente parar a disseminação de informações falsas”. United Nations COVID-19 Response. Disponível em Unsplash.
Como identificar desinformações e combater sua viralização

Assim como o vírus SARS-CoV-2 é transmitido de pessoa para pessoa, a disseminação de informações falsas também o é. Por isso, é importante que saibamos identificar conteúdos enganosos para que não os repassemos para mais ninguém. Uma forma de fazer isso é lembrar das suas aulas de Ciências da escola. Essas aulas podem ajudar a desmistificar muitas dessas notícias, como já foi comentado em um texto anterior do Eureka!Brasil

Além disso, analisar a informação que você recebeu pode ajudar a discernir se ela é verdadeira ou não.

Dicas para detectar a desinformação

A seguir, apresentamos algumas dicas. Elas foram baseadas no conteúdo disponível no site do governo do estado de São Paulo, na Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e na Vidya Academics (grupo de divulgação científica da Universidade de São Paulo) em parceria com a Pretty Much Science.

  • Confira a fonte da informação. Desconfie caso você receba mensagens sem autoria ou com autoria incerta (ex.: “os pesquisadores”). Se a informação apresenta uma fonte, pesquise-a no Google para se assegurar que ela é verdadeira.
  • Aquele português mais ou menos. Geralmente, informações enganosas apresentam erros ortográficos, gramaticais e de pontuação. Além disso, usam-se muito exclamações, palavras com letras maiúsculas e recursos gráficos para chamar nossa atenção.
  • A informação causou uma reação emocional muito forte? Desconfie. Informações enganosas buscam produzir reações intensas, pois isso aumenta a chance de você compartilhá-las com mais alguém.
  • Leia toda a informação e não apenas o título. Textos falsos muitas vezes trazem informações absolutas (ex.: “tratamento 100% efetivo”) que não citam fontes ou informações que se contradizem. Notou algo estranho ao longo do texto, fique atento.
  • Pesquise o título na internet.Se a informação é verdadeira, possivelmente outras mídias vão ter comentado algo sobre ela. Se for falsa, sites que verificam dados (alguns deles são Agência Lupa e o Fato ou Fake) já podem ter avaliado sua veracidade.
  • Recebeu uma foto, áudio ou vídeo? Verifique sua veracidade. Com as imagens, faça uma pesquisa “inversa”. Salve a foto no seu computador e faça seu upload no Google images e veja o que a pesquisa retorna. Já para os áudios e vídeos, faça uma pesquisa utilizando o nome da plataforma que você recebeu essa informação (ex.: “whatsapp vídeo cura COVID-19 alho”).

Se você está buscando atualizações sobre a COVID-19, opte por fontes confiáveis, como as agências de saúde internacionais (OMS, OPAS e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos – CDC) e nacionais (Ministério da Saúde). E lembre-se: a propagação de informações falsas é feita de pessoa para pessoa. Se quisermos frear isso, devemos agir para impedir sua viralização.

REFERÊNCIAS

Fleming N. Coronavirus misinformation, and how scientists can help to fight it. Nature. 2020.

 Mian A, Khan S. Coronavirus: the spread of misinformation. BMC medicine. 2020.

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