A COVID-19 pode afetar os animais de estimação ?

Dados atuais das infecções pelo vírus SARS-CoV-2 (causador da COVID-19) indicam que ele infecta principalmente seres humanos. Contudo, muitos se perguntam se o vírus seria capaz de infectar outros animais e, assim, levar ao seu adoecimento. Nessa população estão os donos de animais de estimação, preocupados com a saúde e bem-estar dos seus companheiros de quatro patas. Embora existam relatos de casos de animais de estimação infectados, ainda não sabemos se eles ficam doentes como nós. Quanto à susceptibilidade e transmissão do vírus, os dados científicos com cães e gatos ainda são limitados, exigindo cautela na sua extrapolação para vida real. Informações sobre se há transmissão do vírus de seres humanos para animais de estimação ainda são escassas. Neste artigo, comentaremos o que se sabe sobre essas e outras questões.

Sabemos algo até agora?

Atualmente existem mais perguntas do que respostas. O número de relatos de infecção pelo vírus em pets é muito pequeno, como apontado em matéria da revista Science. Os casos foram investigados na China e Bélgica em cães e gatos que vivem com pessoas diagnosticadas para a COVID-19. De todos os animais avaliados (até março, 17 cães e 8 gatos na China e 1 gato na Bélgica), 2 cães e 2 gatos testaram positivo para SARS-CoV-2. Isso quer dizer que o material genético do vírus foi encontrado em amostras desses 4 animais.

Podemos transmitir o vírus para nossos pets?

Com a divulgação dos casos acima, autoridades como a Organização Mundial da Saúde (OMS) cogitaram a possibilidade de transmissão do vírus de seres humanos para esses animais. No entanto, isso só foi verificado em 1 dos casos. Neste caso o material genético do vírus encontrado no animal era semelhante àquele encontrado no dono. Embora esse caso endosse a ideia de transmissão do vírus de seres humanos para pets, ainda não sabemos como isso ocorreria e a frequência com que isso ocorreria.

Qual a susceptibilidade e transmissibilidade do vírus em outras espécies?

Um estudo recentemente publicado na revista científica Science e que ganhou destaque na mídia (CNNBrasil, UOL) investigou isso. Pesquisadores inocularam uma grande quantidade do vírus pelo nariz de cães, gatos, furões, patos, galinhas e porcos e fizeram a detecção do vírus após a infecção. Em gatos, o material genético do SARS-CoV-2 foi identificado em todos os animais (4 sub-adultos e 4 juvenis). Já em cães, 2 dos 5 animais apresentaram rastros do vírus. Esses dados sugerem que gatos são mais susceptíveis à infecção do que cães.

Para avaliar a transmissibilidade do vírus, animais não infectados foram alojados próximos a animais infectados. Dos 6 gatos não infectados, apenas 2 apresentaram material genético do vírus e anticorpos contra ele após a exposição. Em cães, nenhum dos animais não infectados apresentou rastros do vírus ou anticorpos contra ele. A partir desses dados, os pesquisadores sugerem que gatos transmitem o vírus para outros gatos. Embora os resultados do trabalho sejam relevantes, o estudo apresenta limitações. O número reduzido de animais utilizado nos experimentos limita o quanto podemos expandir os achados para uma população maior de animais. Além disso, infecções induzidas experimentalmente e, neste caso, com alta carga viral, podem não refletir o que ocorreria na “vida real”, onde a carga viral pode ser bem menor. Assim, como apontado recentemente por pesquisadores brasileiros, mais estudos são necessários para avaliar a susceptibilidade e transmissibilidade do vírus em outros animais.

Pets podem ficar doentes?

Ainda não sabemos. Até o momento, de todos os casos de animais infectados, seja em ambiente domiciliar ou laboratorial, apenas um gato (caso na Bélgica) apresentou sintomas respiratórios e gastrointestinais. Contudo, esses sintomas não foram associados diretamente à infecção pelo SARS-CoV-2. Isso foi reportado pela Associação Americana de Medicina Veterinária (AVMA) e em matéria da revista ScienceNews. Assim, pode ser que cães e gatos infectados não desenvolvam sintomas semelhantes aos observados em seres humanos. Ou pode ser que ainda não fomos capazes de detectar esses sintomas, uma vez que o número de animais infectados ainda é pequeno. 

Pets poderiam transmitir o vírus para nós?

Até agora, não foram realizados estudos para avaliar isso. Embora não saibamos se isso pode ocorrer, organizações como a AVMA reforçam que não há motivos para o abandono de animais. A AVMA juntamente com CDC dos Estados Unidos e a OMS ressaltam a necessidade de mais evidências para saber se animais de estimação atuam como agentes disseminadores do SARS-CoV-2 para nós.

Portanto, ainda temos mais perguntas do que respostas. A falta de informações estimulará a condução de mais estudos. Estudos esses que podem focar na compreensão de como esse vírus afeta outras espécies de animais. Ou no entendimento de como ele se dissemina (ou não) de uma espécie para outra.

Figura 1: Animais de estimação

REFERÊNCIA

Shi J et al. Susceptibility of ferrets, cats, dogs, and other domesticated animals to SARS-coronavirus 2. Science, 2020.

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